<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176</id><updated>2012-03-14T02:42:51.962-04:00</updated><title type='text'>TEORIA E LITERATURA</title><subtitle type='html'>Prof. Dr. Cláudio Martins possui Especialização em Literaturas em Língua Inglesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2000), mestrado em Letras (Literaturas em Língua Inglesa) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2003) e Doutorado em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro(2009). Professor Adjunto da graduação e pós-graduação da Cândido Mendes e Faculdades Integradas Simonsen.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>47</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-8620898307266203161</id><published>2012-03-02T19:00:00.001-04:00</published><updated>2012-03-07T19:53:29.101-04:00</updated><title type='text'>Joaquim manuel de Macedo - "O Passeio Público"</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 16pt;"&gt;Aos meus leitores&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 14pt;"&gt;Vou entregar&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 14pt;"&gt;ao domínio e à apreciação do público reunidos em livro osartigos que sob o título “Um Passeio” tenho publicado e espero continuar apublicar nos folhetins do &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 14pt;"&gt;Jornal doComércio, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 14pt;"&gt;e embora não hajanovidade na obra, julgo que sem inconveniente podem-se permitir ao autoralgumas palavras a respeito do seu trabalho. Quero dar aos meus leitores umasimples explicação com toda a franqueza e verdade. Determinei escrever o quesabia e conseguisse saber sobre a história e tradições de alguns edifícios,estabelecimentos públicos e instituições da cidade do Rio de Janeiro, abundandoquanto pudesse em informações relativas aos homens notáveis e aos usos ecostumes do passado; porque entendi que com este meu trabalho presto ao meupaís um serviço e pago-lhe um tributo de patriotismo, pois que concorro com omeu contingente, fraco embora, para salvar do olvido muitas cousas e muitosfatos cuja lembrança vai desaparecendo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 14pt;"&gt;Procurandodesempenhar a tarefa que tomei sobre os ombros, tenho lido e vou lendo, tenhoconsultado e vou consultando as obras dos antigos e modernos cronistas ehistoriadores da nossa terra, e, o que mais importa, sem dó nem piedade, tenhomaçado e atormentado a todos os bons velhos que me honram com a sua amizade ouque têm a paciência de tolerar e atender às minhas impertinentes perguntas. Aindaassim, escapam-me erros e omissões que vou corrigindo quanto posso e que outrosmais bem informados corrigirão, se eu o não fizer. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 14pt;"&gt;Evidentemente o meutrabalho sairia mais limpo de senões, se menos indiferença houvesse pelamatéria dele, e se não se observasse tanta avareza de conhecimentos da parte dealguns e tanta preguiça da parte de&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 14pt;"&gt;muitos. Eu declaro alto e bom som queestou pronto para reconhecer e emendar os meus erros; o que me falta é quem osqueira apontar, e me ensine a corrigi-los. Encetando este trabalho, tive asimplicidade de supor que contaria repetidas ocasiões de agradecer aespontaneidade do favor de muitas informações curiosas. Já perdi essa ilusão!Até hoje ainda não mereci um só esclarecimento que não fosse pedido eprocurado, e quando saio a esmolar informações não poucas vezes recebo emresposta um Deus-lhe-favoreça que por certo me desanimaria, se, em compensação,não fosse tão penhorador o obséquio com que tenho sido tratado por diversaspessoas. Entretanto, o assunto de que me ocupo nesta obra é, sem questão,interessantee útil, e somente pode ter sido amesquinhado pela minha inabilidade deescritor. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 14pt;"&gt;Essa inabilidade souo primeiro a confessar; mas devo e querodesculpar-me de dois defeitosprincipais que além de outros muitos se encontram nos meus passeios. Creio quealguém já censurou este trabalho, porque o tenho escrito quase sempre em tombrincalhão e às vezes epigramático, e porque misturo em um ou outro ponto averdade histórica com tradições inaceitáveis, e em alguns casos com ligeirosromances e lendas imaginadas. Darei a razão do que fiz e porque assimcontinuarei a fazer. Há dezenove anos que escrevo e ouço publicar os meuspobres escritos, e até hoje, graças a Deus, ainda não tive a vaidade de tentarescrever para aproveitar aos eruditos e aos sábios. Não me pesa esse pecado naconsciência.&amp;nbsp; Os eruditos e os sábios rir-se-iamde mim. Até hoje só tenho escrito com a idéia de aproveitar ao povo e àquelesque pouco sabem. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 14pt;"&gt;Ora, escrevendo eutambém para o povo esta obra, cuja matéria é árida e fatigante, não quisexpô-la ao risco de não ser lida pelo povo, que&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 14pt;"&gt;prefere os livros amenos e romanescos àsobras graves e profundas. Que fiz eu? Procurei amenizar a história,escrevendo-a com esse tom brincalhão e às vezes epigramático que, segundodizem, não lhe assenta bem, mas de que o povo gosta; juntei à históriaverdadeira os tais ligeiros romances, tradições inaceitáveis e lendasinventadas para falar à imaginação e excitar a curiosidade do povo que lê, eque eu desejo que leia os meus &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 14pt;"&gt;Passeios&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 14pt;"&gt;; mas nem uma só vez deixei de declararmuito positivamente qual o ponto onde a intenção se mistura com a verdade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 14pt;"&gt;Acertei ou errei, procedendo assim? Decidao público, que é o meu juiz, e qualquer que seja a sua decisão quer me absolva,quer me condene,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 14pt;"&gt;..........Fico contente,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 14pt;"&gt;Que a minha pátria amei, e a minha gente.&lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 22pt;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 22pt;"&gt;..........................................................................................................................................................&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 22pt;"&gt;O Passeio Público&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Fazei de conta que vos achaisagora comigo no aprazível terraço do Passeio público do Rio de Janeiro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;O dia foi calmoso. Em compensação,porém, a tarde é bela e fresca. O sol derrama sobre a terra seus últimos raios.Anuncia-se a hora do crepúsculo. A viração festeja docemente as verdes folhasdas árvores que sussurram com um leve ruído.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Imaginai tudo isto.Embalar-vos-eis com uma ficção que já tem sido e será mil vezes uma verdade. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Sentemo-nos nestes bancos demármore e de azulejos. Voltemos as costas para o mar. O espetáculo dessanatureza opulenta, grandiosa, sublime, absorve-nos-ia em uma contemplaçãoinsaciável. Cerremos por algum tempo os olhos à majestade das obras de Deus. Ahora do crepúsculo é suave, melancólica e propícia aos sonhos do futuro e àsrecordações do passado. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Deixemos o futuro a Deus no Céu eaos poetas na Terra. &lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Lembremos antes o passado, e,ligados pelo mesmo pensamento, vamos buscar no último quartel do século décimooitavo o princípio da história deste jardim público. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Suponhamos ainda e finalmente quepor unanimidade de votos me escolhestes para vosso orador: foi uma eleiçãointeiramente livre, sem cabala, sem &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;fósforos&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;, semintervenção da polícia, sem duplicatas, sem anulações de votos &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;fatais&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;,um verdadeiro milagre constitucional. Tenho consciência da pureza do meumandato. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Falo em nome de todos vós. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;O célebre Luís de Vasconcelos eSousa, que no dia 5 de abril de 1779 substituíra o marquês de Lavradio nogoverno do Brasil, via com a mais profunda mágoa começar o seu vice-reinadodebaixo de maus auspícios. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Moço ainda e, portanto, sem aqueleprestígio de uma longa experiência que se assinala nas rugas da fronte e noscabelos grisalhos, que aliás nem sempre são companheiros da sabedoria e daprudência, viera suceder a um administrador provecto, hábil e feliz, quedeixava o seu nome recomendado à memória do povo pelos serviços que prestara àagricultura, pela proteção que dera às letras nascentes no Rio de Janeiro, epelos cuidados com que se empenhara em prover às despesas, à polícia e aodesenvolvimento e asseio da cidade capital da grande colônia portuguesa daAmérica. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;A lembrança do marquês de Lavradiofazia já não pouco difícil a posição do novo vice-rei, e ainda como paratorná-la mais embaraçada, sobrevieram logo dois lamentáveis sucessos, umacalamidade e um flagelo inesperados, que encheram de desgosto a população. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Alguns meses apenas tinham passadodepois da chegada de Luís de Vasconcelos ao Rio de Janeiro, quando, emconseqüência de chuvas aturadas e violentas, romperam-se os aquedutos dasfontes públicas, deixando os habitantes da cidade em luta com a carestiad’água, que somente de longe se podia trazer. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Então o pretinho que passava pelarua gritando – Ii! – fazia pagar por um preço relativamente fabuloso o poted’água que levava à cabeça, e isso era um tormento para os pobres e um motivode lamentações para os ricos. Se não compreendeis bem a significação dessegrito 82 Joaquim Manuel de Macedo dos vendedores d’água, que ainda se ouvia noRio de Janeiro em uma época muito recente, eu vo-lo explico. Logo depois dafundação da cidade de S. Sebastião, eram os índios ou gentios que vendiam águaaos colonos e a anunciavam na sua língua, bradando: – Ig! Ig! – palavra que foicorrompida mais tarde pelos africanos escravos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Mas, ainda pior do que a ruína dosaquedutos, aconteceu imediatamente&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;que se desenvolvesse uma terrível epidemia que espalhouo terror e o luto no seio da bela Sebastianópolis. Era uma febre de caráter maligno,acompanhada de afecções cerebrais e da medula, e que, quando não terminava coma morte dos doentes, deixava a estes um legado&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;cruel de paralisias e de deformidade. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Chamou-se então a essa epidemia – &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;zamperini &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;ou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;zamparina&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;, como dizia opovo, que foi quem assim a denominou. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Permiti que eu interrompa poralguns momentos a minha narração, para dizer duas palavras a respeito de certasdenominações populares dadas a algumas epidemias. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Como as moléstias epidêmicasatacam a muitos indivíduos ao mesmo tempo, o povo, que não entende a tecnologiamédica e vê naquele fato alguma coisa que se parece com a &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;moda&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;,dá ao mal reinante o nome que está mais em moda. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Assim, em 1779, chamou à epidemiaque ceifava a população, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;zemperini&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;, porque entãose penteavam os cabelos e se usavam diversos objetos e vestidos à &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;Zamperini&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;, que foi aquela célebre cantora veneziana que chegou aLisboa em 1770, levada pelo notário apostólico da nunciatura, e a quem noteatro da rua dos Condes iam todos aplaudir, notavelmente o padre Macedo, quelhe dirigiu sonetos e odes como qualquer outro pecador inspirado o faria. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Assim, também chamou-se em 1847, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;polka&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;,e em 1851, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;shottisch&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;, nomes de duas danças muito em voga nesse tempo, aduas epidemias que apareceram. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;No princípio do nosso século, senão estou em erro, desenvolveu-se na cidade do Rio de Janeiro uma catarral tãoviolenta que os afetados à força de tossir acabavam por corcovar-se; a essamoléstia, porém, não deu o povo um nome da moda, e chamou-a muitoapropriadamente &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;carcunda&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Talvez me acusem de prolixo edivagador por entrar em explicações que não têm relação alguma com a históriado Passeio Público. É uma injustiça: convém guardar as lembranças que vouregistrando, e que podem para o futuro prevenir confusões possíveis. Porexemplo, não se poderia dar o caso de se confundirem as &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;carcundas &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;catarrais com os &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;carcundas &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;políticos,denominações que foram ambas empregadas neste século? Pelo menos, osabsolutistas devem me agradecer o empenho com que esclareci um fato que livra aqualquer deles de ser confundido com uma catarral, e que era muito possível queacontecesse. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Fique, pois, bem determinado esabido: a nossa população nunca até hoje se lembrou de fazer uma alusãopolítica, quando trata de alcunhar alguma epidemia e, entretanto, se o fizesse,não era novidade no mundo, porque em França já o povo deu o nome de um ministroantipático a uma moléstia epidêmica que reinou em Paris. Não digo que andassebem procedendo assim, não; mas é impossível deixar de reconhecer que às vezesaparecem ministros e ministérios que são tão funestos ao país como a peste maisflageladora e mortífera. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Prossigo sem mais demora anarração que interrompi. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;A cidade do Rio de Janeiro estava,pois, em uma situação duplamente dolorosa. Mas, se alguém então desanimou nãofoi por certo Luís de Vasconcelos, que deu prontas e enérgicas providênciaspara o abastecimento d’água, assim como tomou medidas higiênicas para combater a&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;zamperini&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;, mandou socorrer os enfermos pobres, e ainda teve tempoe força para ordenar o começo dessa série de obras importantes que perpetuaramo seu nome. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Luís de Vasconcelos reunia agrandes qualidades de administrador maneiras tão afáveis, tanta cortesia ebondade, que soube depressa conquistar as simpatias do povo. Em breve estassimpatias se transformaram na mais bem fundada estima e consideração; porque oativo e infatigável vice-rei empreendeu grandes trabalhos em proveito dacidade, e para levá-los ao cabo soube cercar-se de todos os homens esclarecidose capazes de coadjuvá-lo que encontrou no Rio de Janeiro. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Um dos seus prediletos era omestre Valentim. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Observar-me-eis que eu não disseainda quem era o mestre Valentim. Tendes razão. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Valentim da Fonseca e Silva erafilho de um fidalgo português e de uma rapariga do Brasil, e teve o seu berçoou no Rio de Janeiro ou mais provavelmente na província de Minas Gerais, ondeseu pai era contratador de diamantes. Foi levado por ele para Portugal, dondevoltou órfão e ainda jovem, repelido pelos parentes, e trazendo por herança únicao vício minhoto que sempre conservou na fala. Aprendeu no Rio de Janeiro a artetorêutica, e foi um arquiteto e um entalhador de primeira ordem. As igrejas doCarmo e da Cruz, a capela-mor da de S.Francisco de Paula e o chafariz do largodo Paço documentam o seu merecimento ainda hoje. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Devemos agradecer aos parentes dopai de Valentim o ímpeto de vaidade com que empurraram para o Brasil aquelepobre menino, que entre nós se fez um grande homem e que honrou a pátria comseu imenso talento. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;O mestre Valentim queixava-se deque Luís de Vasconcelos, que se dizia tão seu amigo e que tantos tributos pediaà sua capacidade artística, desse-lhe sempre mais elogios do que dinheiro;parece, porém, que não havia muito fundamento nas queixas do artista, a quemjamais sobrava o ouro, porque, amando muito o belo sexo e tendo especialpredileção por estrangeiras, pagava uma fingida e interesseira gratidão por preçotanto mais elevado quanto era maior a impressão que causava o seu rosto feio eexterior pouco simpático. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Mas Luís de Vasconcelos tinha emgrande estima o mestre Valentim; aprazia-se com as suas originalidades e com asua franqueza de artista e confiava muito na sua probidade e inteligência,fazendo-se até às vezes acompanhar por ele, quando saía a examinar o andamento dasobras que estava mandando executar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Corria ainda o ano de 1779, e emum dia, ao cair da tarde, o vice-rei, que da janela do palácio vira o mestreValentim dirigindo os últimos trabalhos do chafariz que do meio da praça foraremovido nesse ano para junto do mar, ordenou que o fossem chamar, e, apenas oviu aparecer, convidou-o a segui-lo em um passeio pela cidade. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Montaram ambos a cavalo, e Luís deVasconcelos, tomando a dianteira, depois de demorar-se um pouco observando aobra do cais que se principiara a construir em frente do palácio, partiu para omorro de Santa Teresa, onde se renovavam os aquedutos. Encaminhou-se pelas ruasde S. José e da Ajuda,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;ladeouo convento das freiras, preferindo à rua dos Barbonos&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;19 &lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;o seguir pelolargo da Ajuda,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;epela margem de uma feia lagoa que dali se estendia até ao fim da atual Rua doPasseio. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;O mestre Valentim sorrira-semaliciosamente vendo o vice-rei tomar aquela direção. É verdade que o boqueirãoda Ajuda, cujo seio se compreendia no espaço que vai desde a ponta do Calabouço&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;20 &lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;até ao monte deNossa Senhora da Glória, oferecia uma vista magnífica; mas a lagoa que ali seencontrava era repugnante: formada pelas águas da chuva que ficavam estagnadas,mostrava-se de feio aspecto, às vezes exalava um cheiro desagradável e, naopinião de muitos, passava por ser um foco de peste. Chamavam-na lagoa doBoqueirão. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Por que fizera caminho por aquelesítio o vice-rei? Por que se sorrira maliciosamente mestre Valentim? Eles lá osabiam. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;O lugar era desestimado; apovoação da cidade interrompia-se naquele ponto, onde apenas se viam três ouquatro humildes casinhas, e entre essas uma quase à beira da lagoa, e que,diante da porta e a dez passos, tinha uma bela palmeira e junto desta umacerrada moita de arbustos. Mas nem a palmeira, nem a moita de arbustos teriamfeito notar a pobre casinha, se à sua janela não aparecesse muitas vezes o maislindo rosto de moça morena que porventura havia na cidade. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Quando o vice-rei passou, a moçacorreu à rótula para vê-lo, e o mestre Valentim sorriu-lhe pela segunda vez. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Chegaram enfim os cavaleiros esubiram o morro de Santa Teresa. Examinaram as obras e conversaram tãolongamente a respeito dos aquedutos que começava a escurecer, quando desceram.Mas Luís de Vasconcelos, não querendo ainda voltar a palácio, rodeou o outeiro dasMangueiras, que então existia, ocupando o lugar da rua que teve depois o mesmonome, e partiu a galope em direitura ao Botafogo, prolongando tanto o seupasseio que eram nove horas da noite, quando de volta passava diante daromanesca ermida de Nossa Senhora da Glória. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;A lua estava brilhante, a viraçãosoprava docemente, a cidade parecia ir tranqüilamente adormecendo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Mestre – disse o vice-rei – acabaremos a pé o nossopasseio. Valentim sorriu-lhe pela terceira vez e apeou-se. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Os criados tomaram conta doscavalos e partiram adiante. O vice-rei e o artista ficaram sós e foramseguindo. Ao chegarem de novo junto do monte das Mangueiras, que era um espigãodo morro de Santa Teresa, Luís de Vasconcelos parou e disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Temos montes demais na cidade, mestre. Eis aqui umouteiro que podia bem desaparecer, sendo substituído por uma rua quefacilitaria a comunicação do bairro que deixamos com a rua dos Barbonos e comaquela a que o marquês, meu feliz antecessor, legou o seu nome.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Sr. vice-rei – observou o artista – a cidade temmontes demais, como V. Ex&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;a &lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;diz;creio, porém, que ela ainda precisa mais de aterros do que de arrasamentos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– E por que não faremos aterros à custa do outeiro quearrasarmos?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;O artista não respondeu, porque sorria pela quarta vezao ver que Luís de Vasconcelos tomava pelo mesmo caminho por onde viera.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Má direção vamos seguindo, Sr. vice-rei – disse ele;terá V. Ex&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;a &lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;depassar pela margem da lagoa do Boqueirão, que a esta hora, dizem, derrama emtorno miasmas pestíferos, e a &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;zamperini &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;ainda nãocessou de todo. Talvez fosse melhor ir buscar a rua do Lavradio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Onde mora o espanhol D. Pascoal, que toca guitarraexcelentemente, acompanhando as suaves cantigas de sua filha Pepita, cujos brilhantesolhos pretos e formosa cabeça fazem o encanto de certo artista meu amigo. Não éassim, mestre?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– É por certo assim, visto que V. Ex&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;a &lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;o diz. Mas querme parecer que a menina Susana, que mora na casinha da lagoa do Boqueirão, éainda mais bonita e tem voz mais suave do que a Pepita. O vice-rei voltou-separa trás, encarou Valentim e perguntou:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Então...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Então é que eu juro por minha alma que os vice-reistambém têm coração, e que V. Ex&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;a &lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;gosta muito da menina Susana. Luís de Vasconcelos bateuno ombro de Valentim e disse-&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;lhe:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Os vice-reis também têm coração. Mas às vezes não seperdoa a eles o que se desculpa em um artista. Vamos. Acabemos a noite como acomeçamos: seja uma noite de imprudência, e ao mesmo tempo de segredo. Estavamperto da lagoa, quando pararam, ouvindo a voz doce e melancólica de Susana, quecantava uma balada, da qual repetirei uma&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;estrofe, porque tem a cor e a simplicidade daquelaépoca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;Em S. Bento deu um’hora,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;No Colégio deram duas;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;Vede que horas são estas&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;Que eu por ti ando nas ruas!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;– Ah! meu bem! não venhas cá,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;Não venhas, prenda querida,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;Vede que eu sou impedida,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;Tenho impedimento forte.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;– Quem ama não teme a morte,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;Quem teme, não sabe amar;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;A cada passo que dá&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;Pisa logo no perigo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;Vive sempre a suspirar&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;Anda sem sossego ter:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;Assim mesmo, desta sorte,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 10pt;"&gt;A noite te venho ver!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Não modifiquei em uma única palavra a poesia destecanto; reproduzo-a com todo o seu merecimento especial e com todos os seus defeitos,até mesmo de gramática; sinto não poder também dar uma idéia da música, que,aliás, ouvi por vezes em minha infância, e que então me pareceu cheia de doçurae de melancolia. E o pior é que o gosto e a originalidade desses cantos, cuja músicatinha um caráter que a fazia distinguir da música característica de&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;todas as outras nações, têm-se ido perdendo pouco apouco, sacrificada ao canto italiano, cuja imitação é, desde alguns anos, opensamento dominante dos nossos compositores. As &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;modinhas &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;e os &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;lundus &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;brasileiros quaseque já não existem senão na memória dos antigos; foram banidos dos salõeselegantes e com todos os costumes primitivos, à semelhança das aves que,espantadas dos bosques vizinhos do litoral pelo ruído da conquista dos homens,fogem para as sombrias florestas do interior. Lá se acham proscritas, efelizmente ainda conservadas com a sua patriótica pureza no seio dos vales e notrono das montanhas, onde a população agrícola as asila em seus lares, vive comeles, alimentando a flama das recordações passadas que o estrangeirismo apagounas cidades.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Para a música característicabrasileira isso é uma verdadeira calamidade, e a Ópera Nacional, recentementecriada, se quiser ser nacional, deve opor-se à continuação de tão grave erro,excitando os nossos novos e talentosos compositores a escreverem naquele gostoque, bem aproveitado pela arte, pode produzir obras originais e deincontestável merecimento. Mas... é conveniente não deixar o vice-rei tantotempo esquecido na rua. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Luís de Vasconcelos, que tinhaparado por alguns instantes a ouvir as primeiras notas do canto de Susana,disse logo depois a Valentim:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Mestre, é verdade: amo aquela mulher. Agora, porém,não há aqui nem vice-rei nem artista; devemos supor que há somente dois curiososum pouco apaixonados, um pouco imprudentes, mas em todo o caso honestos. Vamosouvir de mais perto o canto de Susana&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;; &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;há ali uma moita de arbustos quenos será propícia. Veremos e ouviremos sem ser vistos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Já falou alguma vez àquela menina, Sr. vice-rei?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Nunca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Mestre Valentim seguiu Luís de Vasconcelos, que,cauteloso, penetrou na moita de arbustos e foi colocar-se tão perto da palmeiraque se achou quase ao lado de Susana. Porque Susana estava lá, sentada na relvajunto ao tronco do coqueiro e inundada pelo clarão da lua que fazia realçar asua formosura. Era uma moça que não tinha ainda vinte anos. Cabelos negros,ondeados e tão longos que lhe cairiam aos pés. Olhos grandes, pretos e cheiosde fogo celeste. Tez morena e fina, lindíssimo e voluptuoso colo. Braços magníficos.Mimosa e delicada na cintura. Pequenas mãos, e quase tão pequenas como os pés. Eraverdadeiramente encantadora e perigosa. Acabara de cantar, e descansava aguitarra a um lado, vendo chegar um mancebo que para ela corria.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Susana!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Vicente!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Quem chegou aí? – perguntou uma velha que estavasentada à porta da humilde casinha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– É o primo Vicente, minha avó.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Vejam lá! – disse a avó.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;O mancebo correu a beijar a mão da velha, e voltou logoa sentar-se aos pés da moça.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Estava cuidadosa – disse a moça. Hoje te demorastemuito.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Tardei muito, Susana. Mas a culpa teve o bompadre-mestre frei Veloso, que levou mais tempo do que costuma a dar-me a sualição de botânica. Que excelente homem é aquele sábio franciscano! Professa apobreza de sua ordem; mas a ninguém conheço mais rico de sabedoria e devirtudes. Como sabe animar os moços! Chegou hoje a dizer-me que espera ver-meem breve sentado entre os membros da Academia Científica do Rio de Janeiro, quefoi, há sete anos, fundada sob os auspícios do vice-rei marquês de Lavradio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Também, não sei para que servem tantas instruções emgente pobre! – disse a velha da porta onde estava sentada. Eu nunca soube ler nemescrever e, contudo, tive sempre muito juízo, e tu, Susana, tu, a quem teu tio,o meu infeliz filho, o defunto padre João Peres, ensinou tanta coisa, nem porisso deixas de ter a cabeça cheia de lantejoulas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Ah! minha avó – respondeu a moça sorrindo – é porqueo tio padre nunca pôde conseguir fazer-me aprender o seu latim, como desejava:foi só o que me faltou para ficar ajuizada. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– E o teu emprego, Vicente? – perguntou a velha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Minha avó, canso de esperar e nada consigo. Procureiobter um que vagara na alfândega e o deram ao filho de um desembargador. Outrosdois que requeri, um no hospital militar e o segundo nas obras que se estãoexecutando na cidade, foram dados a quem deles menos precisava.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Isso é mau, Vicente. É mau, porque eu tenho jánoventa anos e não posso ir muito adiante; e, morta eu, quem protegerá Susana, moçae solteira, como está? Vicente, é preciso cuidar em ter um emprego e em casarcom tua prima. Vicente beijou a mão de Susana que entre as suas apertava, e Valentimsentiu que o vice-rei estremecera e sufocara um gemido.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Minha avó – disse Vicente – eu irei amanhã pedir afrei Veloso para tomar-me debaixo da sua proteção. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Em teu lugar, primo – acudiu Susana – em vez de irter com frei Veloso, eu me dirigiria pessoalmente ao vice-rei.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Ao vice-rei! – balbuciou o mancebo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Sim. Então, que mal havia nisso?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Vicente começava a turvar-se. Susana ou não deu porisso, ou quis provocar o namorado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– O vice-rei Luís de Vasconcelos é bom e compassivo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Achas?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Todos o dizem.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– E tu, Susana?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Também me parece.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Por quê?...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Porque no seu rosto lê-se a generosidade e a grandezad’alma. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Mestre Valentim sorria. O vice-rei escutava comovido.Vicente, agitado, começava a esquecer a presença de sua avó.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Tens continuado a ver o vice-rei, Susana?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Ainda hoje.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– E ele a ti?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Como eu a ele.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– E o vice-rei olhou para ti? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Por que não?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Susana! Susana! É horrível! Mas devo dizê-lo... euvou perder-te. O vice-rei ama-te! Luís de Vasconcelos fez um movimento decólera e despeito, ao mesmo tempo que a velha e a moça exclamaram:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Vicente!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Juro que disse a verdade – continuou o mancebo,tremendo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Não é de hoje que o sei, e hoje, como em outros muitosdias, impelido pelo meu ciúme, acompanhei de longe o vice-rei e vi a atenção eo enlevo com que ele te devorava com os olhos: Susana! Susana! Não há lutapossível entre Luís de Vasconcelos e Vicente Peres. O vice-rei te ama. Tudo estáperdido para nós ambos, porque eu terei de ser esmagado, e tu...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Susana cortou-lhe a frase, cerrando-lhe os lábios com asua mão delicada e leve.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Não sejas mau, Vicente. Tu calunias o vice-rei,supondo-o um sedutor, e me injurias também, julgando-me capaz de sacrificar-tea ele. É verdade: o Sr. Luís de Vasconcelos passa muitas vezes por este sítio, olha-mecom atenção e acha-me talvez bonita; mas, graças a Deus, não pensa, nem pensaráem fazer-me infeliz.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Tu o defendes?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Certamente. Não sei por que, mas eu o estimo. Seurosto me inspira confiança. Há nele uma expressão de honestidade e nobreza quenão engana.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Oh! isto é demais!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Tu te exasperas, primo! Quanto mais quando souberesque eu sonhei esta noite com o vice-rei...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Susana!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Sonhei. Por que hei de mentir ou esconder um sonhoinocente?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Foi um sonho deleitoso, um sonho de moça. Sonhei que umgênio benigno me aparecia risonho e afetuoso. Era um gênio, mas tinha o rosto dovice-rei. Não tinha voz, falava-me porém com os olhos. Era apenas uma sombra,mas não me assustava, nem eu lhe fugia. A um movimento de sua mão branca etransparente tu apareceste, e ele nos ligou com um laço de flores. Minha avó,que ali estava, chorando, abençoava ao gênio e a nós. Não sentíamos mais nempobreza nem receios do futuro. O gênio levou-nos para fora, e tirando dosombros uma túnica cor de angélica que trazia, estendeu-a sobre a lagoa doBoqueirão, que, de súbito, se transformou em um lindíssimo jardim. Depois, ogênio... a sombra foi-se esvaindo...&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;esvaindo, até desaparecer de todo; e felizes,contentes, nós corremos como duas crianças travessas pelo jardim. Depois, ah!Vicente! Depois, eu desatei a chorar, porque nesse imenso jardim procureidebalde e não encontrei este coqueiro, a cuja sombra, um dia, pela primeiravez, de joelhos aos pés de minha avó, tu lhe disseste o que eu já sabia... queme amavas. O sonho parou aí, porque... eu acordei, chorando.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;O que sentiu Luís de Vasconcelos,ouvindo a narração daquele sonho, ninguém pôde saber. Apenas mestre Valentimsupôs que o vice-rei por mais de uma vez enxugara as lágrimas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Estás ouvindo, Vicente? – disse a velha comovida esoluçando.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Estou – respondeu o mancebo. E juro que acreditotanto na inocência e na pureza de Susana como na salvação da minha alma. Mas umsonho é uma ilusão que nada pode na vida, e a realidade que receio me espanta eme atormenta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Confia em mim, meu primo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– E se amanhã, ou em breves dias, o vice-rei, abusandodo seu poder e da sua influência, ousasse perturbar a paz, a serenidade do teucoração e tentasse...A moça não o deixou acabar. Ergueu-se e falou. E à medidaque falava, a velha, que também se erguera, veio se chegando para o coqueiro. Susanarespondia a Vicente: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Eu diria ao vice-rei sem hesitar nem tremer: senhor,sou pura e feliz; tenho um noivo a quem amo, um noivo que minha avó abençoa,tenho um amor que um padre que era meu tio e tio do meu amado abençoou nomomento de morrer. É um amor sagrado diante de&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Deus, como a minha pureza é uma flor do céu. Estapureza e este amor não hão de ceder ao capricho de um vice-rei. Contava com avossa generosidade, faltou-me ela; agora conto com a minha virtude, conto com Deus,contarei, enfim, com a morte.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– E eu lhe diria – exclamou a velha, cujos cabelossoltos alvejavam ao clarão da lua: Sr. vice-rei, tive uma filha bela comoSusana; há vinte anos um fidalgo rico e poderoso apaixonou-se por ela, e não podendodesposar a filha de uma pobre mulher sem nome, seduziu-a: ao capricho dosedutor seguiu o seu desprezo pela vítima, e a miséria e o opróbrio desta...,desse crime proveio uma filha, é Suzana, que custou a vida a sua mãe. Eis umavelha história que se parece com a que quereis principiar. Não entreis, pois,em minha casa, porque nela já há de sobra vergonha, desonra, desgraça e morte.Não entreis, porque tereis de tremer diante da maldição de uma velha que temchorado vinte anos!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Minha avó, sossegue! – exclamou Vicente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Mau! – disse Susana. Tu fizeste hoje chorar nossa boaavó, e foste injusto com o vice-rei, que é nobre e generoso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Perdoai-me ambas! – balbuciou o mancebo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 21.3pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Sim... sim – disse a velha. Maspor hoje basta. Amanhã, Vicente, falarás a frei Veloso, e, empregado ou não,casar-te-ás com Susana antes do fim do ano. Vicente beijou a mão de sua avó comardor e comoção. Susana correu adiante e entrou para casa sem despedir-se donoivo, que, momentos depois, partiu apressado em direitura à Rua da Ajuda, ondemorava.&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Luís de Vasconcelos e mestreValentim saíram da moita de arbustos e caminharam em silêncio. O artista nãoousava dirigir uma única palavra ao vice-rei. Ao chegarem à entrada do palácio,Luís de Vasconcelos voltou-se e disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Amanhã ao meio-dia temos que conversar, mestreValentim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;O resto da noite foi de meditação e talvez de luta parao vice-rei, que não dormiu e levantou-se cedo no dia seguinte. Os olhos umpouco injetados e grandes olheiras roxas anunciavam em Luís de Vasconceloslongas horas de vigília e de sofrimento; seu rosto, porém, mostrava-se animadoe sereno. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Às 10 horas da manhã sentou-se ovice-rei na sua cadeira da sala das audiências, onde recebeu logo depois umengenheiro e diversos empregados. Às onze horas entrou na sala Vicente Peres,que o vice-rei mandara chamar! O mancebo vinha pálido e trêmulo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Sr. Vicente Peres – disse o vice-rei. – Frei JoséMariano da Conceição Veloso precisa de uma pessoa inteligente e instruída quecoadjuve o seu secretário frei Solano para facilitar-lhe os trabalhos de que seestá ocupando. O senhor é entendido em botânica e discípulo do ilustrefranciscano. Vá dizer-lhe que eu o nomeei seu subsecretário e que lhe mandareipagar o seu ordenado. Vicente Peres ficou surpreendido. O vice-rei continuou:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– E porque este serviço dentro de alguns anosachar-se-á terminado, e não é justo que o senhor fique desempregado, pode dentrode três dias vir receber a sua nomeação para o emprego que lhe destino na Alfândegado Rio de Janeiro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Senhor! – exclamou o mancebo, curvando-se.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Nada de agradecimentos – tornou Luís de Vasconcelos.– Eu sei que o senhor é um moço morigerado e que com ardor se dá ao estudo.Estimo-o por isso. Se quiser, porém, dar-me um sinal de gratidão, escolha-mepara uma das testemunhas do seu casamento, que em breve deve ter lugar. VicentePeres saiu confundido e ao mesmo tempo louco de prazer. Ao meio-dia chegoumestre Valentim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Mestre – disse-lhe o vice-rei, sorrindo. Já temosonde aproveitar a terra do desmoronamento do monte das Mangueiras. É na lagoa doBoqueirão, que vamos transformar em um jardim público. Dei a um engenheiro asordens para tratar imediatamente de fazer esgotar essa lagoa. O jardim fica porsua conta, mestre. Note, porém, que eu me empenho em que nos ornamentos donosso jardim seja reproduzido um&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;certo coqueiro que indispensavelmente teremos dederribar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– É um sonho que se realiza, sr. vice-rei.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– Silêncio, mestre Valentim! Não há sonho, nem gênio,nem loucura da noite passada. Haverá somente um &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;Passeio Público&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;, que a cidade do Rio de Janeiro vai ganhar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . .&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Esta historieta, tradição ou coisa que o valha, quealiás daria origem um pouco romanesca ao nosso &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;Passeio Público&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;, só poderia ter transpirado por uma indiscrição demestre Valentim, ou porque Susana houvesse adivinhado o segredo do gênio do seusonho de moça. Em qualquer dos casos, acaba, porém, de um modo que nãodesmente, antes faz honra ao caráter generoso de Luís de Vasconcelos. Se aindaassim não quiserem aceitar a tradição por lhe faltar seguro fundamento,roguem-me pragas ou critiquem-me à vontade, que nem por isso deixarei de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;passear&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;II&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;No meu último &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;passeio &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;abundeimuito em louvores ao vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, e não me dói aconsciência por ter assim procedido. Tenho, para abonar o meu juízo, nãosomente o testemunho valioso de antigos escritores, como o das grandes obrasque ele fez construir na cidade do Rio de Janeiro, e que duram ainda, perpetuandoa memória daquele ativo administrador. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;A Câmara Municipal da capital doBrasil pensou também como eu penso, e a prova disso aprecia-se perfeitamente nasala das suas sessões, onde se acha o retrato de Luís de Vasconcelos, fazendocompanhia aos de Estácio de Sá e do conde de Bobadela, únicos dosadministradores que governaram o Rio de Janeiro no tempo colonial e mereceramessa honra. Entretanto, preciso é dizê-lo, aquele vice-rei não fazia sentir menosao povo que o poder de que se achava armado era absoluto e violento. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Ressentia-se talvez o seu caráterdo sistema de governo que então pesava duramente sobre a população, e às vezesesquecia Luís de Vasconcelos a sua bondade natural, às suas disposiçõesgenerosas, esquecia-se do seu próprio coração, enfim, para mostrar queempunhava a bengala de vice-rei, e em momentos de capricho ou de mau humor, punhao arbítrio e a violência no lugar da justiça.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Ora, se Luís de Vasconcelos, o vice-rei querido,louvado e abençoado, fazia dessas, podemos bem imaginar o que fariam os outros!E chorem lá por aquele santo sistema do &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;mando e quero. &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Aquivai um exemplo do que podia o capricho e a violência de um vice-rei. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Um dos montes da cidade do Rio deJaneiro tem uma ladeira que ainda hoje conserva o nome de um homem que viveu notempo de Luís de Vasconcelos. Por que não apontarei claramente o lugar, uma veza ladeira é a de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;João Homem. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Um dia, nas horas de mais ardentecalma descia o vice-rei do monte da &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;Conceição &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;por aquelaladeira, quando encontrou a &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;João Homem,&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;que era levadoem uma &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;cadeirinha &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;para o alto do monte. Os dois escravos condutores da &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;cadeirinha &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;suavam em bicas, porque &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;João Homem &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;era gordo e pesado, e o calor era intenso. Luís deVasconcelos, que vinha de mau humor, irritou-se, vendo os escravos arquejandode fadiga: mandou-os parar, fez sair da &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;cadeirinha &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;a &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;João Homem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;, ordenou-lhe que tomasse o lugar de um dos negros,&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;obrigou a este a ir sentar-se dentro da &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;cadeirinha&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;, e lá foi o senhor, ajudando a carregar o escravo pelaladeira acima.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;– É para ensiná-lo a ser mais humano – disse ovice-rei. E depois prosseguiu em seu caminho muito contente de si. Talvez quehoje alguns possam rir-se do tormento por que&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;passou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;João Homem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;; afirmo,porém, que naquele tempo, nem o povo riu-se e nem &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;João Homem &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;queixou-se. Mas a que vem isto para a história do &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;Passeio Público&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;? Tendes razão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Foi um incidente que não tem aplicação ao caso. Eu,porém, me empenhava em impedir que se confundisse o juízo que fiz dasqualidades pessoais e dos serviços do vice-rei Luís de Vasconcelos, com o juízoque faço daquele bárbaro sistema de governo, que abria espaço a tantos vexames,tantas violências e tanta opressão que envileciam o povo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;..............................................................................................................................................................................................................................................................................................................&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond, serif; font-size: 12pt;"&gt;Texto extraído de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #231f20; font-family: Garamond-NormalItalic, serif; font-size: 12pt;"&gt;Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, de Joaquim Manuel deMacedo&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-8620898307266203161?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/8620898307266203161/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=8620898307266203161&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/8620898307266203161'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/8620898307266203161'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/03/joaquim-manuel-de-macedo-o-passeio.html' title='Joaquim manuel de Macedo - &quot;O Passeio Público&quot;'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-1946487547681158236</id><published>2012-02-26T14:05:00.000-04:00</published><updated>2012-02-26T14:05:04.603-04:00</updated><title type='text'>Virgínius</title><content type='html'>&lt;br /&gt;Virginius&lt;br /&gt;de Machado de Assis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO PRIMEIRO&lt;br /&gt;(NARRATIVA DE UM ADVOGADO)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não me correu tranqüilo o S. João de 185...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Duas semanas antes do dia em que a Igreja celebra o evangelista, recebi&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;pelo correio o seguinte bilhete, sem assinatura e de letra desconhecida:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Dr. *** é convidado a ir à vila de... tomar conta de um processo. O&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;objeto é digno do talento e das habilitações do advogado. Despesas e&lt;/div&gt;honorários ser-lhe-ão satisfeitos antecipadamente, mal puser pé no&lt;br /&gt;estribo. O réu está na cadeia da mesma vila e chama-se Julião. Note que o&lt;br /&gt;Dr. é convidado a ir defender o réu.&lt;br /&gt;Li e reli este bilhete; voltei-o em todos os sentidos; comparei a letra com&lt;br /&gt;todas as letras dos meus amigos e conhecidos... Nada pude descobrir.&lt;br /&gt;Entretanto, picava-me a curiosidade. Luzia-me um romance através&lt;br /&gt;daquele misterioso e anônimo bilhete. Tomei uma resolução definitiva.&lt;br /&gt;Ultimei uns negócios, dei de mão outros, e oito dias depois de receber o&lt;br /&gt;bilhete tinha à porta um cavalo e um camarada para seguir viagem. No&lt;br /&gt;momento em que me dispunha a sair, entrou-me em casa um sujeito&lt;br /&gt;desconhecido, e entregou-me um rolo de papel contendo uma avultada&lt;br /&gt;soma, importância aproximada das despesas e dos honorários. Recusei&lt;br /&gt;apesar das instâncias, montei a cavalo e parti.&lt;br /&gt;Só depois de ter feito algumas léguas é que me lembrei de que justamente&lt;br /&gt;na vila a que eu ia morava um amigo meu, antigo companheiro da&lt;br /&gt;academia, que se votara, oito anos antes, ao culto da deusa Ceres como se&lt;br /&gt;diz em linguagem poética.&lt;br /&gt;Poucos dias depois apeava eu à porta do referido amigo. Depois de&lt;br /&gt;entregar o cavalo aos cuidados do camarada, entrei para abraçar o meu&lt;br /&gt;antigo companheiro de estudos, que me recebeu alvoroçado e admirado.&lt;br /&gt;Depois da primeira expansão, apresentou-me ele à sua família, composta&lt;br /&gt;de mulher e uma filhinha, esta retrato daquela, e aquela retrato dos anjos.&lt;br /&gt;Quanto ao fim da minha viagem, só lho expliquei depois que me levou para&lt;br /&gt;a sala mais quente da casa, onde foi ter comigo uma chávena de excelente&lt;br /&gt;café. O tempo estava frio; lembro que estávamos em junho. Envolvi-me no&lt;br /&gt;meu capote, e a cada gota de café que tomava fazia uma revelação.&lt;br /&gt;— A que vens? a que vens? perguntava-me ele.&lt;br /&gt;— Vais sabê-lo. Creio que há um romance para deslindar. Há quinze dias&lt;br /&gt;recebi no meu escritório, na corte, um bilhete anônimo em que se me&lt;br /&gt;convidava com instância a vir a esta vila para tomar conta de uma defesa.&lt;br /&gt;Não pude conhecer a letra; era desigual e trêmula, como escrita por mão&lt;br /&gt;cansada...&lt;br /&gt;— Tens o bilhete contigo?&lt;br /&gt;— Tenho.&lt;br /&gt;Tirei do bolso o misterioso bilhete e entreguei-o aberto ao meu amigo. Ele,&lt;br /&gt;depois de lê-lo, disse:&lt;br /&gt;— É a letra de Pai de todos.&lt;br /&gt;— Quem é Pai de todos?&lt;br /&gt;— É um fazendeiro destas paragens, o velho Pio. O povo dá-lhe o nome de&lt;br /&gt;Pai de todos, porque o velho Pio o é na verdade.&lt;br /&gt;— Bem dizia eu que há romance no fundo!... Que faz esse velho para que&lt;br /&gt;lhe dêem semelhante título?&lt;br /&gt;— Pouca coisa. Pio é, por assim dizer, a justiça e a caridade fundidas em&lt;br /&gt;uma só pessoa. Só as grandes causas vão ter às autoridades judiciárias,&lt;br /&gt;policiais ou municipais; mas tudo o que não sai de certa ordem é decidido&lt;br /&gt;na fazenda de Pio, cuja sentença todos acatam e cumprem. Seja ela contra&lt;br /&gt;Pedro ou contra Paulo, Paulo e Pedro submetem-se, como se fora uma&lt;br /&gt;decisão divina. Quando dois contendores saem da fazenda de Pio, saem&lt;br /&gt;amigos. É caso de consciência aderir ao julgamento de Pai de todos.&lt;br /&gt;— Isso é como juiz. O que é ele como homem caridoso?&lt;br /&gt;— A fazenda de Pio é o asilo dos órfãos e dos pobres. Ali se encontra o que&lt;br /&gt;é necessário à vida: leite e instrução às crianças, pão e sossego aos&lt;br /&gt;adultos. Muitos lavradores nestas seis léguas cresceram e tiveram princípio&lt;br /&gt;de vida na fazenda de Pio. É a um tempo Salomão e S. Vicente de Paulo.&lt;br /&gt;Engoli a última gota de café, e fitei no meu amigo olhos incrédulos.&lt;br /&gt;— Isto é verdade? perguntei.&lt;br /&gt;— Pois duvidas?&lt;br /&gt;— É que me dói sair tantas léguas da Corte, onde esta história encontraria&lt;br /&gt;incrédulos, para vir achar neste recanto do mundo aquilo que devia ser&lt;br /&gt;comum em toda a parte.&lt;br /&gt;— Põe de parte essas reflexões filosóficas. Pio não é um mito: é uma&lt;br /&gt;criatura de carne e osso; vive como vivemos; tem dois olhos, como tu e&lt;br /&gt;eu...&lt;br /&gt;— Então esta carta é dele?&lt;br /&gt;— A letra é.&lt;br /&gt;— A fazenda fica perto?&lt;br /&gt;O meu amigo levou-me à janela.&lt;br /&gt;— Fica daqui a um quarto de légua, disse. Olha, é por detrás daquele&lt;br /&gt;morro.&lt;br /&gt;Nisto passava por baixo da janela um preto montado em uma mula, sobre&lt;br /&gt;cujas ancas saltavam duas canastras. O meu amigo debruçou-se e&lt;br /&gt;perguntou ao negro:&lt;br /&gt;— Teu senhor está em casa?&lt;br /&gt;— Está, sim, Sr.; mas vai sair.&lt;br /&gt;O negro foi caminho, e nós saímos da janela.&lt;br /&gt;— É escravo de Pio?&lt;br /&gt;— Escravo é o nome que se dá; mas Pio não tem escravos, tem amigos.&lt;br /&gt;Olham-no todos como se fora um Deus. É que em parte alguma houve&lt;br /&gt;nunca mais brando e cordial tratamento a homens escravizados. Nenhum&lt;br /&gt;dos instrumentos de ignomínia que por aí se aplicam para corrigi-los&lt;br /&gt;existem na fazenda de Pio. Culpa capital ninguém comete entre os negros&lt;br /&gt;da fazenda; a alguma falta venial que haja, Pio aplica apenas uma&lt;br /&gt;repreensão tão cordial e tão amiga, que acaba por fazer chorar o&lt;br /&gt;delinqüente. Ouve mais: Pio estabeleceu entre os seus escravos uma&lt;br /&gt;espécie de concurso que permite a um certo número libertar-se todos os&lt;br /&gt;anos. Acreditarás tu que lhes é indiferente viver livres ou escravos na&lt;br /&gt;fazenda, e que esse estímulo não decide nenhum deles, sendo que, por&lt;br /&gt;natural impulso, todos se portam dignos de elogios?&lt;br /&gt;O meu amigo continuou a desfiar as virtudes do fazendeiro. Meu espírito&lt;br /&gt;apreendia-se cada vez mais de que eu ia entrar em um romance.&lt;br /&gt;Finalmente o meu amigo dispunha-se a contar-me a história do crime em&lt;br /&gt;cujo conhecimento devia eu entrar daí a poucas horas. Detive-o.&lt;br /&gt;— Não, disse-lhe, deixa-me saber de tudo por boca do próprio réu. Depois&lt;br /&gt;compararei com o que me contarás.&lt;br /&gt;— É melhor. Julião é inocente...&lt;br /&gt;— Inocente?&lt;br /&gt;— Quase.&lt;br /&gt;Minha curiosidade estava excitada ao último ponto. Os autos não me&lt;br /&gt;tinham tirado o gosto pelas novelas, e eu achava-me feliz por encontrar no&lt;br /&gt;meio da prosa judiciária, de que andava cercado, um assunto digno da&lt;br /&gt;pena de um escritor.&lt;br /&gt;— Onde é a cadeia? perguntei.&lt;br /&gt;— É perto, respondeu-me; mas agora é quase noite; melhor é que&lt;br /&gt;descanses; amanhã é tempo.&lt;br /&gt;Atendi a este conselho. Entrou nova porção de café. Tomamo-lo entre&lt;br /&gt;recordações do passado, que muitas eram. Juntos vimos florescer as&lt;br /&gt;primeiras ilusões, e juntos vimos dissiparem-se as últimas. Havia de que&lt;br /&gt;encher, não uma, mas cem noites. Aquela passou-se rápida, e mais ainda&lt;br /&gt;depois que a família toda veio tomar parte em nossa íntima confabulação.&lt;br /&gt;Por uma exceção, de que fui causa, a hora de recolher foi a meia-noite.&lt;br /&gt;— Como é doce ter um amigo! dizia eu pensando no Conde de Maistre, e&lt;br /&gt;retirando-me para o quarto que me foi destinado.&lt;br /&gt;CAPÍTULO II&lt;br /&gt;No dia seguinte, ainda vinha rompendo a manhã, já eu me achava de pé.&lt;br /&gt;Entrou no meu quarto um escravo com um grande copo de leite tirado&lt;br /&gt;minutos antes. Em poucos goles o devorei. Perguntei pelo amigo; disse-me&lt;br /&gt;o escravo que já se achava de pé. Mandei-o chamar.&lt;br /&gt;— Será cedo para ir à cadeia? perguntei mal o vi assomar à porta do&lt;br /&gt;quarto.&lt;br /&gt;— Muito cedo. Que pressa tamanha! É melhor aproveitarmos a manhã, que&lt;br /&gt;está fresca, e irmos dar um passeio. Passaremos pela fazenda de Pio.&lt;br /&gt;Não me desagradou a proposta. Acabei de vestir-me e saímos ambos.&lt;br /&gt;Duas mulas nos esperavam à cancela, espertas e desejosas de trotar.&lt;br /&gt;Montamos e partimos.&lt;br /&gt;Três horas depois, já quando o sol dissipara as nuvens de neblina que&lt;br /&gt;cobriam os morros como grandes lençóis, estávamos de volta, tendo eu&lt;br /&gt;visto a bela casa e as esplêndidas plantações da fazenda do velho Pio. Foi&lt;br /&gt;este o assunto do almoço.&lt;br /&gt;Enfim, dado ao corpo o preciso descanso, e alcançada a necessária licença,&lt;br /&gt;dirigi-me à cadeia para falar ao réu Julião.&lt;br /&gt;Sentado em uma sala onde a luz entrava escassamente, esperei que&lt;br /&gt;chegasse o misterioso delinqüente. Não se demorou muito. No fim de um&lt;br /&gt;quarto de hora estava diante de mim. Dois soldados ficaram à porta.&lt;br /&gt;Mandei sentar o preso, e, antes de entrar em interrogatório, empreguei&lt;br /&gt;uns cinco minutos em examiná-lo.&lt;br /&gt;Era um homem trigueiro, de mediana estatura, magro, débil de forças&lt;br /&gt;físicas, mas com uma cabeça e um olhar indicativos de muita energia&lt;br /&gt;moral e alentado ânimo.&lt;br /&gt;Tinha um ar de inocência, mas não da inocência abatida e receosa; parecia&lt;br /&gt;antes que se glorificava com a prisão, e afrontava a justiça humana, não&lt;br /&gt;com a impavidez do malfeitor, mas com a daquele que confia na justiça&lt;br /&gt;divina.&lt;br /&gt;Passei a interrogá-lo, começando pela declaração de que eu ia para&lt;br /&gt;defendê-lo. Disse-lhe que nada ocultasse dos acontecimentos que o&lt;br /&gt;levaram à prisão; e ele, com uma rara placidez de ânimo, contou-me toda&lt;br /&gt;a história do seu crime.&lt;br /&gt;Julião fora um daqueles a quem a alma caridosa de Pio dera sustento e&lt;br /&gt;trabalho. Suas boas qualidades, a gratidão, o amor, o respeito com que&lt;br /&gt;falava e adorava o protetor não ficaram sem uma paga valiosa. Pio, no fim&lt;br /&gt;de certo tempo, deu a Julião um sítio que ficava pouco distante da&lt;br /&gt;fazenda, para lá fora morar Julião com uma filha menor, cuja mãe morrera&lt;br /&gt;em conseqüência dos acontecimentos que levaram Julião a recorrer à&lt;br /&gt;proteção do fazendeiro.&lt;br /&gt;Tinha a pequena sete anos. Era, dizia Julião, a mulatinha mais formosa&lt;br /&gt;daquelas dez léguas em redor. Elisa, era o nome da pequena, completava&lt;br /&gt;a trindade do culto de Julião, ao lado de Pio e da memória da mãe finada.&lt;br /&gt;Laborioso por necessidade e por gosto, Julião bem depressa viu frutificar o&lt;br /&gt;seu trabalho. Ainda assim não descansava. Queria, quando morresse,&lt;br /&gt;deixar um pecúlio à filha. Morrer sem deixá-la amparada era o sombrio&lt;br /&gt;receio que o perseguia. Podia acaso contar com a vida do fazendeiro&lt;br /&gt;esmoler?&lt;br /&gt;Este tinha um filho, mais velho três anos que Elisa. Era um bom menino,&lt;br /&gt;educado sob a vigilância de seu pai, que desde os tenros anos inspiravalhe&lt;br /&gt;aqueles sentimentos a que devia a sua imensa popularidade.&lt;br /&gt;Carlos e Elisa viviam quase sempre juntos, naquela comunhão da infância&lt;br /&gt;que não conhece desigualdades nem condições. Estimavam-se deveras, a&lt;br /&gt;ponto de sentirem profundamente quando foi necessário a Carlos ir cursar&lt;br /&gt;as primeiras aulas.&lt;br /&gt;Trouxe o tempo as divisões, e anos depois, quando Carlos apeou à porta&lt;br /&gt;da fazenda com uma carta de bacharel na algibeira, uma esponja se&lt;br /&gt;passara sobre a vida anterior. Elisa, já mulher, podia avaliar os nobres&lt;br /&gt;esforços de seu pai, e concentrara todos os afetos de sua alma no mais&lt;br /&gt;respeitoso amor filial. Carlos era homem. Conhecia as condições da vida&lt;br /&gt;social, e desde os primeiros gestos mostrou que abismo separava o filho&lt;br /&gt;do protetor da filha do protegido.&lt;br /&gt;O dia da volta de Carlos foi dia de festa na fazenda do velho Pio. Julião&lt;br /&gt;tomou parte na alegria geral, como toda a gente, pobre ou remediada, dos&lt;br /&gt;arredores. E a alegria não foi menos pura em nenhum: todos sentiam que&lt;br /&gt;a presença do filho do fazendeiro era a felicidade comum.&lt;br /&gt;Passaram-se os dias. Pio não se animava a separar-se de seu filho para&lt;br /&gt;que este seguisse uma carreira política, administrativa ou judiciária.&lt;br /&gt;Entretanto, notava-lhe muitas diferenças em comparação com o rapaz que,&lt;br /&gt;anos antes, lhe saíra de casa. Nem idéias, nem sentimentos, nem hábitos&lt;br /&gt;eram os mesmos. Cuidou que fosse um resto da vida escolástica, e&lt;br /&gt;esperou que a diferença da atmosfera que voltava a respirar e o espetáculo&lt;br /&gt;da vida simples e chã da fazenda o restabelecessem.&lt;br /&gt;O que o magoava sobretudo, é que o filho bacharel não buscasse os livros,&lt;br /&gt;onde pudesse, procurando novos conhecimentos, entreter uma&lt;br /&gt;necessidade indispensável para o gênero de vida que ia encetar. Carlos&lt;br /&gt;não tinha mais que uma ocupação e uma distração: a caça. Levava dias e&lt;br /&gt;dias a correr o mato em busca de animais para matar, e nisso fazia&lt;br /&gt;consistir todos os cuidados, todos os pensamentos, todos os estudos.&lt;br /&gt;Ao meio-dia era certo vê-lo chegar ao sítio de Julião, e aí descansar um&lt;br /&gt;bocado, conversando sobranceiro com a filha do infatigável lavrador. Este&lt;br /&gt;chegava, trocava algumas palavras de respeitosa estima com o filho de&lt;br /&gt;Pio, oferecia-lhe parte do seu modesto jantar, que o moço não aceitava, e&lt;br /&gt;discorria, durante a refeição, sobre os objetos relativos à caça.&lt;br /&gt;Passavam as coisas assim sem alteração de natureza alguma.&lt;br /&gt;Um dia, ao entrar em casa para jantar, Julião notou que sua filha parecia&lt;br /&gt;triste. Reparou, e viu-lhe os olhos vermelhos de lágrimas. Perguntou o que&lt;br /&gt;era. Elisa respondeu que lhe doía a cabeça; mas durante o jantar, que foi&lt;br /&gt;silencioso, Julião observou que sua filha enxugava furtivamente algumas&lt;br /&gt;lágrimas. Nada disse; mas, terminado o jantar, chamou-a para junto de si,&lt;br /&gt;e com palavras brandas e amigas exigiu-lhe que dissesse o que tinha.&lt;br /&gt;Depois de muita relutância, Elisa falou:&lt;br /&gt;— Meu pai, o que eu tenho é simples. O Sr. Carlos, em quem comecei a&lt;br /&gt;notar mais amizade que ao princípio, declarou-me hoje que gostava de&lt;br /&gt;mim, que eu devia ser dele, que só ele me poderia dar tudo quanto eu&lt;br /&gt;desejasse, e muitas outras coisas que eu nem pude ouvir, tal foi o espanto&lt;br /&gt;com que ouvi as suas primeiras palavras. Declarei-lhe que não pensasse&lt;br /&gt;coisas tais. Insistiu; repeli-o... Então tomando um ar carrancudo, saiu,&lt;br /&gt;dizendo-me:&lt;br /&gt;— Hás de ser minha!&lt;br /&gt;Julião estava atônito. Inquiriu sua filha sobre todas as particularidades da&lt;br /&gt;conversa referida. Não lhe restava dúvida acerca dos maus intentos de&lt;br /&gt;Carlos. Mas como de um tão bom pai pudera sair tão mau filho?&lt;br /&gt;perguntava ele. E esse próprio filho não era bom antes de ir para fora?&lt;br /&gt;Como exprobrar-lhe a sua má ação? E poderia fazê-lo? Como evitar a&lt;br /&gt;ameaça? Fugir do lugar em que morava o pai não era mostrar-se ingrato?&lt;br /&gt;Todas estas reflexões passaram pelo espírito de Julião. Via o abismo a cuja&lt;br /&gt;borda estava, e não sabia como escapar-lhe.&lt;br /&gt;Finalmente, depois de animar e tranqüilizar sua filha, Julião saiu, de plano&lt;br /&gt;feito, na direção da fazenda, em busca de Carlos.&lt;br /&gt;Este, rodeado por alguns escravos, fazia limpar várias espingardas de&lt;br /&gt;caça. Julião, depois de cumprimentá-lo alegremente, disse que lhe queria&lt;br /&gt;falar em particular. Carlos estremeceu; mas não podia deixar de ceder.&lt;br /&gt;— Que me queres, Julião? disse depois de se afastar um pouco do grupo.&lt;br /&gt;Julião respondeu:&lt;br /&gt;— Sr. Carlos, venho pedir-lhe uma coisa, por alma de sua mãe!... Deixe&lt;br /&gt;minha filha sossegada.&lt;br /&gt;— Mas que lhe fiz eu? titubeou Carlos.&lt;br /&gt;— Oh! não negue, porque eu sei.&lt;br /&gt;— Sabe o quê?&lt;br /&gt;— Sei da sua conversa de hoje. Mas o que passou, passou. Fico sendo seu&lt;br /&gt;amigo, mais ainda, se me não perseguir a pobre filha que Deus me deu...&lt;br /&gt;Promete?&lt;br /&gt;Carlos esteve calado alguns instantes. Depois:&lt;br /&gt;— Basta, disse; confesso-te, Julião, que era uma loucura minha de que me&lt;br /&gt;arrependo. Vai tranqüilo: respeitarei tua filha como se fosse morta.&lt;br /&gt;Julião, na sua alegria, quase beijou as mãos de Carlos. Correu à casa e&lt;br /&gt;referiu a sua filha a conversa que tivera com o filho de Pai de todos. Elisa&lt;br /&gt;não só por si como por seu pai, estimou o pacífico desenlace.&lt;br /&gt;Tudo parecia ter voltado à primeira situação. As visitas de Carlos eram&lt;br /&gt;feitas nas horas em que Julião se achava em casa, e além disso, a&lt;br /&gt;presença de uma parenta velha, convidada por Julião, parecia tornar&lt;br /&gt;impossível nova tentativa de parte de Carlos.&lt;br /&gt;Uma tarde, quinze dias depois do incidente que narrei acima, voltava Julião&lt;br /&gt;da fazenda do velho Pio. Era já perto da noite. Julião caminhava&lt;br /&gt;vagarosamente, pensando no que lhe faltaria ainda para completar o&lt;br /&gt;pecúlio de sua filha. Nessas divagações, não reparou que anoitecera.&lt;br /&gt;Quando deu por si, ainda se achava umas boas braças distante de casa.&lt;br /&gt;Apressou o passo. Quando se achava mais perto, ouviu uns gritos&lt;br /&gt;sufocados. Deitou a correr e penetrou no terreiro que circundava a casa.&lt;br /&gt;Todas as janelas estavam fechadas; mas os gritos continuavam cada vez&lt;br /&gt;mais angustiosos. Um vulto passou-lhe pela frente e dirigiu-se para os&lt;br /&gt;fundos. Julião quis segui-lo; mas os gritos eram muitos, e de sua filha.&lt;br /&gt;Com uma força difícil de crer em corpo tão pouco robusto, conseguiu abrir&lt;br /&gt;uma das janelas. Saltou, e eis o que viu:&lt;br /&gt;A parenta que convidara a tomar conta da casa estava no chão, atada,&lt;br /&gt;amordaçada, exausta. Uma cadeira quebrada, outras em desordem.&lt;br /&gt;— Minha filha! exclamou ele.&lt;br /&gt;E atirou-se para o interior.&lt;br /&gt;Elisa debatia-se nos braços de Carlos, mas já sem forças nem esperanças&lt;br /&gt;de obter misericórdia.&lt;br /&gt;No momento em que Julião entrava por uma porta, entrava por outra um&lt;br /&gt;indivíduo mal conceituado no lugar, e até conhecido por assalariado nato&lt;br /&gt;de todas as violências. Era o vulto que Julião vira no terreiro. E outros&lt;br /&gt;haviam ainda, que apareceram a um sinal dado pelo primeiro, mal Julião&lt;br /&gt;entrou no lugar em que se dava o triste conflito da inocência com a&lt;br /&gt;perversidade.&lt;br /&gt;Julião teve tempo de arrancar Elisa dos braços de Carlos. Cego de raiva,&lt;br /&gt;travou de uma cadeira e ia atirar-lha, quando os capangas, entrados a este&lt;br /&gt;tempo, o detiveram.&lt;br /&gt;Carlos voltara a si da surpresa que lhe causara a presença de Julião.&lt;br /&gt;Recobrando o sangue frio, cravou os olhos odiendos no desventurado pai,&lt;br /&gt;e disse-lhe com voz sumida:&lt;br /&gt;— Hás de pagar-me!&lt;br /&gt;Depois, voltando-se para os ajudantes das suas façanhas, bradou:&lt;br /&gt;— Amarrem-no!&lt;br /&gt;Em cinco minutos foi obedecido. Julião não podia lutar contra cinco.&lt;br /&gt;Carlos e quatro capangas saíram. Ficou um de vigia.&lt;br /&gt;Uma chuva de lágrimas rebentou dos olhos de Elisa. Doía-lhe na alma ver&lt;br /&gt;seu pai atado daquele modo. Não era já o perigo a que escapara o que a&lt;br /&gt;comovia; era não poder abraçar seu pai livre e feliz. E por que estaria&lt;br /&gt;atado? Que intentava Carlos fazer? Matá-lo? Estas lúgubres e aterradoras&lt;br /&gt;idéias passaram rapidamente pela cabeça de Elisa. Entre lágrimas&lt;br /&gt;comunicou-as a Julião.&lt;br /&gt;Este, calmo, frio, impávido, tranqüilizou o espírito de sua filha, dizendo-lhe&lt;br /&gt;que Carlos poderia ser tudo, menos um assassino.&lt;br /&gt;Seguiram-se alguns minutos de angustiosa espera. Julião olhava para sua&lt;br /&gt;filha e parecia refletir. Depois de algum tempo, disse:&lt;br /&gt;— Elisa, tens realmente a tua desonra por uma grande desgraça?&lt;br /&gt;— Oh! meu pai! exclamou ela.&lt;br /&gt;— Responde: se te faltasse a pureza que recebeste do céu, considerar-teias&lt;br /&gt;a mais infeliz de todas as mulheres?&lt;br /&gt;— Sim, sim, meu pai!&lt;br /&gt;Julião calou-se.&lt;br /&gt;Elisa chorou ainda. Depois voltou-se para a sentinela deixada por Carlos e&lt;br /&gt;quis implorar-lhe misericórdia. Foi atalhada por Julião.&lt;br /&gt;— Não peças nada, disse este. Só há um protetor para os infelizes: é Deus.&lt;br /&gt;Há outro depois dele; mas esse está longe... Ó Pai de todos, que filho te&lt;br /&gt;deu o Senhor!...&lt;br /&gt;Elisa voltou para junto de seu pai.&lt;br /&gt;— Chega-te para mais perto, disse este.&lt;br /&gt;Elisa obedeceu.&lt;br /&gt;Julião tinha os braços atados; mas podia mover, ainda que pouco, as&lt;br /&gt;mãos. Procurou afagar Elisa, tocando-lhe as faces e beijando-lhe a cabeça.&lt;br /&gt;Ela inclinou-se e escondeu o rosto no peito de seu pai.&lt;br /&gt;A sentinela não dava fé do que se passava. Depois de alguns minutos do&lt;br /&gt;abraço de Elisa e Julião, ouviu-se um grito agudíssimo. A sentinela correu&lt;br /&gt;aos dois. Elisa caíra completamente, banhada em sangue.&lt;br /&gt;Julião tinha procurado a custo apoderar-se de uma faca de caça deixada&lt;br /&gt;por Carlos sobre uma cadeira. Apenas o conseguiu, cravou-a no peito de&lt;br /&gt;Elisa. Quando a sentinela correu para ele, não teve tempo de evitar o&lt;br /&gt;segundo golpe, com que Julião tornou mais profunda e mortal a primeira&lt;br /&gt;ferida. Elisa rolou no chão nas últimas convulsões.&lt;br /&gt;— Assassino! clamou a sentinela.&lt;br /&gt;— Salvador!... salvei minha filha da desonra!&lt;br /&gt;— Meu pai!... murmurava a pobre pequena expirando.&lt;br /&gt;Julião, voltando-se para o cadáver, disse, derramando duas lágrimas, duas&lt;br /&gt;só, mas duas lavas rebentadas do vulcão de sua alma:&lt;br /&gt;— Dize a Deus, minha filha, que te mandei mais cedo para junto dele para&lt;br /&gt;salvar-te da desonra.&lt;br /&gt;Depois fechou os olhos e esperou.&lt;br /&gt;Não tardou que entrasse Carlos, acompanhado de uma autoridade policial&lt;br /&gt;e vários soldados.&lt;br /&gt;Saindo da casa de Julião, teve a idéia danada de ir declarar à autoridade&lt;br /&gt;que o velho lavrador tentara contra a vida dele, razão por que teve de&lt;br /&gt;lutar, o conseguira deixá-lo amarrado.&lt;br /&gt;A surpresa de Carlos e dos policiais foi grande. Não cuidavam encontrar o&lt;br /&gt;espetáculo que a seus olhos se ofereceu. Julião foi preso. Não negou o&lt;br /&gt;crime. Somente reservou-se para contar as circunstâncias dele na ocasião&lt;br /&gt;competente.&lt;br /&gt;A velha parenta foi desatada, desamordaçada e conduzida à fazenda de&lt;br /&gt;Pio.&lt;br /&gt;Julião, depois de contar-me toda a história cujo resumo acabo de fazer,&lt;br /&gt;perguntou-me:&lt;br /&gt;— Diga-me, Sr. doutor, pode ser meu advogado? Não sou criminoso?&lt;br /&gt;— Serei seu advogado. Descanse, estou certo de que os juízes&lt;br /&gt;reconhecerão as circunstâncias atenuantes do delito.&lt;br /&gt;— Oh! não é isso que me aterroriza. Seja ou não condenado pelos homens,&lt;br /&gt;é coisa que nada monta para mim. Se os juízes não forem pais, não me&lt;br /&gt;compreenderão, e então é natural que sigam os ditames da lei. Não&lt;br /&gt;matarás, é dos mandamentos eu bem sei...&lt;br /&gt;Não quis magoar a alma do pobre pai continuando naquele diálogo.&lt;br /&gt;Despedi-me dele e disse que voltaria depois.&lt;br /&gt;Saí da cadeia alvoroçado. Não era romance, era tragédia o que eu acabava&lt;br /&gt;de ouvir. No caminho as idéias se me clarearam. Meu espírito voltou-se&lt;br /&gt;vinte e três séculos atrás, e pude ver, no seio da sociedade romana, um&lt;br /&gt;caso idêntico ao que se dava na vila de ***.&lt;br /&gt;Todos conhecem a lúgubre tragédia de Virginius. Tito Lívio, Diodoro de&lt;br /&gt;Sicília e outros antigos falam dela circunstanciadamente. Foi essa tragédia&lt;br /&gt;a precursora da queda dos decênviros. Um destes, Ápio Cláudio,&lt;br /&gt;apaixonou-se por Virgínia, filha de Virginius. Como fosse impossível de&lt;br /&gt;tomá-la por simples simpatia, determinou o decênviro empregar um meio&lt;br /&gt;violento. O meio foi escravizá-la. Peitou um sicofanta, que apresentou-se&lt;br /&gt;aos tribunais reclamando a entrega de Virgínia, sua escrava. O&lt;br /&gt;desventurado pai, não conseguindo comover nem por seus rogos, nem por&lt;br /&gt;suas ameaças, travou de uma faca de açougue e cravou-a no peito de&lt;br /&gt;Virgínia.&lt;br /&gt;Pouco depois caíam os decênviros e restabelecia-se o consulado.&lt;br /&gt;No caso de Julião não haviam decênviros para abater nem cônsules para&lt;br /&gt;levantar; mas havia a moral ultrajada e a malvadez triunfante.&lt;br /&gt;Infelizmente estão ainda longe, esta da geral repulsão, aquela do respeito&lt;br /&gt;universal.&lt;br /&gt;CAPÍTULO III&lt;br /&gt;Fazendo todas estas reflexões, encaminhava-me eu para a casa do amigo&lt;br /&gt;em que estava hospedado. Ocorreu-me uma idéia, a de ir à fazenda de Pio,&lt;br /&gt;autor do bilhete que me chamara da corte, e de quem eu podia saber&lt;br /&gt;muita coisa mais.&lt;br /&gt;Não insisto em observar a circunstância de ser o velho fazendeiro quem se&lt;br /&gt;interessava pelo réu e pagava as despesas da defesa nos tribunais. Já o&lt;br /&gt;leitor terá feito essa observação, realmente honrosa para aquele deus da&lt;br /&gt;terra.&lt;br /&gt;O sol, apesar da estação, queimava suficientemente o viandante. Ir a pé à&lt;br /&gt;fazenda, quando podia ir a cavalo, era ganhar fadiga e perder tempo sem&lt;br /&gt;proveito. Fui à casa e mandei aprontar o cavalo. O meu hóspede não&lt;br /&gt;estava em casa. Não quis esperá-lo, e sem mais companhia dirigi-me para&lt;br /&gt;a fazenda.&lt;br /&gt;Pio estava em casa. Mandei-lhe dizer que uma pessoa da corte desejava&lt;br /&gt;falar-lhe. Fui recebido incontinente.&lt;br /&gt;Achei o velho fazendeiro em conversa com um velho padre. Pareciam,&lt;br /&gt;tanto o secular como o eclesiástico, dois verdadeiros soldados do&lt;br /&gt;Evangelho combinando-se para a mais extensa prática do bem. Tinham&lt;br /&gt;ambos a cabeça branca, o olhar sereno, a postura grave e o gesto&lt;br /&gt;despretensioso. Transluzia-lhes nos olhos a bondade do coração.&lt;br /&gt;Levantaram-se quando apareci e vieram cumprimentar-me.&lt;br /&gt;O fazendeiro era quem chamava mais a minha atenção, pelo que ouvira&lt;br /&gt;dizer dele ao meu amigo e ao pai de Elisa. Pude observá-lo durante alguns&lt;br /&gt;minutos. Era impossível ver aquele homem e não adivinhar o que ele era.&lt;br /&gt;Com uma palavra branda e insinuante disse-me que diante do capelão não&lt;br /&gt;tinha segredos, e que eu dissesse o que tinha para dizer. E começou por&lt;br /&gt;me perguntar quem era eu. Disse-lho; mostrei-lhe o bilhete, declarando&lt;br /&gt;que sabia ser dele, razão por que o procurara.&lt;br /&gt;Depois de algum silêncio disse-me:&lt;br /&gt;— Já falou ao Julião?&lt;br /&gt;— Já.&lt;br /&gt;— Conhece então toda a história?&lt;br /&gt;— Sei do que ele me contou.&lt;br /&gt;— O que ele lhe contou é o que se passou. Foi uma triste história que me&lt;br /&gt;envelheceu ainda mais em poucos dias. Reservou-me o céu aquela tortura&lt;br /&gt;para o último quartel da vida. Soube o que fez. É sofrendo que se aprende.&lt;br /&gt;Foi melhor. Se meu filho havia de esperar que eu morresse para praticar&lt;br /&gt;atos tais com impunidade, bom foi que o fizesse antes, seguindo-se assim&lt;br /&gt;ao delito o castigo que mereceu.&lt;br /&gt;A palavra castigo impressionou-me. Não me pude ter e disse-lhe:&lt;br /&gt;— Fala em castigo. Pois castigou seu filho?&lt;br /&gt;— Pois então? Quem é o autor da morte de Elisa?&lt;br /&gt;— Oh!... isso não, disse eu.&lt;br /&gt;— Não foi autor, foi causa. Mas quem foi o autor da violência à pobre&lt;br /&gt;pequena? Foi decerto meu filho.&lt;br /&gt;— Mas esse castigo?...&lt;br /&gt;— Descanse, disse o velho adivinhando a minha indiscreta inquietação.&lt;br /&gt;Carlos recebeu um castigo honroso, ou, por outra, sofre como castigo&lt;br /&gt;aquilo que devia receber como honra. Eu o conheço. Os cômodos da vida&lt;br /&gt;que teve, a carta que alcançou pelo estudo, e certa dose de vaidade que&lt;br /&gt;todos nós recebemos do berço, e que o berço lhe deu a ele em grande&lt;br /&gt;dose, tudo isso é que o castiga neste momento, porque tudo foi desfeito&lt;br /&gt;pelo gênero de vida que lhe fiz adotar. Carlos é agora soldado.&lt;br /&gt;— Soldado! exclamei eu.&lt;br /&gt;— É verdade. Objetou-me que era doutor. Disse-lhe que devia lembrar-se&lt;br /&gt;de que o era quando penetrou na casa de Julião. A muito pedido, mandei-o&lt;br /&gt;para o Sul, com promessa jurada, e avisos particulares e reiterados, de&lt;br /&gt;que, mal chegasse ali, assentasse praça em um batalhão de linha. Não é&lt;br /&gt;um castigo honroso? Sirva a sua pátria, e guarde a fazenda e a honra dos&lt;br /&gt;seus concidadãos: é o melhor meio de aprender a guardar a honra própria.&lt;br /&gt;Continuamos em nossa conversa durante duas horas quase. O velho&lt;br /&gt;fazendeiro mostrava-se magoadíssimo sempre que volvíamos a falar do&lt;br /&gt;caso de Julião. Depois que lhe declarei que tomava conta da causa em&lt;br /&gt;defesa do réu, instou comigo para que nada poupasse a fim de alcançar a&lt;br /&gt;diminuição da pena de Julião. Se for preciso, dizia ele, apreciar com as&lt;br /&gt;considerações devidas o ato de meu filho, não se acanhe: esqueça-se de&lt;br /&gt;mim, porque eu também me esqueço de meu filho.&lt;br /&gt;Cumprimentei aquela virtude romana, despedi-me do padre, e saí, depois&lt;br /&gt;de prometer tudo o que me foi pedido.&lt;br /&gt;CAPÍTULO IV&lt;br /&gt;— Então, falaste a Julião? perguntou o meu amigo quando me viu entrar&lt;br /&gt;em casa.&lt;br /&gt;— Falei, e falei também ao Pai de todos... Que história, meu amigo!...&lt;br /&gt;Parece um sonho.&lt;br /&gt;— Não te disse?... E defendes o réu?&lt;br /&gt;— Com toda a certeza.&lt;br /&gt;Fui jantar, e passei o resto da tarde conversando acerca do ato de Julião e&lt;br /&gt;das virtudes do fazendeiro.&lt;br /&gt;Poucos dias depois instalou-se o júri onde tinha de comparecer Julião.&lt;br /&gt;De todas as causas, era aquela a que mais medo me fazia; não que eu&lt;br /&gt;duvidasse das atenuantes do crime, mas porque receava não estar na&lt;br /&gt;altura da causa.&lt;br /&gt;Toda a noite da véspera foi para mim de verdadeira insônia. Enfim raiou o&lt;br /&gt;dia marcado para o julgamento de Julião. Levantei-me, comi pouco e&lt;br /&gt;distraído, e vesti-me. Entrou-me no quarto o meu amigo.&lt;br /&gt;— Lá te vou ouvir, disse-me ele abraçando.&lt;br /&gt;Confessei-lhe os meus receios; mas ele, para animar-me, entreteceu uma&lt;br /&gt;grinalda de elogios que eu mal pude ouvir, no meio das minhas&lt;br /&gt;preocupações.&lt;br /&gt;Saímos.&lt;br /&gt;Dispenso os leitores da narração do que se passou no júri. O crime foi&lt;br /&gt;provado pelo depoimento das testemunhas; nem Julião o negou nunca.&lt;br /&gt;Mas apesar de tudo, da confissão e da prova testemunhal, auditório,&lt;br /&gt;jurados, juiz e promotor, todos tinham pregados no réu olhos de simpatia,&lt;br /&gt;admiração e compaixão.&lt;br /&gt;A acusação limitou-se a referir o depoimento das testemunhas, e quando,&lt;br /&gt;terminando o seu discurso, teve de pedir a pena para o réu, o promotor&lt;br /&gt;mostrava-se envergonhado de estar trêmulo e comovido.&lt;br /&gt;Tocou-me a vez de falar. Não sei o que disse. Sei que as mais ruidosas&lt;br /&gt;provas de adesão surgiam no meio do silêncio geral. Quando terminei, dois&lt;br /&gt;homens invadiram a sala e abraçaram-me comovidos: o fazendeiro e o&lt;br /&gt;meu amigo.&lt;br /&gt;Julião foi condenado a dez anos de prisão. Os jurados tinham ouvido a lei,&lt;br /&gt;e igualmente, talvez, o coração.&lt;br /&gt;........................................................................................................&lt;br /&gt;................................................................&lt;br /&gt;CAPÍTULO V&lt;br /&gt;No momento em que escrevo estas páginas, Julião, tendo já cumprido a&lt;br /&gt;sentença, vive na fazenda de Pio. Pio não quis que ele voltasse ao lugar&lt;br /&gt;em que se dera a catástrofe, e fá-lo residir ao pé de si.&lt;br /&gt;O velho fazendeiro tinha feito recolher as cinzas de Elisa em uma urna, ao&lt;br /&gt;pé da qual vão ambos orar todas as semanas.&lt;br /&gt;Aqueles dois pais, que assistiram ao funeral das suas esperanças, achamse&lt;br /&gt;ligados intimamente pelos laços do infortúnio.&lt;br /&gt;Na fazenda fala-se sempre de Elisa, mas nunca de Carlos. Pio é o primeiro&lt;br /&gt;a não magoar o coração de Julião com a lembrança daquele que o levou a&lt;br /&gt;matar sua filha.&lt;br /&gt;Quanto a Carlos, vai resgatando como pode o crime com que atentou&lt;br /&gt;contra a honra de uma donzela e contra a felicidade de dois pais.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-1946487547681158236?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/1946487547681158236/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=1946487547681158236&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/1946487547681158236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/1946487547681158236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/virginius.html' title='Virgínius'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-8796994943129476996</id><published>2012-02-26T14:01:00.001-04:00</published><updated>2012-02-26T14:01:10.434-04:00</updated><title type='text'>Pai contra mãe</title><content type='html'>&lt;br /&gt;PAI CONTRA MÃE&lt;br /&gt;de Machado de Assis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-deflandres.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar, porque&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;cuidemos de máscaras.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", -- ou "receberá uma boa&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cândido Neves, -- em família, Candinho,-- é a pessoa a quem se liga a história de uma&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;obtidos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;muito.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Contava trinta anos. Clara vinte e dous. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;outras.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi--&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;para lembrar o primeiro ofício do namorado, -- tal foi a página inicial daquele livro, que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;demasia a patuscadas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto. --Não, defunto&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;não; mas é que...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;viesse agravar a necessidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara. Tia Mônica devia ter-lhes feito a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;o riso digeria-se sem esforço.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha emprego&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;certo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia. porém, deu sinal de si a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Vocês verão a triste vida, suspirava ela. --Mas as outras crianças não nascem também?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;perguntou Clara. --Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;pouco... --Certa como? --Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero mas&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau... --Bem sei, mas somos três. --&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Seremos quatro. --Não é a mesma cousa. -- Que quer então que eu faça, além do que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;faço? -- Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;passa semanas sem vintém. -- Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;nenhum resiste, muitos entregam-se logo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;deram os parentes do homem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;emprego.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cândido quisera efetivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;mais amargos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;palavra mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio. --&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Titia não fala por mal, Candinho. --Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;míngua. Enfim...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;franqueza e calor,-- crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Quem é? perguntou o marido. --Sou eu.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;inquilino. Este quis que ele entrasse.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Não é preciso... --Faça favor.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;alcançando mais que a ordem de mudança.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Cândido Neves, no&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;cuidassem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;seguinte.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos . As gratificações pela maior&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;fugidos de gratificação incerta ou barata.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo. --Hei&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas não sendo a rua infinita ou&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;buscá-la sem falta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Mas...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;fujona. --Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;a soltasse pelo amor de Deus.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;solte, meu senhor moço! -- Siga! repetiu Cândido Neves. --Me solte! --Não quero&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;demoras; siga!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;açoutes,--cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;lhe mandaria dar açoutes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cândido Neves.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. -- É ela mesma. --Meu senhor! --Anda,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;entra...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta milréis,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;querer conhecer as conseqüências do desastre.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;lhe dava do aborto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-8796994943129476996?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/8796994943129476996/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=8796994943129476996&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/8796994943129476996'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/8796994943129476996'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/pai-contra-mae.html' title='Pai contra mãe'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-7832998963973953564</id><published>2012-02-26T13:55:00.004-04:00</published><updated>2012-02-26T14:06:05.904-04:00</updated><title type='text'>Crônica da Abolição</title><content type='html'>CRÔNICA DA ABOLIÇÃO&lt;br /&gt;Machado de Assis [Bons dias!, 19 de maio de 1888]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;BONS DIAS!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar. Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico. No golpe do meio (coupe do milieu, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia a que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado. Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembéia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo. No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza: — Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que... — Oh! meu senhô! Fico. — Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente. Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos... — Artura não qué dizê nada, não, senhô... — Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha. — Eu vaio um galo, sim, senhô.— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete. Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos. Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes de abolição legal, já eu em casa, na modéstia da familia, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo, tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposição) é então professor de filosofia no Rio das Cobras: que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu. Boas noites.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-7832998963973953564?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/7832998963973953564/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=7832998963973953564&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/7832998963973953564'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/7832998963973953564'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/cronica-da-abolicao.html' title='Crônica da Abolição'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-875495471554959578</id><published>2012-02-26T13:54:00.000-04:00</published><updated>2012-02-26T14:07:12.749-04:00</updated><title type='text'>Plano de Curso - Proc. lit.bras.ficção</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;FACULDADES INTEGRADAS SIMONSEN&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS,LETRAS, LINGÜÍSTICA E ARTES&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;FACULDADE DE LETRAS&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;DISCIPLINA: PROCESSO LITERÁRIOBRASILEIRO – FICÇÃO - 2012.1&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;PROFESSOR: CLÁUDIO LUIS SERRAMARTINS&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;E-MAIL: claudiolsm@gmail.com&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;QUARTAS-FEIRAS: 08:30 ÀS 10:40&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;h1&gt;EMENTA&lt;/h1&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Estudo teórico e prático dasprincipais manifestações literárias do Brasil no período pós-colonial entre osséculos XVIII e XIX.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;h1&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;COURSE PLAN&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2&gt;FEVEREIRO&lt;/h2&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;08&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Introdução ao curso. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;15&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Textos de informação: “A carta de Pero Vaz de Caminha&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;21&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; FERIADO&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;29&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O Romantismo como construção daidentidade nacional. &lt;/span&gt;1) O Indianismo: a idealização do índio em &lt;i&gt;Iracema&lt;/i&gt;, de José de Alencar. Leitura eanálise de &lt;i&gt;Iracema&lt;/i&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3&gt;MARÇO&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/h3&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;07&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Leitura e análise de &lt;i&gt;Iracema&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;14&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O Romantismo comoconstrução da identidade nacional. 2) Joaquim Manuel de Macedo: &lt;i&gt;Um Passeio pela cidade do Rio de Janeiro&lt;/i&gt;.Leitura e análise de passagens de: “O Passeio Público”.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;21&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Leitura e análise doensaio “Um passeio pelo imaginário do colonizador”, de Claudio Martins&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;28&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Crítica e ironia nascrônicas e contos de Machado de Assis. Leitura e análise de: “Crônica da Abolição”;“Pai contra mãe”.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3&gt;ABRIL&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/h3&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;04&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Leitura e análise do conto “Virgínius”, de Machado de Assis.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;11&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O Realismo brasileiro: conceito. Leitura do texto: “Machadode Assis é mesmo realista?” (I e II).&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;18&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;b&gt;NTI - 1&lt;sup&gt;a&lt;/sup&gt;.CHAMADA&lt;/b&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent2"&gt;25&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Lucíola: a Madame Bovary da literature brasileira?Conceito de feminilidade e bovarismo no romance &lt;i&gt;Lucíola&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;Senhora&lt;/i&gt;, deJosé de Alencar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent2"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent2"&gt;&lt;b&gt;MAIO&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent2"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent2"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;02&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Leitura e análise de &lt;i&gt;Lucíola&lt;/i&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;16&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Leitura e análise de &lt;i&gt;Lucíola&lt;/i&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;23&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Leitura e análise de &lt;i&gt;Lucíola&lt;/i&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;30&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;b&gt;NPC - 1&lt;sup&gt;a&lt;/sup&gt;. CHAMADA&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3&gt;JUNE&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/h3&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;b&gt;06&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Entrega de Resultados.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;b&gt;13&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Revisão&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;b&gt;20&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; NEF - 1&lt;sup&gt;a&lt;/sup&gt;. CHAMADA&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;27&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; NPCe NEF - 2&lt;sup&gt;a&lt;/sup&gt;. CHAMADA&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;h4&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;BIBLIOGRAFIA BÁSICA&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/h4&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;BOSI,Alfredo. &lt;b&gt;História concisa da LiteraturaBrasileira&lt;/b&gt;. &lt;/span&gt;São Paulo: Cultrix, 1994.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;CANDIDO, Antonio &amp;amp; CASTELLO, J.A. &lt;b&gt;Presença da Literatura Brasileira: das origens ao realismo&lt;/b&gt;. Rio deJaneiro: Bertrand Brasil, 2005.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;h4&gt;SÍTIOS&lt;/h4&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;CADERNO DE MACHADO DE ASSIS: “Machado de Assis é mesmo realista?”, deGustavo Bernardo: &lt;a href="http://www.dubitoergosum.xpg.com.br/"&gt;HTTP://www.dubitoergosum.xpg.com.br&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;OBRAS DE DOMÍNIO PÚBLICO:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 35.25pt; text-align: justify; text-indent: -35.25pt;"&gt;&lt;a href="http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp"&gt;HTTP://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-875495471554959578?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/875495471554959578/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=875495471554959578&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/875495471554959578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/875495471554959578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/plano-de-curso-proc-litbrasficcao.html' title='Plano de Curso - Proc. lit.bras.ficção'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-4495958450785731921</id><published>2012-02-26T12:11:00.002-04:00</published><updated>2012-02-26T12:51:08.763-04:00</updated><title type='text'>Feitos de Men de Sá</title><content type='html'>FEITOS DE MEM DE SÁ José de AnchietaLIVRO II..........................................................................................................................................................................................................O piedoso Mem de Sá, desejou depois distover adorado o Senhor do céu, do mar e da terrae venerado nas plagas do Sul o nome de Cristo.Resolve impor leis aos índios que vivem quais ferase refrear seus bárbaros costumes. Logo desterraa antropofagia cruel: não permite mais que movidosde gula infrene bebam o sangue fraterno,nem mais se violem os santos direitos da mãe naturezae as leis do Criador. Para logo o ignóbil vulgachoa quem movia ora ambição mal inspiradaora verdadeiro terror, pôs-se a espalhar estes rumores:“que novo governador é este? com que direito postergaas leis antigas e tenta impor novos costumesnovas normas de vida a indômitas gentes?Poderá ele agora persuadir a povos selvagenstratados de aliança? deixará a raça brasílicade comer carne humana, banindo do seiode seus filhos ódios cruéis e guerras antigas?Pois se o prazer destes bárbaros, justamente nisso consiste,atirar-se sempre em novas e ferozes batalhas,provocar os outros à guerra em que sempre viveram,rasgar-lhes com as unhas a carne, e piores que tigres,fincar os dentes em lanhos palpitantes de vida:devem agora aprender a esquecer seus furores,criar almas meigas e corações de cordeiro?Acaso não voltará sobre nós o feroz inimigotodas as iras e todos os braços devastando a cidade,se faltarem outros em que saciem a sede de sangue?Como é possível julgar que mudem agoracostumes que se embeberam na torrente dos séculos?Poderão os beberrões deixar de encher-se de vinhos,de vomitar o que beberam e de beber novamenteo que vomitarão? Não celebrar novas bodas esses devassose renunciando às antigas não se sujar em novas torpezas?Estes e outros costumes, herdados dos seus antepassados,e transmitidos como direito racial, de há longo tempo,sofrerão impunemente que lhos arranquem agora?Quão pouco conhece o índio altivo quem assim pensa!Quanto se engana quem tenta realizar tais projetos!Não está longe de permitir a ruína do povo!”Tais rumores que corriam, tais as críticas durasque publicamente se lançavam: um só temor o de todos,uma só preocupação, desviar o governadordos seus intentos, dobrá-lo com rogos e súplicas,força-lo a deixar as determinações que tomaratão resolutamente. Vão ter com ele bem premunidos,reunindo nesta fala o argumento de todos:“Grande governador, a quem Dom João o terceironosso felicíssimo rei entregou o governo brasílico;por desígnio da Providência, foi-te confiadoo nosso bem, para que em boa paz a todos dirijase olhes pelo bem estar de todos os súditos.Agora que abonançou a tempestade da guerra,que leis tencionas impor a esses povos selvagens?Proíbes aos índios as guerras? de que paz fruir poderemossenão se guerrearem entre si, saciando a sede de sanguecom que nasceram? De que maneira julgas possívelrealizar teus desejos? que deixe de comer carne humanao bárbaro que dela gosta? Podem os tigres viver sem a presae os leões ferozes deixar de despedaçar os novilhose os lobos perdoar às mansas ovelhas ? Antes deixará a baleiade encher de peixes o bojo, no vasto oceano,antes deixará o gavião, em vôo audacioso librado no espaço,de raptar tímidas aves, e a águia real de garras aduncasde levantar às alturas em revoada a lebre cativa:do que deixarem os brasis de devorar carnes humanas.Eia pois! pondera teus intentos com reflexões cautelosas.Não impeça que mutuamente se provoquem à guerrae se matem horrendamente, e, despedaçando seus inimigos,lhes assem a carne no rito paterno e lhe roam os ossosà maneira de cães, celebram as festas dos seus antepassadose não pensem em lançar contra nós os braços ferozes,nem desafoguem em nós suas iras de brutose sedentos de sangue nos passem ao fio da espadaa nós, nossas esposas e filhos, conspurcando de mortetoda a cidade. Tu serás a causa de tão grandes desgraças,tu o responsável único da irreparável ruínae do sangue derramado. Eis que te avisamos com temponós que conhecemos, de há muito, os costumes dos índios,e lhes experimentamos de perto a índole fera.”Assim falando, eles com acrimônia insistiamerguendo a voz diante do governador: este porém, cujo peitoera sacrário de Deus, confiado no poder de Jesus,cujo nome ansiava por tornar conhecido naquelasbárbaras plagas, com ânimo tranqüilo e semblante serenoresponde: “Vive o Deus que criou céus, terras e maresante o qual tremem as abóbadas do firmamentoe as colossais muralhas do imenso universo.Sua destra trar-nos-há auxílio a seu tempoe livrará os cristãos de tantas desgraças.”Assim disse e destemido põe-se a realizar seus projetos...........................................................................................................................................................................................................De início para poder jungir esses rudes selvagensao jugo da lei e moldá-los pela doutrina de Cristo,ordena que deixados recôncavos, campos, florestas,acorram de todas as partes a um mesmo locale aí construam novas casas, ergam novas aldeiase comecem a deixar os antigos costumes de feras;não vagueiem daqui e dali, como tigres, pelos cerrados,sem moradia certa, sempre duma terra p’ra outra,sem nunca fixar-se em aldeias estáveis.Era de ver como logo deixaram as enfumaçadas malocas,suas cabanas cobertas de palha e suas roças agrestes.Acorriam de todas as partes, movido da famae do muito medo que do governador se espalhara;todos se submetiam a si, suas esposas e filhossem ousar opor-se ou confiar em seus braços e armas.Decidido assim a impor nova ordem, novos costumes,o magnânimo chefe manda construir quatro aldeiasde amplo circuito, nas quais se reunam todos os índiosdas tabas em derredor e onde aprendam aos poucos,de coração já manso, as leis santas de Cristo.E porque o ano em quatro estações se divide,que o áureo sol percorre com sua luz fulgurante,fecundando-o com seus raios para que férteis ressurjamas searas e reverdeçam as veigas contentes e fartas,e a um tempo os frutos desejados madurem:assim Jesus, filho unigênito de Deus, com o lumede sua divindade, aclare estes brasis, repartidosem quatro aldeias. Roçados os tojais, revolvidosos campos ao labutar auspicioso do arado,fecunde ele esta gleba e enfim a esplêndida messepague aos lavradores os gemidos e as lágrimasque com as sementes lançara, por anos a fioe com o coração aos pulos, encham os celeiros vazios.Brotam as novas moradias; o índio, nômade há pouco,ergue seu teto que o abrigará muitos anos,e canta, em igrejas novas, o nome de Jesus, reverente.O pio governador impõe santas leis aos selvagens,e, desterrando costumes e ritos dos antepassados,vínculos que os ligavam ao tirano do infernoe lhes enlodavam as almas de culpas horrendas,substitui-lhes preceitos divinos que cortem abusos,lavem os corações afeiados e os rendam ao jugode Cristo que, com um único aceno, rege o universo&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-4495958450785731921?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/4495958450785731921/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=4495958450785731921&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/4495958450785731921'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/4495958450785731921'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/feitos-de-men-de-sa.html' title='Feitos de Men de Sá'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-2438954909013083949</id><published>2012-02-18T13:23:00.000-04:00</published><updated>2012-02-18T13:25:03.450-04:00</updated><title type='text'>AUGUSTO DOS ANJOS &amp; EDGAR ALLAN POE: RELAÇÕES POÉTICAS</title><content type='html'>Esse texto está disponível para leitura no sítio: http://www.cchla.ufrn.br/humanidades/ARTIGOS/GT40/AA%20e%20Poe--SH%202008%20-%20Completo%20III%20%2812-12%29.pdf&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-2438954909013083949?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/2438954909013083949/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=2438954909013083949&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/2438954909013083949'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/2438954909013083949'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/augusto-dos-anjos-edgar-allan-poe_7657.html' title='AUGUSTO DOS ANJOS &amp; EDGAR ALLAN POE: RELAÇÕES POÉTICAS'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-743869851364293670</id><published>2012-02-18T13:06:00.002-04:00</published><updated>2012-02-18T13:07:03.634-04:00</updated><title type='text'>Edgar Allan Poe</title><content type='html'>EDGAR ALLAN POE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O CORVO (1845)&lt;br /&gt;Tradução de Machado de Assis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em certo dia, à hora, à hora&lt;br /&gt;Da meia-noite que apavora,&lt;br /&gt;Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,&lt;br /&gt;Ao pé de muita lauda antiga,&lt;br /&gt;De uma velha doutrina, agora morta,&lt;br /&gt;Ia pensando, quando ouvi à porta&lt;br /&gt;Do meu quarto um soar devagarinho,&lt;br /&gt;E disse estas palavras tais:&lt;br /&gt;"É alguém que me bate à porta de mansinho;&lt;br /&gt;Há de ser isso e nada mais."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! bem me lembro! bem me lembro!&lt;br /&gt;Era no glacial dezembro;&lt;br /&gt;Cada brasa do lar sobre o chão refletia&lt;br /&gt;A sua última agonia.&lt;br /&gt;Eu, ansioso pelo sol, buscava&lt;br /&gt;Sacar daqueles livros que estudava&lt;br /&gt;Repouso (em vão!) à dor esmagadora&lt;br /&gt;Destas saudades imortais&lt;br /&gt;Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.&lt;br /&gt;E que ninguém chamará mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o rumor triste, vago, brando&lt;br /&gt;Das cortinas ia acordando&lt;br /&gt;Dentro em meu coração um rumor não sabido,&lt;br /&gt;Nunca por ele padecido.&lt;br /&gt;Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,&lt;br /&gt;Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,&lt;br /&gt;(Disse) é visita amiga e retardada&lt;br /&gt;Que bate a estas horas tais.&lt;br /&gt;É visita que pede à minha porta entrada:&lt;br /&gt;Há de ser isso e nada mais."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minh'alma então sentiu-se forte;&lt;br /&gt;Não mais vacilo e desta sorte&lt;br /&gt;Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,&lt;br /&gt;Me desculpeis tanta demora.&lt;br /&gt;Mas como eu, precisando de descanso,&lt;br /&gt;Já cochilava, e tão de manso e manso&lt;br /&gt;Batestes, não fui logo, prestemente,&lt;br /&gt;Certificar-me que aí estais."&lt;br /&gt;Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,&lt;br /&gt;Somente a noite, e nada mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com longo olhar escruto a sombra,&lt;br /&gt;Que me amedronta, que me assombra,&lt;br /&gt;E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,&lt;br /&gt;Mas o silêncio amplo e calado,&lt;br /&gt;Calado fica; a quietação quieta;&lt;br /&gt;Só tu, palavra única e dileta,&lt;br /&gt;Lenora, tu, como um suspiro escasso,&lt;br /&gt;Da minha triste boca sais;&lt;br /&gt;E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;&lt;br /&gt;Foi isso apenas, nada mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro coa alma incendiada.&lt;br /&gt;Logo depois outra pancada&lt;br /&gt;Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:&lt;br /&gt;"Seguramente, há na janela&lt;br /&gt;Alguma cousa que sussurra. Abramos,&lt;br /&gt;Eia, fora o temor, eia, vejamos&lt;br /&gt;A explicação do caso misterioso&lt;br /&gt;Dessas duas pancadas tais.&lt;br /&gt;Devolvamos a paz ao coração medroso,&lt;br /&gt;Obra do vento e nada mais."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abro a janela, e de repente,&lt;br /&gt;Vejo tumultuosamente&lt;br /&gt;Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.&lt;br /&gt;Não despendeu em cortesias&lt;br /&gt;Um minuto, um instante. Tinha o aspecto&lt;br /&gt;De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,&lt;br /&gt;Movendo no ar as suas negras alas,&lt;br /&gt;Acima voa dos portais,&lt;br /&gt;Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;&lt;br /&gt;Trepado fica, e nada mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da ave feia e escura,&lt;br /&gt;Naquela rígida postura,&lt;br /&gt;Com o gesto severo, — o triste pensamento&lt;br /&gt;Sorriu-me ali por um momento,&lt;br /&gt;E eu disse: "O tu que das noturnas plagas&lt;br /&gt;Vens, embora a cabeça nua tragas,&lt;br /&gt;Sem topete, não és ave medrosa,&lt;br /&gt;Dize os teus nomes senhoriais;&lt;br /&gt;Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"&lt;br /&gt;E o corvo disse: "Nunca mais".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vendo que o pássaro entendia&lt;br /&gt;A pergunta que lhe eu fazia,&lt;br /&gt;Fico atônito, embora a resposta que dera&lt;br /&gt;Dificilmente lha entendera.&lt;br /&gt;Na verdade, jamais homem há visto&lt;br /&gt;Cousa na terra semelhante a isto:&lt;br /&gt;Uma ave negra, friamente posta&lt;br /&gt;Num busto, acima dos portais,&lt;br /&gt;Ouvir uma pergunta e dizer em resposta&lt;br /&gt;Que este é seu nome: "Nunca mais".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, o corvo solitário&lt;br /&gt;Não teve outro vocabulário,&lt;br /&gt;Como se essa palavra escassa que ali disse&lt;br /&gt;Toda a sua alma resumisse.&lt;br /&gt;Nenhuma outra proferiu, nenhuma,&lt;br /&gt;Não chegou a mexer uma só pluma,&lt;br /&gt;Até que eu murmurei: "Perdi outrora&lt;br /&gt;Tantos amigos tão leais!&lt;br /&gt;Perderei também este em regressando a aurora."&lt;br /&gt;E o corvo disse: "Nunca mais!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estremeço. A resposta ouvida&lt;br /&gt;É tão exata! é tão cabida!&lt;br /&gt;"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência&lt;br /&gt;Que ele trouxe da convivência&lt;br /&gt;De algum mestre infeliz e acabrunhado&lt;br /&gt;Que o implacável destino há castigado&lt;br /&gt;Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,&lt;br /&gt;Que dos seus cantos usuais&lt;br /&gt;Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,&lt;br /&gt;Esse estribilho: "Nunca mais".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segunda vez, nesse momento,&lt;br /&gt;Sorriu-me o triste pensamento;&lt;br /&gt;Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;&lt;br /&gt;E mergulhando no veludo&lt;br /&gt;Da poltrona que eu mesmo ali trouxera&lt;br /&gt;Achar procuro a lúgubre quimera,&lt;br /&gt;A alma, o sentido, o pávido segredo&lt;br /&gt;Daquelas sílabas fatais,&lt;br /&gt;Entender o que quis dizer a ave do medo&lt;br /&gt;Grasnando a frase: "Nunca mais".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim posto, devaneando,&lt;br /&gt;Meditando, conjeturando,&lt;br /&gt;Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,&lt;br /&gt;Sentia o olhar que me abrasava.&lt;br /&gt;Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,&lt;br /&gt;Com a cabeça no macio encosto&lt;br /&gt;Onde os raios da lâmpada caíam,&lt;br /&gt;Onde as tranças angelicais&lt;br /&gt;De outra cabeça outrora ali se desparziam,&lt;br /&gt;E agora não se esparzem mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Supus então que o ar, mais denso,&lt;br /&gt;Todo se enchia de um incenso,&lt;br /&gt;Obra de serafins que, pelo chão roçando&lt;br /&gt;Do quarto, estavam meneando&lt;br /&gt;Um ligeiro turíbulo invisível;&lt;br /&gt;E eu exclamei então: "Um Deus sensível&lt;br /&gt;Manda repouso à dor que te devora&lt;br /&gt;Destas saudades imortais.&lt;br /&gt;Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."&lt;br /&gt;E o corvo disse: "Nunca mais".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Profeta, ou o que quer que sejas!&lt;br /&gt;Ave ou demônio que negrejas!&lt;br /&gt;Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno&lt;br /&gt;Onde reside o mal eterno,&lt;br /&gt;Ou simplesmente náufrago escapado&lt;br /&gt;Venhas do temporal que te há lançado&lt;br /&gt;Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo&lt;br /&gt;Tem os seus lares triunfais,&lt;br /&gt;Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"&lt;br /&gt;E o corvo disse: "Nunca mais".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Profeta, ou o que quer que sejas!&lt;br /&gt;Ave ou demônio que negrejas!&lt;br /&gt;Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!&lt;br /&gt;Por esse céu que além se estende,&lt;br /&gt;Pelo Deus que ambos adoramos, fala,&lt;br /&gt;Dize a esta alma se é dado inda escutá-la&lt;br /&gt;No éden celeste a virgem que ela chora&lt;br /&gt;Nestes retiros sepulcrais,&lt;br /&gt;Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”&lt;br /&gt;E o corvo disse: "Nunca mais."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ave ou demônio que negrejas!&lt;br /&gt;Profeta, ou o que quer que sejas!&lt;br /&gt;Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!&lt;br /&gt;Regressa ao temporal, regressa&lt;br /&gt;À tua noite, deixa-me comigo.&lt;br /&gt;Vai-te, não fique no meu casto abrigo&lt;br /&gt;Pluma que lembre essa mentira tua.&lt;br /&gt;Tira-me ao peito essas fatais&lt;br /&gt;Garras que abrindo vão a minha dor já crua."&lt;br /&gt;E o corvo disse: "Nunca mais".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o corvo aí fica; ei-lo trepado&lt;br /&gt;No branco mármore lavrado&lt;br /&gt;Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.&lt;br /&gt;Parece, ao ver-lhe o duro cenho,&lt;br /&gt;Um demônio sonhando. A luz caída&lt;br /&gt;Do lampião sobre a ave aborrecida&lt;br /&gt;No chão espraia a triste sombra; e, fora&lt;br /&gt;Daquelas linhas funerais&lt;br /&gt;Que flutuam no chão, a minha alma que chora&lt;br /&gt;Não sai mais, nunca, nunca mais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANNABEL LEE (1849)&lt;br /&gt;(tradução de Fernando Pessoa)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi há muitos e muitos anos já,&lt;br /&gt;Num reino de ao pé do mar.&lt;br /&gt;Como sabeis todos, vivia lá&lt;br /&gt;Aquela que eu soube amar;&lt;br /&gt;E vivia sem outro pensamento&lt;br /&gt;Que amar-me e eu a adorar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu era criança e ela era criança,&lt;br /&gt;Neste reino ao pé do mar;&lt;br /&gt;Mas o nosso amor era mais que amor --&lt;br /&gt;O meu e o dela a amar;&lt;br /&gt;Um amor que os anjos do céu vieram&lt;br /&gt;a ambos nós invejar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi esta a razão por que, há muitos anos,&lt;br /&gt;Neste reino ao pé do mar,&lt;br /&gt;Um vento saiu duma nuvem, gelando&lt;br /&gt;A linda que eu soube amar;&lt;br /&gt;E o seu parente fidalgo veio&lt;br /&gt;De longe a me a tirar,&lt;br /&gt;Para a fechar num sepulcro&lt;br /&gt;Neste reino ao pé do mar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os anjos, menos felizes no céu,&lt;br /&gt;Ainda a nos invejar...&lt;br /&gt;Sim, foi essa a razão (como sabem todos,&lt;br /&gt;Neste reino ao pé do mar)&lt;br /&gt;Que o vento saiu da nuvem de noite&lt;br /&gt;Gelando e matando a que eu soube amar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o nosso amor era mais que o amor&lt;br /&gt;De muitos mais velhos a amar,&lt;br /&gt;De muitos de mais meditar,&lt;br /&gt;E nem os anjos do céu lá em cima,&lt;br /&gt;Nem demônios debaixo do mar&lt;br /&gt;Poderão separar a minha alma da alma&lt;br /&gt;Da linda que eu soube amar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos&lt;br /&gt;Da linda que eu soube amar;&lt;br /&gt;E as estrelas nos ares só me lembram olhares&lt;br /&gt;Da linda que eu soube amar;&lt;br /&gt;E assim 'stou deitado toda a noite ao lado&lt;br /&gt;Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,&lt;br /&gt;No sepulcro ao pé do mar,&lt;br /&gt;Ao pé do murmúrio do mar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-743869851364293670?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/743869851364293670/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=743869851364293670&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/743869851364293670'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/743869851364293670'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/edgar-allan-poe.html' title='Edgar Allan Poe'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-5607606736725129690</id><published>2012-02-18T12:48:00.001-04:00</published><updated>2012-02-18T13:05:43.392-04:00</updated><title type='text'>Augusto dos Anjos</title><content type='html'>AUGUSTO DOS ANJOS&lt;br /&gt;O Morcego&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.&lt;br /&gt;Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:&lt;br /&gt;Na bruta ardência orgânica da sede,&lt;br /&gt;Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Vou mandar levantar outra parede..."&lt;br /&gt;- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho&lt;br /&gt;E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,&lt;br /&gt;Circularmente sobre a minha rede!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pego de um pau. Esforços faço. Chego A tocá-lo. Minh’alma se concentra.&lt;br /&gt;Que ventre produziu tão feio parto?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Consciência Humana é este morcego!&lt;br /&gt;Por mais que a gente faça, à noite, ele entra&lt;br /&gt;Imperceptivelmente em nosso quarto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOLITÁRIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um fantasma que se refugia &lt;br /&gt;Na solidão da natureza morta, &lt;br /&gt;Por trás dos ermos túmulos, um dia, &lt;br /&gt;Eu fui refugiar-me à tua porta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazia frio e o frio que fazia&lt;br /&gt;Não era esse que a carne nos contorta...&lt;br /&gt;Cortava assim como em carniçaria&lt;br /&gt;O aço das facas incisivas corta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tu não vieste ver minha Desgraça!&lt;br /&gt;E eu saí, como quem tudo repele, &lt;br /&gt;-- Velho caixão a carregar destroços --&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levando apenas na tumba carcaça&lt;br /&gt;O pergaminho singular da pele&lt;br /&gt;E o chocalho fatídico dos ossos!&lt;br /&gt;VERSOS ÍNTIMOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vês! Ninguém assistiu ao formidável&lt;br /&gt;Enterro de tua última quimera.&lt;br /&gt;Somente a Ingratidão – esta pantera – &lt;br /&gt;Foi tua companheira inseparável!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acostuma-te à lama que te espera!&lt;br /&gt;O Homem, que, nesta terra miserável,&lt;br /&gt;Mora entre feras, sente inevitável&lt;br /&gt;Necessidade de também ser fera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toma um fósforo. Acende teu cigarro!&lt;br /&gt;O beijo, amigo, é a véspera do escarro,&lt;br /&gt;A mão que afaga é a mesma que apedreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a alguém causa inda pena a tua chaga,&lt;br /&gt;Apedreja essa mão vil que te afaga,&lt;br /&gt;Escarra nessa boca que te beija!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-5607606736725129690?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/5607606736725129690/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=5607606736725129690&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/5607606736725129690'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/5607606736725129690'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/augusto-dos-anjos.html' title='Augusto dos Anjos'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-4581991185024115209</id><published>2012-02-18T12:47:00.002-04:00</published><updated>2012-02-18T12:48:44.464-04:00</updated><title type='text'>Olavo Bilac</title><content type='html'>OLAVO BILAC&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VIA-LÁCTEA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XX&lt;br /&gt;Olha-me! O teu olhar sereno e brando&lt;br /&gt;Entra-me o peito, como um largo rio&lt;br /&gt;De ondas de ouro e de luz, límpido, entrando&lt;br /&gt;O ermo de um bosque tenebroso e frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fala-me! Em grupos doudejantes, quando&lt;br /&gt;Falas, por noites cálidas de estio,&lt;br /&gt;As estrelas acendem-se, radiando,&lt;br /&gt;Altas, semeadas pelo céu sombrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha-me assim! Fala-me assim! De pranto &lt;br /&gt;Agora, agora de ternura cheia, &lt;br /&gt;Abre em chispas de fogo essa pupila...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto eu ardo em sua luz, enquanto&lt;br /&gt;Em seu fulgor me abraso, uma sereia&lt;br /&gt;Soluce e cante nessa voz tranqüila!&lt;br /&gt;XXX&lt;br /&gt;Ao coração que sofre, separado&lt;br /&gt;Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,&lt;br /&gt;Não basta o afeto simples e sagrado&lt;br /&gt;Com que das desventuras me protejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me basta saber que sou amado,&lt;br /&gt;Nem só desejo o teu amor: desejo&lt;br /&gt;Ter nos braços teu corpo delicado,&lt;br /&gt;Ter na boca a doçura de teu beijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as justas ambições que me consomem&lt;br /&gt;Não me envergonham: pois maior baixeza&lt;br /&gt;Não há que a terra pelo céu trocar;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais eleva o coração de um homem &lt;br /&gt;Ser de homem sempre e, na maior pureza, &lt;br /&gt;Ficar na terra e humanamente amar.&lt;br /&gt;XXXI&lt;br /&gt;Longe de ti, se escuto, porventura,&lt;br /&gt;Teu nome, que uma boca indiferente&lt;br /&gt;Entre outros nomes de mulher murmura,&lt;br /&gt;Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal aquele, que, mísero, a tortura&lt;br /&gt;Sofre de amargo exílio, e tristemente&lt;br /&gt;A linguagem natal, maviosa e pura,&lt;br /&gt;Ouve falada por estranha gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque teu nome é para mim o nome &lt;br /&gt;De uma pátria distante e idolatrada, &lt;br /&gt;Cuja saudade ardente me consome:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ouvi-lo é ver a eterna primavera&lt;br /&gt;E a eterna luz da terra abençoada,&lt;br /&gt;Onde, entre flores, teu amor me espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CRIAÇÃO&lt;br /&gt;Há no amor um momento de grandeza,&lt;br /&gt;que é de inconsciência e de êxtase bendito:&lt;br /&gt;os dois corpos são toda a Natureza,&lt;br /&gt;as duas almas são todo o Infinito.&lt;br /&gt;É um mistério de força e de surpresa!&lt;br /&gt;Estala o coração da terra aflito;&lt;br /&gt;rasga-se em luz fecunda a esfera acesa,&lt;br /&gt;e de todos os astros rompe um grito.&lt;br /&gt;Deus transmite o seu hálito aos amantes:&lt;br /&gt;cada beijo é a sanção dos Sete Dias,&lt;br /&gt;e a Gênese fulgura em cada abraço;&lt;br /&gt;Porque, entre as duas bocas soluçantes,&lt;br /&gt;rola todo o Universo, em harmonias&lt;br /&gt;e em florificações, enchendo o espaço!&lt;br /&gt;O SONHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade&lt;br /&gt;Solto para onde estás, e fico de ti perto!&lt;br /&gt;Como, depois do sonho, é triste a realidade! &lt;br /&gt;Como tudo, sem ti, fica depois deserto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonho... Minha alma voa. O ar gorjeia e soluça.&lt;br /&gt;Noite... A amplidão se estende, iluminada e calma:&lt;br /&gt;De cada estrela de ouro um anjo se debruça,&lt;br /&gt;E abre o olhar espantado, ao ver passar minha alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há por tudo a alegria e o rumor de um noivado.&lt;br /&gt;Em torno a cada ninho anda bailando uma asa.&lt;br /&gt;E, como sobre um leito um alvo cortinado,&lt;br /&gt;Alva, a luz do luar cai sobre a tua casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, subitamente, um relâmpago corta&lt;br /&gt;Todo o espaço... O rumor de um salmo se levanta&lt;br /&gt;E, sorrindo, serena, apareces à porta,&lt;br /&gt;Como numa moldura a imagem de uma Santa...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-4581991185024115209?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/4581991185024115209/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=4581991185024115209&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/4581991185024115209'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/4581991185024115209'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/olavo-bilac.html' title='Olavo Bilac'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-2048450840024553971</id><published>2012-02-18T12:47:00.001-04:00</published><updated>2012-02-18T12:47:35.590-04:00</updated><title type='text'>Casimiro de Abreu</title><content type='html'>CASIMIRO DE ABREU&lt;br /&gt;Se eu tenho de morrer na flor dos anos,&lt;br /&gt;Meu Deus! não seja já;&lt;br /&gt;Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,&lt;br /&gt;Cantar o sabiá!&lt;br /&gt;Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro&lt;br /&gt;Respirando este ar;&lt;br /&gt;Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo&lt;br /&gt;Os gozos do meu lar!&lt;br /&gt;O país estrangeiro mais belezas&lt;br /&gt;Do que a pátria, não tem;&lt;br /&gt;E este mundo não vale um só dos beijos&lt;br /&gt;Tão doces duma mãe!&lt;br /&gt;Dá-me os sítios gentis onde eu brincava&lt;br /&gt;Lá na quadra infantil;&lt;br /&gt;Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,&lt;br /&gt;O céu do meu Brasil!&lt;br /&gt;Se eu tenho de morrer na flor dos anos,&lt;br /&gt;Meu Deus! não seja já!&lt;br /&gt;Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,&lt;br /&gt;Cantar o sabiá!&lt;br /&gt;Quero ver esse céu da minha terra&lt;br /&gt;Tão lindo e tão azul!&lt;br /&gt;E a nuvem cor de rosa que passava&lt;br /&gt;Correndo lá do sul!&lt;br /&gt;Quero dormir à sombra dos coqueiros,&lt;br /&gt;As folhas por dossel;&lt;br /&gt;E ver se apanho a borboleta branca,&lt;br /&gt;Que voa no vergel!&lt;br /&gt;Quero sentar-me à beira do riacho&lt;br /&gt;Das tardes ao cair,&lt;br /&gt;E sozinho cismando no crepúsculo&lt;br /&gt;Os sonhos do porvir!&lt;br /&gt;Se eu tenho de morrer na flor dos anos,&lt;br /&gt;Meu Deus! não seja já;&lt;br /&gt;Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,&lt;br /&gt;A voz do sabiá!&lt;br /&gt;Quero morrer cercado dos perfumes&lt;br /&gt;Dum clima tropical,&lt;br /&gt;E sentir, expirando, as harmonias&lt;br /&gt;Do meu berço natal!&lt;br /&gt;Minha campa será entre as mangueiras&lt;br /&gt;Banhada do luar,&lt;br /&gt;E eu contente dormirei tranqüilo&lt;br /&gt;À sombra do meu lar!&lt;br /&gt;As cachoeiras chorarão sentidas&lt;br /&gt;Porque cedo morri,&lt;br /&gt;E eu sonho no sepulcro os meus amores&lt;br /&gt;Na terra onde nasci!&lt;br /&gt;Se eu tenho de morrer na flor dos anos,&lt;br /&gt;Meu Deus! não seja já&lt;br /&gt;Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,&lt;br /&gt;Cantar o sabiá!&lt;br /&gt;Lisboa — 1857&lt;br /&gt;(Fonte: www.dominiopublico.gov.br)&lt;br /&gt;CASIMIRO DE ABREU&lt;br /&gt;Oh! que saudades que tenho &lt;br /&gt;Da aurora da minha vida, &lt;br /&gt;Da minha infância querida &lt;br /&gt;Que os anos não trazem mais! &lt;br /&gt;Que amor, que sonhos, que flores, &lt;br /&gt;Naquelas tardes fagueiras &lt;br /&gt;À sombra das bananeiras, &lt;br /&gt;Debaixo dos laranjais! &lt;br /&gt;Como são belos os dias &lt;br /&gt;Do despontar da existência! &lt;br /&gt;- Respira a alma inocência &lt;br /&gt;Como perfumes a flor; &lt;br /&gt;O mar - é lago sereno, &lt;br /&gt;O céu - um manto azulado, &lt;br /&gt;O mundo - um sonho dourado, &lt;br /&gt;A vida - um hino d'amor! &lt;br /&gt;Que aurora, que sol, que vida, &lt;br /&gt;Que noites de melodia &lt;br /&gt;Naquela doce alegria, &lt;br /&gt;Naquele ingênuo folgar! &lt;br /&gt;O céu bordado d'estrelas, &lt;br /&gt;A terra de aromas cheia &lt;br /&gt;As ondas beijando a areia &lt;br /&gt;E a lua beijando o mar! &lt;br /&gt;Oh! dias da minha infância! &lt;br /&gt;Oh! meu céu de primavera! &lt;br /&gt;Que doce a vida não era &lt;br /&gt;Nessa risonha manhã! &lt;br /&gt;Em vez das mágoas de agora, &lt;br /&gt;Eu tinha nessas delícias &lt;br /&gt;De minha mãe as carícias &lt;br /&gt;E beijos de minhã irmã! &lt;br /&gt;Livre filho das montanhas, &lt;br /&gt;Eu ia bem satisfeito, &lt;br /&gt;Da camisa aberta o peito, &lt;br /&gt;- Pés descalços, braços nus - &lt;br /&gt;Correndo pelas campinas &lt;br /&gt;A roda das cachoeiras, &lt;br /&gt;Atrás das asas ligeiras &lt;br /&gt;Das borboletas azuis! &lt;br /&gt;Naqueles tempos ditosos &lt;br /&gt;Ia colher as pitangas, &lt;br /&gt;Trepava a tirar as mangas, &lt;br /&gt;Brincava à beira do mar; &lt;br /&gt;Rezava às Ave-Marias, &lt;br /&gt;Achava o céu sempre lindo. &lt;br /&gt;Adormecia sorrindo &lt;br /&gt;E despertava a cantar!&lt;br /&gt;Oh! que saudades que tenho &lt;br /&gt;Da aurora da minha vida, &lt;br /&gt;Da minha infância querida &lt;br /&gt;Que os anos não trazem mais! &lt;br /&gt;- Que amor, que sonhos, que flores, &lt;br /&gt;Naquelas tardes fagueiras &lt;br /&gt;A sombra das bananeiras &lt;br /&gt;Debaixo dos laranjais! &lt;br /&gt;Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-2048450840024553971?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/2048450840024553971/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=2048450840024553971&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/2048450840024553971'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/2048450840024553971'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/casimiro-de-abreu.html' title='Casimiro de Abreu'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-6919347072526789620</id><published>2012-02-18T12:46:00.001-04:00</published><updated>2012-02-18T12:46:21.745-04:00</updated><title type='text'>Castro Alves</title><content type='html'>CASTRO ALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Navio Negreiro &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I &lt;br /&gt;'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço &lt;br /&gt;Brinca o luar — dourada borboleta; &lt;br /&gt;E as vagas após ele correm... cansam &lt;br /&gt;Como turba de infantes inquieta. &lt;br /&gt;'Stamos em pleno mar... Do firmamento &lt;br /&gt;Os astros saltam como espumas de ouro... &lt;br /&gt;O mar em troca acende as ardentias, &lt;br /&gt;— Constelações do líquido tesouro... &lt;br /&gt;'Stamos em pleno mar... Dois infinitos &lt;br /&gt;Ali se estreitam num abraço insano, &lt;br /&gt;Azuis, dourados, plácidos, sublimes... &lt;br /&gt;Qual dos dous é o céu? qual o oceano?... &lt;br /&gt;'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas &lt;br /&gt;Ao quente arfar das virações marinhas, &lt;br /&gt;Veleiro brigue corre à flor dos mares, &lt;br /&gt;Como roçam na vaga as andorinhas... &lt;br /&gt;Donde vem? onde vai? Das naus errantes &lt;br /&gt;Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? &lt;br /&gt;Neste saara os corcéis o pó levantam, &lt;br /&gt;Galopam, voam, mas não deixam traço. &lt;br /&gt;Bem feliz quem ali pode nest'hora &lt;br /&gt;Sentir deste painel a majestade! &lt;br /&gt;Embaixo — o mar em cima — o firmamento... &lt;br /&gt;E no mar e no céu — a imensidade! &lt;br /&gt;Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! &lt;br /&gt;Que música suave ao longe soa! &lt;br /&gt;Meu Deus! como é sublime um canto ardente &lt;br /&gt;Pelas vagas sem fim boiando à toa! &lt;br /&gt;Homens do mar! ó rudes marinheiros, &lt;br /&gt;Tostados pelo sol dos quatro mundos! &lt;br /&gt;Crianças que a procela acalentara &lt;br /&gt;No berço destes pélagos profundos! &lt;br /&gt;Esperai! esperai! deixai que eu beba &lt;br /&gt;Esta selvagem, livre poesia &lt;br /&gt;Orquestra — é o mar, que ruge pela proa, &lt;br /&gt;E o vento, que nas cordas assobia... &lt;br /&gt;.......................................................... &lt;br /&gt;Por que foges assim, barco ligeiro? &lt;br /&gt;Por que foges do pávido poeta? &lt;br /&gt;Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira &lt;br /&gt;Que semelha no mar — doudo cometa! &lt;br /&gt;Albatroz! Albatroz! águia do oceano, &lt;br /&gt;Tu que dormes das nuvens entre as gazas, &lt;br /&gt;Sacode as penas, Leviathan do espaço, &lt;br /&gt;Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que importa do nauta o berço, &lt;br /&gt;Donde é filho, qual seu lar? &lt;br /&gt;Ama a cadência do verso &lt;br /&gt;Que lhe ensina o velho mar! &lt;br /&gt;Cantai! que a morte é divina! &lt;br /&gt;Resvala o brigue à bolina &lt;br /&gt;Como golfinho veloz. &lt;br /&gt;Presa ao mastro da mezena &lt;br /&gt;Saudosa bandeira acena &lt;br /&gt;As vagas que deixa após. &lt;br /&gt;Do Espanhol as cantilenas &lt;br /&gt;Requebradas de langor, &lt;br /&gt;Lembram as moças morenas, &lt;br /&gt;As andaluzas em flor! &lt;br /&gt;Da Itália o filho indolente &lt;br /&gt;Canta Veneza dormente, &lt;br /&gt;— Terra de amor e traição, &lt;br /&gt;Ou do golfo no regaço &lt;br /&gt;Relembra os versos de Tasso, &lt;br /&gt;Junto às lavas do vulcão! &lt;br /&gt;O Inglês — marinheiro frio, &lt;br /&gt;Que ao nascer no mar se achou, &lt;br /&gt;(Porque a Inglaterra é um navio, &lt;br /&gt;Que Deus na Mancha ancorou), &lt;br /&gt;Rijo entoa pátrias glórias, &lt;br /&gt;Lembrando, orgulhoso, histórias &lt;br /&gt;De Nelson e de Aboukir.. . &lt;br /&gt;O Francês — predestinado — &lt;br /&gt;Canta os louros do passado &lt;br /&gt;E os loureiros do porvir! &lt;br /&gt;Os marinheiros Helenos, &lt;br /&gt;Que a vaga jônia criou, &lt;br /&gt;Belos piratas morenos &lt;br /&gt;Do mar que Ulisses cortou, &lt;br /&gt;Homens que Fídias talhara, &lt;br /&gt;Vão cantando em noite clara &lt;br /&gt;Versos que Homero gemeu ... &lt;br /&gt;Nautas de todas as plagas, &lt;br /&gt;Vós sabeis achar nas vagas &lt;br /&gt;As melodias do céu! ... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! &lt;br /&gt;Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano &lt;br /&gt;Como o teu mergulhar no brigue voador! &lt;br /&gt;Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras! &lt;br /&gt;É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ... &lt;br /&gt;Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um sonho dantesco... o tombadilho &lt;br /&gt;Que das luzernas avermelha o brilho. &lt;br /&gt;Em sangue a se banhar. &lt;br /&gt;Tinir de ferros... estalar de açoite... &lt;br /&gt;Legiões de homens negros como a noite, &lt;br /&gt;Horrendos a dançar... &lt;br /&gt;Negras mulheres, suspendendo às tetas &lt;br /&gt;Magras crianças, cujas bocas pretas &lt;br /&gt;Rega o sangue das mães: &lt;br /&gt;Outras moças, mas nuas e espantadas, &lt;br /&gt;No turbilhão de espectros arrastadas, &lt;br /&gt;Em ânsia e mágoa vãs! &lt;br /&gt;E ri-se a orquestra irônica, estridente... &lt;br /&gt;E da ronda fantástica a serpente &lt;br /&gt;Faz doudas espirais ... &lt;br /&gt;Se o velho arqueja, se no chão resvala, &lt;br /&gt;Ouvem-se gritos... o chicote estala. &lt;br /&gt;E voam mais e mais... &lt;br /&gt;Presa nos elos de uma só cadeia, &lt;br /&gt;A multidão faminta cambaleia, &lt;br /&gt;E chora e dança ali! &lt;br /&gt;Um de raiva delira, outro enlouquece, &lt;br /&gt;Outro, que martírios embrutece, &lt;br /&gt;Cantando, geme e ri! &lt;br /&gt;No entanto o capitão manda a manobra, &lt;br /&gt;E após fitando o céu que se desdobra, &lt;br /&gt;Tão puro sobre o mar, &lt;br /&gt;Diz do fumo entre os densos nevoeiros: &lt;br /&gt;"Vibrai rijo o chicote, marinheiros! &lt;br /&gt;Fazei-os mais dançar!..." &lt;br /&gt;E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . &lt;br /&gt;E da ronda fantástica a serpente &lt;br /&gt;Faz doudas espirais... &lt;br /&gt;Qual um sonho dantesco as sombras voam!... &lt;br /&gt;Gritos, ais, maldições, preces ressoam! &lt;br /&gt;E ri-se Satanás!... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor Deus dos desgraçados! &lt;br /&gt;Dizei-me vós, Senhor Deus! &lt;br /&gt;Se é loucura... se é verdade &lt;br /&gt;Tanto horror perante os céus?! &lt;br /&gt;Ó mar, por que não apagas &lt;br /&gt;Co'a esponja de tuas vagas &lt;br /&gt;De teu manto este borrão?... &lt;br /&gt;Astros! noites! tempestades! &lt;br /&gt;Rolai das imensidades! &lt;br /&gt;Varrei os mares, tufão! &lt;br /&gt;Quem são estes desgraçados &lt;br /&gt;Que não encontram em vós &lt;br /&gt;Mais que o rir calmo da turba &lt;br /&gt;Que excita a fúria do algoz? &lt;br /&gt;Quem são? Se a estrela se cala, &lt;br /&gt;Se a vaga à pressa resvala &lt;br /&gt;Como um cúmplice fugaz, &lt;br /&gt;Perante a noite confusa... &lt;br /&gt;Dize-o tu, severa Musa, &lt;br /&gt;Musa libérrima, audaz!... &lt;br /&gt;São os filhos do deserto, &lt;br /&gt;Onde a terra esposa a luz. &lt;br /&gt;Onde vive em campo aberto &lt;br /&gt;A tribo dos homens nus... &lt;br /&gt;São os guerreiros ousados &lt;br /&gt;Que com os tigres mosqueados &lt;br /&gt;Combatem na solidão. &lt;br /&gt;Ontem simples, fortes, bravos. &lt;br /&gt;Hoje míseros escravos, &lt;br /&gt;Sem luz, sem ar, sem razão. . . &lt;br /&gt;São mulheres desgraçadas, &lt;br /&gt;Como Agar o foi também. &lt;br /&gt;Que sedentas, alquebradas, &lt;br /&gt;De longe... bem longe vêm... &lt;br /&gt;Trazendo com tíbios passos, &lt;br /&gt;Filhos e algemas nos braços, &lt;br /&gt;N'alma — lágrimas e fel... &lt;br /&gt;Como Agar sofrendo tanto, &lt;br /&gt;Que nem o leite de pranto &lt;br /&gt;Têm que dar para Ismael. &lt;br /&gt;Lá nas areias infindas, &lt;br /&gt;Das palmeiras no país, &lt;br /&gt;Nasceram crianças lindas, &lt;br /&gt;Viveram moças gentis... &lt;br /&gt;Passa um dia a caravana, &lt;br /&gt;Quando a virgem na cabana &lt;br /&gt;Cisma da noite nos véus ... &lt;br /&gt;... Adeus, ó choça do monte, &lt;br /&gt;... Adeus, palmeiras da fonte!... &lt;br /&gt;... Adeus, amores... adeus!... &lt;br /&gt;Depois, o areal extenso... &lt;br /&gt;Depois, o oceano de pó. &lt;br /&gt;Depois no horizonte imenso &lt;br /&gt;Desertos... desertos só... &lt;br /&gt;E a fome, o cansaço, a sede... &lt;br /&gt;Ai! quanto infeliz que cede, &lt;br /&gt;E cai p'ra não mais s'erguer!... &lt;br /&gt;Vaga um lugar na cadeia, &lt;br /&gt;Mas o chacal sobre a areia &lt;br /&gt;Acha um corpo que roer. &lt;br /&gt;Ontem a Serra Leoa, &lt;br /&gt;A guerra, a caça ao leão, &lt;br /&gt;O sono dormido à toa &lt;br /&gt;Sob as tendas d'amplidão! &lt;br /&gt;Hoje... o porão negro, fundo, &lt;br /&gt;Infecto, apertado, imundo, &lt;br /&gt;Tendo a peste por jaguar... &lt;br /&gt;E o sono sempre cortado &lt;br /&gt;Pelo arranco de um finado, &lt;br /&gt;E o baque de um corpo ao mar... &lt;br /&gt;Ontem plena liberdade, &lt;br /&gt;A vontade por poder... &lt;br /&gt;Hoje... cúm'lo de maldade, &lt;br /&gt;Nem são livres p'ra morrer. . &lt;br /&gt;Prende-os a mesma corrente &lt;br /&gt;— Férrea, lúgubre serpente — &lt;br /&gt;Nas roscas da escravidão. &lt;br /&gt;E assim zombando da morte, &lt;br /&gt;Dança a lúgubre coorte &lt;br /&gt;Ao som do açoute... Irrisão!... &lt;br /&gt;Senhor Deus dos desgraçados! &lt;br /&gt;Dizei-me vós, Senhor Deus, &lt;br /&gt;Se eu deliro... ou se é verdade &lt;br /&gt;Tanto horror perante os céus?!... &lt;br /&gt;Ó mar, por que não apagas &lt;br /&gt;Co'a esponja de tuas vagas &lt;br /&gt;Do teu manto este borrão? &lt;br /&gt;Astros! noites! tempestades! &lt;br /&gt;Rolai das imensidades! &lt;br /&gt;Varrei os mares, tufão! ... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existe um povo que a bandeira empresta &lt;br /&gt;P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... &lt;br /&gt;E deixa-a transformar-se nessa festa &lt;br /&gt;Em manto impuro de bacante fria!... &lt;br /&gt;Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, &lt;br /&gt;Que impudente na gávea tripudia? &lt;br /&gt;Silêncio. Musa... chora, e chora tanto &lt;br /&gt;Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... &lt;br /&gt;Auriverde pendão de minha terra, &lt;br /&gt;Que a brisa do Brasil beija e balança, &lt;br /&gt;Estandarte que a luz do sol encerra &lt;br /&gt;E as promessas divinas da esperança... &lt;br /&gt;Tu que, da liberdade após a guerra, &lt;br /&gt;Foste hasteado dos heróis na lança &lt;br /&gt;Antes te houvessem roto na batalha, &lt;br /&gt;Que servires a um povo de mortalha!... &lt;br /&gt;Fatalidade atroz que a mente esmaga! &lt;br /&gt;Extingue nesta hora o brigue imundo &lt;br /&gt;O trilho que Colombo abriu nas vagas, &lt;br /&gt;Como um íris no pélago profundo! &lt;br /&gt;Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga &lt;br /&gt;Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! &lt;br /&gt;Andrada! arranca esse pendão dos ares! &lt;br /&gt;Colombo! fecha a porta dos teus mares! &lt;br /&gt;S. Paulo, 18 de abril de 1868.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A CANÇÃO DO AFRICANO&lt;br /&gt;Lá na úmida senzala,&lt;br /&gt;Sentado na estreita sala,&lt;br /&gt;Junto ao braseiro, no chão,&lt;br /&gt;Entoa o escravo o seu canto,&lt;br /&gt;E ao cantar correm-lhe em pranto&lt;br /&gt;Saudades do seu torrão ...&lt;br /&gt;De um lado, uma negra escrava&lt;br /&gt;Os olhos no filho crava,&lt;br /&gt;Que tem no colo a embalar...&lt;br /&gt;E à meia voz lá responde&lt;br /&gt;Ao canto, e o filhinho esconde,&lt;br /&gt;Talvez pra não o escutar!&lt;br /&gt;"Minha terra é lá bem longe,&lt;br /&gt;Das bandas de onde o sol vem;&lt;br /&gt;Esta terra é mais bonita,&lt;br /&gt;Mas à outra eu quero bem!&lt;br /&gt;"0 sol faz lá tudo em fogo,&lt;br /&gt;Faz em brasa toda a areia;&lt;br /&gt;Ninguém sabe como é belo&lt;br /&gt;Ver de tarde a papa-ceia!&lt;br /&gt;"Aquelas terras tão grandes,&lt;br /&gt;Tão compridas como o mar,&lt;br /&gt;Com suas poucas palmeiras&lt;br /&gt;Dão vontade de pensar ...&lt;br /&gt;"Lá todos vivem felizes,&lt;br /&gt;Todos dançam no terreiro;&lt;br /&gt;A gente lá não se vende&lt;br /&gt;Como aqui, só por dinheiro".&lt;br /&gt;O escravo calou a fala,&lt;br /&gt;Porque na úmida sala&lt;br /&gt;O fogo estava a apagar;&lt;br /&gt;E a escrava acabou seu canto,&lt;br /&gt;Pra não acordar com o pranto&lt;br /&gt;O seu filhinho a sonhar!&lt;br /&gt;O escravo então foi deitar-se,&lt;br /&gt;Pois tinha de levantar-se&lt;br /&gt;Bem antes do sol nascer,&lt;br /&gt;E se tardasse, coitado,&lt;br /&gt;Teria de ser surrado,&lt;br /&gt;Pois bastava escravo ser.&lt;br /&gt;E a cativa desgraçada&lt;br /&gt;Deita seu filho, calada,&lt;br /&gt;E põe-se triste a beijá-lo,&lt;br /&gt;Talvez temendo que o dono&lt;br /&gt;Não viesse, em meio do sono,&lt;br /&gt;De seus braços arrancá-lo!&lt;br /&gt;(Fonte: www.secrel.com.br)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Adeus de Teresa&lt;br /&gt;A vez primeira que eu fitei Teresa,&lt;br /&gt;Como as plantas que arrasta&lt;br /&gt;a correnteza,&lt;br /&gt;A valsa nos levou nos giros&lt;br /&gt;seus...&lt;br /&gt;E amamos juntos... E depois&lt;br /&gt;na sala&lt;br /&gt;"Adeus" eu disse-lhe&lt;br /&gt;a tremer co'a fala...&lt;br /&gt;E ela, corando, murmurou-me: "adeus."&lt;br /&gt;Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...&lt;br /&gt;E da alcova saía um cavaleiro&lt;br /&gt;Inda beijando uma mulher sem véus...&lt;br /&gt;Era eu... Era a pálida Teresa!&lt;br /&gt;"Adeus" lhe disse conservando-a presa...&lt;br /&gt;E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"&lt;br /&gt;Passaram tempos... sec'los de delírio&lt;br /&gt;Prazeres divinais... gozos do Empíreo...&lt;br /&gt;... Mas um dia volvi aos lares meus.&lt;br /&gt;Partindo eu disse — "Voltarei!... descansa!...&lt;br /&gt;Ela, chorando mais que uma criança,&lt;br /&gt;Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"&lt;br /&gt;Quando voltei... era o palácio em festa!...&lt;br /&gt;E a voz d'Ela e de um homem lá na orquesta&lt;br /&gt;Preenchiam de amor o azul dos céus.&lt;br /&gt;Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!&lt;br /&gt;Foi a última vez que eu vi Teresa!...&lt;br /&gt;E ela arquejando murmurou-me: "adeus!" &lt;br /&gt;(Fonte: www.dominiopublico.gov.br)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-6919347072526789620?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/6919347072526789620/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=6919347072526789620&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/6919347072526789620'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/6919347072526789620'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/castro-alves.html' title='Castro Alves'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-8610518549185555632</id><published>2012-02-18T12:45:00.001-04:00</published><updated>2012-02-18T12:45:21.213-04:00</updated><title type='text'>Alvares de Azevedo</title><content type='html'>Álvares de Azevedo &lt;br /&gt;Cuidado, leitor, ao voltar esta página!&lt;br /&gt;Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Baratária de D. Quixote, onde Sancho é rei e vivem Panúrgio, sir John Falstaff, Bardolph, Fígaro e o Sganarello de D. João Tenório: — a pátria dos sonhos de Cervantes e Shakespeare.&lt;br /&gt;Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.&lt;br /&gt;A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia: — duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.&lt;br /&gt;Demais, perdoem-me os poetas do tempo, isto aqui é um tema, senão mais novo, menos esgotado ao menos que o sentimentalismo tão fasbionable desde Werther até René.&lt;br /&gt;Por um espírito de contradição, quando os homens se vêem inundados de páginas amorosas preferem um conto de Bocaccio, uma caricatura de Rabelais, uma cena de Falstaff no Henrique IV de Shakespeare, um provérbio fantástico daquele polisson Alfredo de Musset, a todas as ternuras elegíacas dessa poesia de arremedo que anda na moda e reduz as moedas de oiro sem liga dos grandes poetas ao troco de cobre, divisível até ao extremo, dos liliputianos poetastros. Antes da Quaresma há o Carnaval.&lt;br /&gt;Há uma crise nos séculos como nos homens. É quando a poesia cegou deslumbrada de fitar-se no misticismo e caiu do céu sentindo exaustas as suas asas de oiro.&lt;br /&gt;O poeta acorda na terra. Demais, o poeta é homem: Homo sum, como dizia o célebre Romano. Vê, ouve, sente e, o que é mais, sonha de noite as belas visões palpáveis de acordado. Tem nervos, tem fibra e tem artérias — isto é, antes e depois de ser um ente idealista, é um ente que tem corpo. E, digam o que quiserem, sem esses elementos, que sou o primeiro a reconhecer muito prosaicos, não há poesia.&lt;br /&gt;O que acontece? Na exaustão causada pelo sentimentalismo, a alma ainda trêmula e ressoante da febre do sangue, a alma que ama e canta, porque sua vida é amor e canto, o que pode senão fazer o poema dos amores da vida real? Poema talvez novo, mas que encerra em si muita verdade e muita natureza, e que sem ser obsceno pode ser erótico, sem ser monótono. Digam e creiam o que quiserem: — todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos.&lt;br /&gt;O poema então começa pelos últimos crepúsculos do misticismo, brilhando sobre a vida como a tarde sobre a terra. A poesia puríssima banha com seu reflexo ideal a beleza sensível e nua.&lt;br /&gt;Depois a doença da vida, que não dá ao mundo objetivo cores tão azuladas como o nome britânico de blue devils, descarna e injeta de fel cada vez mais o coração. Nos mesmos lábios onde suspirava a monodia amorosa, vem a sátira que morde.&lt;br /&gt;É assim. Depois dos poemas épicos, Homero escreveu o poema irônico. Goethe depois de Werther criou o Faust. Depois de Parisina e o Giaour de Byron vem o Cain e Don Juan — Don Juan que começa como Cain pelo amor e acaba como ele pela descrença venenosa e sarcástica.&lt;br /&gt;Agora basta.&lt;br /&gt;Ficarás tão adiantado agora, meu leitor, como se não lesses essas páginas, destinadas a não serem lidas. Deus me perdoe! assim é tudo!... até prefácios!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CREPÚSCULO NAS MONTANHAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pálida estrela, casto olhar da noite,&lt;br /&gt;diamante luminoso na fronte azul do &lt;br /&gt;crepúsculo, o que vês na planície?&lt;br /&gt;OSSIAN&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além serpeia o dorso pardacento&lt;br /&gt;Da longa serrania,&lt;br /&gt;Rubro flameia o véu sanguinolento&lt;br /&gt;Da tarde na agonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No cinéreo vapor o céu desbota&lt;br /&gt;Num azulado incerto,&lt;br /&gt;No ar se afoga desmaiando a nota&lt;br /&gt;Do sino do deserto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vim alentar meu coração saudoso&lt;br /&gt;No vento das campinas,&lt;br /&gt;Enquanto nesse manto lutuoso&lt;br /&gt;Pálida te reclinas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E morre em teu silêncio, ó tarde bela,&lt;br /&gt;Das folhas o rumor...&lt;br /&gt;E late o pardo cão que os passos vela&lt;br /&gt;Do tardio pastor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pálida estrela! o canto do crepúsculo&lt;br /&gt;Acorda-te no céu:&lt;br /&gt;Ergue-te nua na floresta morta&lt;br /&gt;Do teu doirado véu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ergue-te!... eu vim por ti e pela tarde&lt;br /&gt;Pelos campos errar,&lt;br /&gt;Sentir o vento, respirando a vida&lt;br /&gt;E livre suspirar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É mais puro o perfume das montanhas&lt;br /&gt;Da tarde no cair...&lt;br /&gt;Quando o vento da noite agita as folhas&lt;br /&gt;É doce o teu luzir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estrela do pastor, no véu doirado&lt;br /&gt;Acorda-te na serra,&lt;br /&gt;Inda mais bela no azulado fogo&lt;br /&gt;Do céu da minha terra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estrela d’oiro, no purpúreo leito&lt;br /&gt;Da irmã da noite, branca e peregrina&lt;br /&gt;No firmamento azul derramas dia&lt;br /&gt;Que as almas ilumina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abre o seio de pérola, transpira&lt;br /&gt;Esse raio de luz que a mente inflama!&lt;br /&gt;Esse raio de amor que ungiu meus lábios&lt;br /&gt;No meu peito derrama!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lo bel pianeta he ad amar conforta&lt;br /&gt;Faceva tutto rider l’oriente&lt;br /&gt;DANTE, Purgatório&lt;br /&gt;Estrelinhas azuis do céu vermelho,&lt;br /&gt;Lágrimas d’oiro sobre o véu da tarde,&lt;br /&gt;Que olhar celeste em pálpebra divina&lt;br /&gt;Vos derramou tremendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem, à tarde, crisólitas ardentes,&lt;br /&gt;Estrelas brancas, vos sagrou saudosas&lt;br /&gt;Da fronte dela na azulada c’roa&lt;br /&gt;Como auréola viva?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram anjos de amor, que vagabundos&lt;br /&gt;Com saudades do céu vagam gemendo&lt;br /&gt;E as lágrimas de fogo dos amores&lt;br /&gt;Sobre as nuvens pranteiam?&lt;br /&gt;Criaturas da sombra e do mistério,&lt;br /&gt;Ou no purpúreo céu doureis a tarde,&lt;br /&gt;Ou pela noite cintileis medrosas,&lt;br /&gt;Estrelas, eu vos amo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando, exausto o coração no peito&lt;br /&gt;Do amor nas ilusões espera e dorme,&lt;br /&gt;Diáfanas vindes-lhe doirar na mente&lt;br /&gt;A sombra da esperança!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! quando o pobre sonhador medita&lt;br /&gt;Do vale fresco no orvalhado leito&lt;br /&gt;Inveja às águias o perdido vôo&lt;br /&gt;Para banhar-se no perfume etéreo...&lt;br /&gt;E, nessa argêntea luz, no mar de amores&lt;br /&gt;Onde entre sonhos e luar divino&lt;br /&gt;A mão do Eterno vos lançou no espaço,&lt;br /&gt;Respirar e viver!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-8610518549185555632?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/8610518549185555632/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=8610518549185555632&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/8610518549185555632'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/8610518549185555632'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/alvares-de-azevedo.html' title='Alvares de Azevedo'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-4809754560763978655</id><published>2012-02-18T12:42:00.000-04:00</published><updated>2012-02-18T12:43:51.784-04:00</updated><title type='text'>Gonçalves Dias</title><content type='html'>Gonçalves Dias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canção do exílio&lt;br /&gt;Minha terra tem palmeiras, &lt;br /&gt;Onde canta o Sabiá; &lt;br /&gt;As aves, que aqui gorjeiam, &lt;br /&gt;Não gorjeiam como lá. &lt;br /&gt;Nosso céu tem mais estrelas, &lt;br /&gt;Nossas várzeas têm mais flores, &lt;br /&gt;Nossos bosques têm mais vida, &lt;br /&gt;Nossa vida mais amores. &lt;br /&gt;Em cismar, sozinho, à noite, &lt;br /&gt;Mais prazer eu encontro lá; &lt;br /&gt;Minha terra tem palmeiras, &lt;br /&gt;Onde canta o Sabiá. &lt;br /&gt;Minha terra tem primores, &lt;br /&gt;Que tais não encontro eu cá; &lt;br /&gt;Em cismar –sozinho, à noite– &lt;br /&gt;Mais prazer eu encontro lá; &lt;br /&gt;Minha terra tem palmeiras, &lt;br /&gt;Onde canta o Sabiá. &lt;br /&gt;Não permita Deus que eu morra, &lt;br /&gt;Sem que eu volte para lá; &lt;br /&gt;Sem que disfrute os primores &lt;br /&gt;Que não encontro por cá; &lt;br /&gt;Sem qu'inda aviste as palmeiras, &lt;br /&gt;Onde canta o Sabiá. &lt;br /&gt;(De Primeiros cantos (1847))&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I-Juca Pirama&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;No meio das tabas de amenos verdores, &lt;br /&gt;Cercadas de troncos - cobertos de flores, &lt;br /&gt;Alteiam-se os tetos d’altiva nação; &lt;br /&gt;São muitos seus filhos, nos ânimos fortes, &lt;br /&gt;Temíveis na guerra, que em densas coortes &lt;br /&gt;Assombram das matas a imensa extensão.&lt;br /&gt;São rudos, severos, sedentos de glória, &lt;br /&gt;Já prélios incitam, já cantam vitória, &lt;br /&gt;Já meigos atendem à voz do cantor: &lt;br /&gt;São todos Timbiras, guerreiros valentes! &lt;br /&gt;Seu nome lá voa na boca das gentes, &lt;br /&gt;Condão de prodígios, de glória e terror!&lt;br /&gt;As tribos vizinhas, sem forças, sem brio, &lt;br /&gt;As armas quebrando, lançando-as ao rio, &lt;br /&gt;O incenso aspiraram dos seus maracás: &lt;br /&gt;Medrosos das guerras que os fortes acendem, &lt;br /&gt;Custosos tributos ignavos lá rendem, &lt;br /&gt;Aos duros guerreiros sujeitos na paz.&lt;br /&gt;No centro da taba se estende um terreiro, &lt;br /&gt;Onde ora se aduna o concílio guerreiro &lt;br /&gt;Da tribo senhora, das tribos servis: &lt;br /&gt;Os velhos sentados praticam d’outrora, &lt;br /&gt;E os moços inquietos, que a festa enamora, &lt;br /&gt;Derramam-se em torno dum índio infeliz.&lt;br /&gt;Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto, &lt;br /&gt;Sua tribo não diz: - de um povo remoto &lt;br /&gt;Descende por certo - dum povo gentil; &lt;br /&gt;Assim lá na Grécia ao escravo insulano &lt;br /&gt;Tornavam distinto do vil muçulmano &lt;br /&gt;As linhas corretas do nobre perfil.&lt;br /&gt;Por casos de guerra caiu prisioneiro &lt;br /&gt;Nas mãos dos Timbiras: - no extenso terreiro &lt;br /&gt;Assola-se o teto, que o teve em prisão; &lt;br /&gt;Convidam-se as tribos dos seus arredores, &lt;br /&gt;Cuidosos se incubem do vaso das cores, &lt;br /&gt;Dos vários aprestos da honrosa função.&lt;br /&gt;Acerva-se a lenha da vasta fogueira &lt;br /&gt;Entesa-se a corda da embira ligeira, &lt;br /&gt;Adorna-se a maça com penas gentis: &lt;br /&gt;A custo, entre as vagas do povo da aldeia &lt;br /&gt;Caminha o Timbira, que a turba rodeia, &lt;br /&gt;Garboso nas plumas de vário matiz.&lt;br /&gt;Em tanto as mulheres com leda trigança, &lt;br /&gt;Afeitas ao rito da bárbara usança, &lt;br /&gt;índio já querem cativo acabar: &lt;br /&gt;A coma lhe cortam, os membros lhe tingem, &lt;br /&gt;Brilhante enduape no corpo lhe cingem, &lt;br /&gt;Sombreia-lhe a fronte gentil canitar,&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Em fundos vasos d’alvacenta argila &lt;br /&gt;Ferve o cauim; &lt;br /&gt;Enchem-se as copas, o prazer começa, &lt;br /&gt;Reina o festim.&lt;br /&gt;O prisioneiro, cuja morte anseiam, &lt;br /&gt;Sentado está, &lt;br /&gt;O prisioneiro, que outro sol no ocaso &lt;br /&gt;Jamais verá!&lt;br /&gt;A dura corda, que lhe enlaça o colo, &lt;br /&gt;Mostra-lhe o fim &lt;br /&gt;Da vida escura, que será mais breve &lt;br /&gt;Do que o festim!&lt;br /&gt;Contudo os olhos d’ignóbil pranto &lt;br /&gt;Secos estão; &lt;br /&gt;Mudos os lábios não descerram queixas &lt;br /&gt;Do coração.&lt;br /&gt;Mas um martírio , que encobrir não pode, &lt;br /&gt;Em rugas faz &lt;br /&gt;A mentirosa placidez do rosto &lt;br /&gt;Na fronte audaz!&lt;br /&gt;Que tens, guerreiro? Que temor te assalta &lt;br /&gt;No passo horrendo? &lt;br /&gt;Honra das tabas que nascer te viram, &lt;br /&gt;Folga morrendo.&lt;br /&gt;Folga morrendo; porque além dos Andes &lt;br /&gt;Revive o forte, &lt;br /&gt;Que soube ufano contrastar os medos &lt;br /&gt;Da fria morte.&lt;br /&gt;Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva, &lt;br /&gt;Lá murcha e pende: &lt;br /&gt;Somente ao tronco, que devassa os ares, &lt;br /&gt;O raio ofende!&lt;br /&gt;Que foi? Tupã mandou que ele caísse, &lt;br /&gt;Como viveu; &lt;br /&gt;E o caçador que o avistou prostrado &lt;br /&gt;Esmoreceu!&lt;br /&gt;Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes &lt;br /&gt;Revive o forte, &lt;br /&gt;Que soube ufano contrastar os medos &lt;br /&gt;Da fria morte.&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;Em larga roda de novéis guerreiros &lt;br /&gt;Ledo caminha o festival Timbira, &lt;br /&gt;A quem do sacrifício cabe as honras, &lt;br /&gt;Na fronte o canitar sacode em ondas, &lt;br /&gt;O enduape na cinta se embalança, &lt;br /&gt;Na destra mão sopesa a iverapeme, &lt;br /&gt;Orgulhoso e pujante. - Ao menor passo &lt;br /&gt;Colar d’alvo marfim, insígnia d’honra, &lt;br /&gt;Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme, &lt;br /&gt;Como que por feitiço não sabido &lt;br /&gt;Encantadas ali as almas grandes &lt;br /&gt;Dos vencidos Tapuias, inda chorem &lt;br /&gt;Serem glória e brasão d’imigos feros.&lt;br /&gt;"Eis-me aqui", diz ao índio prisioneiro; &lt;br /&gt;"Pois que fraco, e sem tribo, e sem família, &lt;br /&gt;"As nossas matas devassaste ousado, &lt;br /&gt;"Morrerás morte vil da mão de um forte."&lt;br /&gt;Vem a terreiro o mísero contrário; &lt;br /&gt;Do colo à cinta a muçurana desce: &lt;br /&gt;"Dize-nos quem és, teus feitos canta, &lt;br /&gt;"Ou se mais te apraz, defende-te." Começa &lt;br /&gt;O índio, que ao redor derrama os olhos, &lt;br /&gt;Com triste voz que os ânimos comove.&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;Meu canto de morte, &lt;br /&gt;Guerreiros, ouvi: &lt;br /&gt;Sou filho das selvas, &lt;br /&gt;Nas selvas cresci; &lt;br /&gt;Guerreiros, descendo &lt;br /&gt;Da tribo tupi.&lt;br /&gt;Da tribo pujante, &lt;br /&gt;Que agora anda errante &lt;br /&gt;Por fado inconstante, &lt;br /&gt;Guerreiros, nasci; &lt;br /&gt;Sou bravo, sou forte, &lt;br /&gt;Sou filho do Norte; &lt;br /&gt;Meu canto de morte, &lt;br /&gt;Guerreiros, ouvi.&lt;br /&gt;Já vi cruas brigas, &lt;br /&gt;De tribos imigas, &lt;br /&gt;E as duras fadigas &lt;br /&gt;Da guerra provei; &lt;br /&gt;Nas ondas mendaces &lt;br /&gt;Senti pelas faces &lt;br /&gt;Os silvos fugaces &lt;br /&gt;Dos ventos que amei.&lt;br /&gt;Andei longes terras &lt;br /&gt;Lidei cruas guerras, &lt;br /&gt;Vaguei pelas serras &lt;br /&gt;Dos vis Aimoréis; &lt;br /&gt;Vi lutas de bravos, &lt;br /&gt;Vi fortes - escravos! &lt;br /&gt;De estranhos ignavos &lt;br /&gt;Calcados aos pés.&lt;br /&gt;E os campos talados, &lt;br /&gt;E os arcos quebrados, &lt;br /&gt;E os piagas coitados &lt;br /&gt;Já sem maracás; &lt;br /&gt;E os meigos cantores, &lt;br /&gt;Servindo a senhores, &lt;br /&gt;Que vinham traidores, &lt;br /&gt;Com mostras de paz.&lt;br /&gt;Aos golpes do imigo, &lt;br /&gt;Meu último amigo, &lt;br /&gt;Sem lar, sem abrigo &lt;br /&gt;Caiu junto a mi! &lt;br /&gt;Com plácido rosto, &lt;br /&gt;Sereno e composto, &lt;br /&gt;O acerbo desgosto &lt;br /&gt;Comigo sofri.&lt;br /&gt;Meu pai a meu lado &lt;br /&gt;Já cego e quebrado, &lt;br /&gt;De penas ralado, &lt;br /&gt;Firmava-se em mi: &lt;br /&gt;Nós ambos, mesquinhos, &lt;br /&gt;Por ínvios caminhos, &lt;br /&gt;Cobertos d’espinhos &lt;br /&gt;Chegamos aqui!&lt;br /&gt;O velho no entanto &lt;br /&gt;Sofrendo já tanto &lt;br /&gt;De fome e quebranto, &lt;br /&gt;Só qu’ria morrer! &lt;br /&gt;Não mais me contenho, &lt;br /&gt;Nas matas me embrenho, &lt;br /&gt;Das frechas que tenho &lt;br /&gt;Me quero valer.&lt;br /&gt;Então, forasteiro, &lt;br /&gt;Caí prisioneiro &lt;br /&gt;De um troço guerreiro &lt;br /&gt;Com que me encontrei: &lt;br /&gt;O cru dessossêgo &lt;br /&gt;Do pai fraco e cego, &lt;br /&gt;Enquanto não chego &lt;br /&gt;Qual seja, - dizei!&lt;br /&gt;Eu era o seu guia &lt;br /&gt;Na noite sombria, &lt;br /&gt;A só alegria &lt;br /&gt;Que Deus lhe deixou: &lt;br /&gt;Em mim se apoiava, &lt;br /&gt;Em mim se firmava, &lt;br /&gt;Em mim descansava, &lt;br /&gt;Que filho lhe sou.&lt;br /&gt;Ao velho coitado &lt;br /&gt;De penas ralado, &lt;br /&gt;Já cego e quebrado, &lt;br /&gt;Que resta? - Morrer. &lt;br /&gt;Enquanto descreve &lt;br /&gt;O giro tão breve &lt;br /&gt;Da vida que teve, &lt;br /&gt;Deixai-me viver!&lt;br /&gt;Não vil, não ignavo, &lt;br /&gt;Mas forte, mas bravo, &lt;br /&gt;Serei vosso escravo: &lt;br /&gt;Aqui virei ter. &lt;br /&gt;Guerreiros, não coro &lt;br /&gt;Do pranto que choro: &lt;br /&gt;Se a vida deploro, &lt;br /&gt;Também sei morrer.&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba; &lt;br /&gt;Os guerreiros murmuram: mal ouviram, &lt;br /&gt;Nem pode nunca um chefe dar tal ordem! &lt;br /&gt;Brada segunda vez com voz mais alta, &lt;br /&gt;Afrouxam-se as prisões, a embira cede, &lt;br /&gt;A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.&lt;br /&gt;Timbira, diz o índio enternecido, &lt;br /&gt;Solto apenas dos nós que o seguravam: &lt;br /&gt;És um guerreiro ilustre, um grande chefe, &lt;br /&gt;Tu que assim do meu mal te comoveste, &lt;br /&gt;Nem sofres que, transposta a natureza, &lt;br /&gt;Com olhos onde a luz já não cintila, &lt;br /&gt;Chore a morte do filho o pai cansado, &lt;br /&gt;Que somente por seu na voz conhece. &lt;br /&gt;- És livre; parte. &lt;br /&gt;- E voltarei. &lt;br /&gt;- Debalde. &lt;br /&gt;- Sim, voltarei, morto meu pai. &lt;br /&gt;- Não voltes! &lt;br /&gt;É bem feliz, se existe, em que não veja, &lt;br /&gt;Que filho tem, qual chora: és livre; parte! &lt;br /&gt;- Acaso tu supões que me acobardo, &lt;br /&gt;Que receio morrer! &lt;br /&gt;- És livre; parte! &lt;br /&gt;- Ora não partirei; quero provar-te &lt;br /&gt;Que um filho dos Tupis vive com honra, &lt;br /&gt;E com honra maior, se acaso o vencem, &lt;br /&gt;Da morte o passo glorioso afronta.&lt;br /&gt;- Mentiste, que um Tupi não chora nunca, &lt;br /&gt;E tu choraste!... parte; não queremos &lt;br /&gt;Com carne vil enfraquecer os fortes.&lt;br /&gt;Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas &lt;br /&gt;O rebater do coração se ouvia &lt;br /&gt;Precípite. - Do rosto afogueado &lt;br /&gt;Gélidas bagas de suor corriam: &lt;br /&gt;Talvez que o assaltava um pensamento... &lt;br /&gt;Já não... que na enlutada fantasia, &lt;br /&gt;Um pesar, um martírio ao mesmo tempo, &lt;br /&gt;Do velho pai a moribunda imagem &lt;br /&gt;Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! Ingrato! &lt;br /&gt;Curvado o colo, taciturno e frio. &lt;br /&gt;Espectro d’homem, penetrou no bosque!&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;- Filho meu, onde estás? &lt;br /&gt;- Ao vosso lado; &lt;br /&gt;Aqui vos trago provisões; tomai-as, &lt;br /&gt;As vossas forças restaurai perdidas, &lt;br /&gt;E a caminho, e já! &lt;br /&gt;- Tardaste muito! &lt;br /&gt;Não era nado o sol, quando partiste, &lt;br /&gt;E frouxo o seu calor já sinto agora! &lt;br /&gt;- Sim demorei-me a divagar sem rumo, &lt;br /&gt;Perdi-me nestas matas intrincadas, &lt;br /&gt;Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo; &lt;br /&gt;Convém partir, e já! &lt;br /&gt;- Que novos males &lt;br /&gt;Nos resta de sofrer? - que novas dores, &lt;br /&gt;Que outro fado pior Tupã nos guarda? &lt;br /&gt;- As setas da aflição já se esgotaram, &lt;br /&gt;Nem para novo golpe espaço intacto &lt;br /&gt;Em nossos corpos resta. &lt;br /&gt;- Mas tu tremes! &lt;br /&gt;- Talvez do afã da caça.... &lt;br /&gt;- Oh filho caro! &lt;br /&gt;Um quê misterioso aqui me fala, &lt;br /&gt;Aqui no coração; piedosa fraude &lt;br /&gt;Será por certo, que não mentes nunca! &lt;br /&gt;Não conheces temor, e agora temes? &lt;br /&gt;Vejo e sei: é Tupã que nos aflige, &lt;br /&gt;E contra o seu querer não valem brios. &lt;br /&gt;Partamos!... - &lt;br /&gt;E com mão trêmula, incerta &lt;br /&gt;Procura o filho, tacteando as trevas &lt;br /&gt;Da sua noite lúgubre e medonha. &lt;br /&gt;Sentindo o acre odor das frescas tintas, &lt;br /&gt;Uma idéia fatal ocorreu-lhe à mente... &lt;br /&gt;Do filho os membros gélidos apalpa, &lt;br /&gt;E a dolorosa maciez das plumas &lt;br /&gt;Conhece estremecendo: - foge, volta, &lt;br /&gt;Encontra sob as mãos o duro crânio, &lt;br /&gt;Despido então do natural ornato!... &lt;br /&gt;Recua aflito e pávido, cobrindo &lt;br /&gt;Às mãos ambas os olhos fulminados, &lt;br /&gt;Como que teme ainda o triste velho &lt;br /&gt;De ver, não mais cruel, porém mais clara, &lt;br /&gt;Daquele exício grande a imagem viva &lt;br /&gt;Ante os olhos do corpo afigurada. &lt;br /&gt;Não era que a verdade conhecesse &lt;br /&gt;Inteira e tão cruel qual tinha sido; &lt;br /&gt;Mas que funesto azar correra o filho, &lt;br /&gt;Ele o via; ele o tinha ali presente; &lt;br /&gt;E era de repetir-se a cada instante. &lt;br /&gt;A dor passada, a previsão futura &lt;br /&gt;E o presente tão negro, ali os tinha; &lt;br /&gt;Ali no coração se concentrava, &lt;br /&gt;Era num ponto só, mas era a morte!&lt;br /&gt;- Tu prisioneiro, tu? &lt;br /&gt;- Vós o dissestes. &lt;br /&gt;- Dos índios? &lt;br /&gt;- Sim. &lt;br /&gt;- De que nação? &lt;br /&gt;- Timbiras. &lt;br /&gt;- E a muçurana funeral rompeste, &lt;br /&gt;Dos falsos manitôs quebrastes maça... &lt;br /&gt;- Nada fiz... aqui estou. &lt;br /&gt;- Nada! - &lt;br /&gt;Emudecem; &lt;br /&gt;Curto instante depois prossegue o velho: &lt;br /&gt;- Tu és valente, bem o sei; confessa, &lt;br /&gt;Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo! &lt;br /&gt;- Nada fiz; mas souberam da existência &lt;br /&gt;De um pobre velho, que em mim só vivia.... &lt;br /&gt;- E depois?... &lt;br /&gt;- Eis-me aqui. &lt;br /&gt;- Fica essa taba?&lt;br /&gt;- Na direção do sol, quando transmonta. &lt;br /&gt;- Longe? &lt;br /&gt;- Não muito. &lt;br /&gt;- Tens razão: partamos. &lt;br /&gt;- E quereis ir?... &lt;br /&gt;- Na direção do acaso.&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt;"Por amor de um triste velho, &lt;br /&gt;Que ao termo fatal já chega, &lt;br /&gt;Vós, guerreiros, concedestes &lt;br /&gt;A vida a um prisioneiro. &lt;br /&gt;Ação tão nobre vos honra, &lt;br /&gt;Nem tão alta cortesia &lt;br /&gt;Vi eu jamais praticada &lt;br /&gt;Entre os Tupis, - e mas foram &lt;br /&gt;Senhores em gentileza.&lt;br /&gt;"Eu porém nunca vencido, &lt;br /&gt;Nem nos combates por armas, &lt;br /&gt;Nem por nobreza nos atos; &lt;br /&gt;Aqui venho, e o filho trago. &lt;br /&gt;Vós o dizeis prisioneiro, &lt;br /&gt;Seja assim como dizeis; &lt;br /&gt;Mandai vir a lenha, o fogo, &lt;br /&gt;A maça do sacrifício &lt;br /&gt;E a muçurana ligeira: &lt;br /&gt;Em tudo o rito se cumpra! &lt;br /&gt;E quando eu for só na terra, &lt;br /&gt;Certo acharei entre os vossos, &lt;br /&gt;Que tão gentis se revelam, &lt;br /&gt;Alguém que meus passos guie; &lt;br /&gt;Alguém, que vendo o meu peito &lt;br /&gt;Coberto de cicatrizes, &lt;br /&gt;Tomando a vez de meu filho, &lt;br /&gt;De haver-me por se ufane!" &lt;br /&gt;Mas o chefe dos Timbiras, &lt;br /&gt;Os sobrolhos encrespando, &lt;br /&gt;Ao velho Tupi guerreiro &lt;br /&gt;Responde com tôrvo acento:&lt;br /&gt;- Nada farei do que dizes: &lt;br /&gt;É teu filho imbele e fraco! &lt;br /&gt;Aviltaria o triunfo &lt;br /&gt;Da mais guerreira das tribos &lt;br /&gt;Derramar seu ignóbil sangue: &lt;br /&gt;Ele chorou de cobarde; &lt;br /&gt;Nós outros, fortes Timbiras, &lt;br /&gt;Só de heróis fazemos pasto. -&lt;br /&gt;Do velho Tupi guerreiro &lt;br /&gt;A surda voz na garganta &lt;br /&gt;Faz ouvir uns sons confusos, &lt;br /&gt;Como os rugidos de um tigre, &lt;br /&gt;Que pouco a pouco se assanha!&lt;br /&gt;VIII&lt;br /&gt;"Tu choraste em presença da morte? &lt;br /&gt;Na presença de estranhos choraste? &lt;br /&gt;Não descende o cobarde do forte; &lt;br /&gt;Pois choraste, meu filho não és! &lt;br /&gt;Possas tu, descendente maldito &lt;br /&gt;De uma tribo de nobres guerreiros, &lt;br /&gt;Implorando cruéis forasteiros, &lt;br /&gt;Seres presa de via Aimorés.&lt;br /&gt;"Possas tu, isolado na terra, &lt;br /&gt;Sem arrimo e sem pátria vagando, &lt;br /&gt;Rejeitado da morte na guerra, &lt;br /&gt;Rejeitado dos homens na paz, &lt;br /&gt;Ser das gentes o espectro execrado; &lt;br /&gt;Não encontres amor nas mulheres, &lt;br /&gt;Teus amigos, se amigos tiveres, &lt;br /&gt;Tenham alma inconstante e falaz!&lt;br /&gt;"Não encontres doçura no dia, &lt;br /&gt;Nem as cores da aurora te ameiguem, &lt;br /&gt;E entre as larvas da noite sombria &lt;br /&gt;Nunca possas descanso gozar: &lt;br /&gt;Não encontres um tronco, uma pedra, &lt;br /&gt;Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos, &lt;br /&gt;Padecendo os maiores tormentos, &lt;br /&gt;Onde possas a fronte pousar.&lt;br /&gt;"Que a teus passos a relva se torre; &lt;br /&gt;Murchem prados, a flor desfaleça, &lt;br /&gt;E o regato que límpido corre, &lt;br /&gt;Mais te acenda o vesano furor; &lt;br /&gt;Suas águas depressa se tornem, &lt;br /&gt;Ao contacto dos lábios sedentos, &lt;br /&gt;Lago impuro de vermes nojentos, &lt;br /&gt;Donde fujas com asco e terror!&lt;br /&gt;"Sempre o céu, como um teto incendido, &lt;br /&gt;Creste e punja teus membros malditos &lt;br /&gt;E oceano de pó denegrido &lt;br /&gt;Seja a terra ao ignavo tupi! &lt;br /&gt;Miserável, faminto, sedento, &lt;br /&gt;Manitôs lhe não falem nos sonhos, &lt;br /&gt;E do horror os espectros medonhos &lt;br /&gt;Traga sempre o cobarde após si.&lt;br /&gt;"Um amigo não tenhas piedoso &lt;br /&gt;Que o teu corpo na terra embalsame, &lt;br /&gt;Pondo em vaso d’argila cuidoso &lt;br /&gt;Arco e frecha e tacape a teus pés! &lt;br /&gt;Sê maldito, e sozinho na terra; &lt;br /&gt;Pois que a tanta vileza chegaste, &lt;br /&gt;Que em presença da morte choraste, &lt;br /&gt;Tu, cobarde, meu filho não és."&lt;br /&gt;IX&lt;br /&gt;Isto dizendo, o miserando velho &lt;br /&gt;A quem Tupã tamanha dor, tal fado &lt;br /&gt;Já nos confins da vida reservada, &lt;br /&gt;Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias &lt;br /&gt;Da sua noite escura as densas trevas &lt;br /&gt;Palpando. - Alarma! alarma! - O velho pára! &lt;br /&gt;O grito que escutou é voz do filho, &lt;br /&gt;Voz de guerra que ouviu já tantas vezes &lt;br /&gt;Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma! &lt;br /&gt;- Esse momento só vale a pagar-lhe &lt;br /&gt;Os tão compridos trances, as angústias, &lt;br /&gt;Que o frio coração lhe atormentaram&lt;br /&gt;De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra. &lt;br /&gt;Ele que em tanta dor se contivera, &lt;br /&gt;Tomado pelo súbito contraste, &lt;br /&gt;Desfaz-se agora em pranto copioso, &lt;br /&gt;Que o exaurido coração remoça.&lt;br /&gt;A taba se alborota, os golpes descem, &lt;br /&gt;Gritos, imprecações profundas soam, &lt;br /&gt;Emaranhada a multidão braveja, &lt;br /&gt;Revolve-se, enovela-se confusa, &lt;br /&gt;E mais revolta em mor furor se acende. &lt;br /&gt;E os sons dos golpes que incessantes fervem, &lt;br /&gt;Vozes, gemidos, estertor de morte &lt;br /&gt;Vão longe pelas ermas serranias &lt;br /&gt;Da humana tempestade propagando &lt;br /&gt;Quantas vagas de povo enfurecido &lt;br /&gt;Contra um rochedo vivo se quebravam.&lt;br /&gt;Era ele, o Tupi; nem fora justo &lt;br /&gt;Que a fama dos Tupis - o nome, a glória, &lt;br /&gt;Aturado labor de tantos anos, &lt;br /&gt;Derradeiro brasão da raça extinta, &lt;br /&gt;De um jacto e por um só se aniquilasse.&lt;br /&gt;- Basta! Clama o chefe dos Timbiras, &lt;br /&gt;- Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste, &lt;br /&gt;E para o sacrifício é mister forças. -&lt;br /&gt;O guerreiro parou, caiu nos braços &lt;br /&gt;Do velho pai, que o cinge contra o peito, &lt;br /&gt;Com lágrimas de júbilo bradando: &lt;br /&gt;"Este, sim, que é meu filho muito amado!&lt;br /&gt;"E pois que o acho enfim, qual sempre o tive, &lt;br /&gt;"Corram livres as lágrimas que choro, &lt;br /&gt;"Estas lágrimas, sim, que não desonram."&lt;br /&gt;X&lt;br /&gt;Um velho Timbira, coberto de glória, &lt;br /&gt;Guardou a memória &lt;br /&gt;Do moço guerreiro, do velho Tupi! &lt;br /&gt;E à noite, nas tabas, se alguém duvidava &lt;br /&gt;Do que ele contava, &lt;br /&gt;Dizia prudente: - "Meninos, eu vi!&lt;br /&gt;"Eu vi o brioso no largo terreiro &lt;br /&gt;Cantar prisioneiro &lt;br /&gt;Seu canto de morte, que nunca esqueci: &lt;br /&gt;Valente, como era, chorou sem ter pejo; &lt;br /&gt;Parece que o vejo, &lt;br /&gt;Que o tenho nest’hora diante de mi.&lt;br /&gt;"Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo! &lt;br /&gt;Pois não, era um bravo; &lt;br /&gt;Valente e brioso, como ele, não vi! &lt;br /&gt;E à fé que vos digo: parece-me encanto &lt;br /&gt;Que quem chorou tanto, &lt;br /&gt;Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"&lt;br /&gt;Assim o Timbira, coberto de glória, &lt;br /&gt;Guardava a memória &lt;br /&gt;Do moço guerreiro, do velho Tupi. &lt;br /&gt;E à noite nas tabas, se alguém duvidava &lt;br /&gt;Do que ele contava, &lt;br /&gt;Tornava prudente: "Meninos, eu vi!".&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-4809754560763978655?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/4809754560763978655/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=4809754560763978655&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/4809754560763978655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/4809754560763978655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/goncalves-dias.html' title='Gonçalves Dias'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-2418383409880303427</id><published>2012-02-18T12:41:00.000-04:00</published><updated>2012-02-18T12:42:26.719-04:00</updated><title type='text'>José de Santa Rita Durão</title><content type='html'>José de Santa Rita Durão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CARAMURU&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poema "Caramuru", escrito por José de Santa Rita Durão, conta sobre o descobrimento da Bahia, bem como o naufrágio de Diogo Álvares Correia e seus relacionamentos com as índias brasileiras, principalmente com Paraguaçu. O poema traz vários assuntos, desde fatos históricos do Brasil e a vida dos índios até lendas. &lt;br /&gt;Frei José de Santa Rita Durão nasceu em 1722. Foi um religioso brasileiro do período colonial. Também foi orador e poeta. É considerado um dos precursores do indianismo no Brasil. Sua obra quase única é o poema "Caramuru", que escreveu ao estilo dos poemas de Camões. Morreu em Portugal, em 1784.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caramurú, de Frei José de Santa Rita Durão &lt;br /&gt;Caramurú - Poema Épico do Descobrimento da Bahia &lt;br /&gt;de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, 1781.&lt;br /&gt;Cultura, São Paulo, 1945.&lt;br /&gt;CANTO II &lt;br /&gt;................................................................................. &lt;br /&gt;.................................................................................&lt;br /&gt;XXXIX &lt;br /&gt;Separa-se o congresso em breve espaço, &lt;br /&gt;Dispõe-se em alas numerosa tropa: &lt;br /&gt;Quem com taquaras donde pende o laço &lt;br /&gt;Onde a avezinha cai, se incauta o topa; &lt;br /&gt;Quem dos ombros suspende e quem do braço &lt;br /&gt;Armadilhas diferentes; outro ensopa &lt;br /&gt;Em visgo as longes ramas do palmito, &lt;br /&gt;Onde impróvido caia o periquito. &lt;br /&gt;XL &lt;br /&gt;Os mais com frechas vão, que a um tempo seja &lt;br /&gt;Tiro, que ofenda a fugitiva caça, &lt;br /&gt;Ou armas (se ocorresse) na peleja, &lt;br /&gt;Quando o inimigo de emboscada a faça. &lt;br /&gt;E porque aos mais presida e tudo veja, &lt;br /&gt;À frente do esquadrão Gupeva passa; &lt;br /&gt;Nem fica Diogo só, que tudo via, &lt;br /&gt;Mas segue armado a forte companhia. &lt;br /&gt;XLI &lt;br /&gt;Mais arma não levou que uma espingarda; &lt;br /&gt;E, posto ao lado de Gupeva amigo, &lt;br /&gt;Pronto a todo o acidente e posto em guarda, &lt;br /&gt;Traz na cautela o escudo ao seu perigo. &lt;br /&gt;Entanto a destra gente a caça aguarda, &lt;br /&gt;E algum se afoita a penetrar no abrigo &lt;br /&gt;Onde esconde a pantera os seus cachorros, &lt;br /&gt;Outro a segue por brenhas e por morros; &lt;br /&gt;XLII &lt;br /&gt;Até que de Gupeva comandada, &lt;br /&gt;Em círculo se forma a linha unido, &lt;br /&gt;Onde quanto há de caça já espantada &lt;br /&gt;Fique no meio de um cordão cingido. &lt;br /&gt;A rês ali, do estrondo amedrontada, &lt;br /&gt;Num centro está de espaço reduzido; &lt;br /&gt;À mão mesmo se colhe: coisa bela! &lt;br /&gt;Que dá mais gôsto ver, do que comê-la. &lt;br /&gt;XLIII &lt;br /&gt;Não era assim nas aves fugitivas, &lt;br /&gt;Que umas frechava no ar, e outras em laços &lt;br /&gt;Com arte o caçador tomava vivas; &lt;br /&gt;Uma, porém, nos líquidos espaços &lt;br /&gt;Faz com a pluma as setas pouco ativas, &lt;br /&gt;Deixando a lisa pena os golpes laços, &lt;br /&gt;Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda: &lt;br /&gt;Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda. &lt;br /&gt;XLIV &lt;br /&gt;Estando a turba longe de cuidá-lo, &lt;br /&gt;Fica o bárbaro ao golpe estremecido &lt;br /&gt;E cai por terra no tremendo abalo &lt;br /&gt;Da chama do fracasso e do estampido; &lt;br /&gt;Qual do hórrido trovão com raio e estalo &lt;br /&gt;Algum junto aquém cai, fica aturdido, &lt;br /&gt;Tal Gupeva ficou, crendo formada &lt;br /&gt;Nu arcabuz de Diogo uma trovoada. &lt;br /&gt;XLV &lt;br /&gt;Toda em terra prostrada, exclama a grita &lt;br /&gt;A turba rude em mísero desmaio, &lt;br /&gt;E faz o horror que estúpida repita &lt;br /&gt;Tupá, Caramurú, temendo um raio. &lt;br /&gt;Pretendem ter por Deus, quando o permita &lt;br /&gt;O que estão vendo em pavoroso ensaio, &lt;br /&gt;Entre horríveis trovões do márcio jogo, &lt;br /&gt;Vomitar chamas a abrasar com fogo. &lt;br /&gt;XLVI &lt;br /&gt;Desde esse dia, é fama que por nome &lt;br /&gt;Do grão Caramurú foi celebrado &lt;br /&gt;O forte Diogo; e que escutado dome &lt;br /&gt;Este apelido o bárbaro espantado. &lt;br /&gt;Indicava o Brasil no sobrenome, &lt;br /&gt;Que era um dragão dos mares vomitado; &lt;br /&gt;Nem doutra arte entre nós a antiga idade &lt;br /&gt;Tem Jove, Apolo e Marte por deidade. &lt;br /&gt;XLVII &lt;br /&gt;Foram qual hoje o rude americano &lt;br /&gt;O valente romano, o sábio argivo; &lt;br /&gt;Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano, (6) &lt;br /&gt;Do que outro rei fizera em Creta altivo. &lt;br /&gt;Nós que zombamos deste pova insano, &lt;br /&gt;Se bem cavarmos no solar nativo, &lt;br /&gt;Dos antigos heróis dentro às imagens &lt;br /&gt;Não acharemos mais que outros selvagens. &lt;br /&gt;XLVIII &lt;br /&gt;E fácil propensão na brutal gente, &lt;br /&gt;Quando em vida ferina admira uma arte, &lt;br /&gt;Chamar um fabro a Deus da forja ingente, &lt;br /&gt;Dar ao guerreiro a fama de um deus Marte. &lt;br /&gt;Ou talvez por sulfúreo fogo ardente, &lt;br /&gt;Tanto Jove se ouviu por toda a parte. &lt;br /&gt;Hércules e Teseus, Jasões no Ponto (7) &lt;br /&gt;Seriam coisas tais, como as que eu conto. &lt;br /&gt;XLIX &lt;br /&gt;Quanto merece niais que em douta lira &lt;br /&gt;Se canto por herói quem, pio e justo, &lt;br /&gt;Onde a cega nação tanto delira, &lt;br /&gt;Reduz à humanidade uni povo injusto? &lt;br /&gt;Se por herói no mundo só se admira &lt;br /&gt;Quem tirano gauhava uni nome Augusto, &lt;br /&gt;Quando o será maior que o vil tirano &lt;br /&gt;Quem nas feras infunde um peito humano? &lt;br /&gt;.................................................................. &lt;br /&gt;.................................................................&lt;br /&gt;CANTO VII&lt;br /&gt;XVII &lt;br /&gt;Era o dia em que é fama que o homem feito &lt;br /&gt;De terra foi na estátua preciosa, &lt;br /&gt;Em que Deus lhe infundira no seu peito &lt;br /&gt;Do soberano ser cópia formosa. &lt;br /&gt;Dia do nosso rito ao culto eleito &lt;br /&gt;De Simão e Tadeu, quando formosa &lt;br /&gt;Entrou Paraguassú com feliz sorte &lt;br /&gt;No banho santo, rodeando-a a corte. &lt;br /&gt;XVIII &lt;br /&gt;À roda o real clero e grão-Jerarca &lt;br /&gt;Forma em meio à capela a augusta linha; &lt;br /&gt;Entre os pares seguia o bom monarca, &lt;br /&gt;E ao lado da neófita a rainha. &lt;br /&gt;Vê-se cópia de lumes nada parca, &lt;br /&gt;E a turba imensa que das guardas vinha, &lt;br /&gt;E, dando o nome a augusta à nobre dama, &lt;br /&gt;Põe-lhe o seu próprio e Catarina a chama. &lt;br /&gt;XIX &lt;br /&gt;Banhada a formosíssima donzela &lt;br /&gt;No santo Crisma, que os cristãos confirma, &lt;br /&gt;Os desposórios na real capela &lt;br /&gt;Com o valente Diogo amante firma. &lt;br /&gt;Catarina Alves se nomeia a bela, (1) &lt;br /&gt;De quem a glória no troféu se afirma, &lt;br /&gt;Com que a Bahia, que Ihe foi senhora, &lt;br /&gt;Nouto tempo, a confessa, e fundadora. &lt;br /&gt;XX &lt;br /&gt;Prepara-se um banquete com grandeza, &lt;br /&gt;Em que a cópia compita coa elegância, &lt;br /&gt;E aos dois consortes se dispõe a mesa &lt;br /&gt;No magnífico paço em régia estância. &lt;br /&gt;Nem se dedigna a Soberana Alteza, &lt;br /&gt;Depois de os regalar com abundância, &lt;br /&gt;De dar rainha e rei, de ouvir curiosos, &lt;br /&gt;Uma audiência privada aos dois esposos. &lt;br /&gt;XXI &lt;br /&gt;«Depois (disse o monarca) que informado &lt;br /&gt;De meus ministros tenho a história ouvido, &lt;br /&gt;Como foste das ondas agitado, &lt;br /&gt;Como da gente bárbara temido, &lt;br /&gt;Sabendo que os sertões tens visitado, &lt;br /&gt;E o centro do Brasil reconhecido, &lt;br /&gt;Quero das terras, dos viventes, plantas, &lt;br /&gt;Que a história contes de províncias tantas. » &lt;br /&gt;XXII &lt;br /&gt;« Mandas-me, rei augusto, que te exponha &lt;br /&gt;(Diz cheio de respeito o herói prudente), &lt;br /&gt;E aos olhos teus em um compêndio ponha &lt;br /&gt;A história natural da oculta gente; &lt;br /&gt;Se esperas de mim, Sire, que componha &lt;br /&gt;Exata narração de cópia ingente, &lt;br /&gt;Empresa tanta é, quando obedeça, &lt;br /&gt;Que faz que o tempo falte e a voz faleça. &lt;br /&gt;XXIII &lt;br /&gt;Mil e cinqüenta e seis léguas de costa, &lt;br /&gt;De vales e arvoredos revestida, &lt;br /&gt;Tem a terra brasilica composta &lt;br /&gt;De montes de grandeza desmedida. &lt;br /&gt;Os Guararapes Borborema posta &lt;br /&gt;Sobre as nuvens na cima recrescida, &lt;br /&gt;A serra de Aimorés, que ao pólo é raia, &lt;br /&gt;As de Ibo-ti-catu e Itatiaia. &lt;br /&gt;XXIV &lt;br /&gt;Nos vastos rios e altas alagoas &lt;br /&gt;Alares dentro das terras representa; &lt;br /&gt;Coberto o Gráo-Pará de mil canoas, &lt;br /&gt;Tem na espantosa foz léguas oitenta. &lt;br /&gt;Por dezessete se deságua boas &lt;br /&gt;O vasto Maranhão; léguas quarenta &lt;br /&gt;O Jaguaribe dista; outro se engrossa &lt;br /&gt;De S. Francisco, com que o mar se adoça. &lt;br /&gt;XXV &lt;br /&gt;O Sergipe, o real de licor puro, &lt;br /&gt;Que com vinte o sertão regando correm, &lt;br /&gt;Santa Cruz, que no porto entra seguro, &lt;br /&gt;Depois de trinta, que no mar concorrem; &lt;br /&gt;Logo o das Contas, o Taigipe impuro, &lt;br /&gt;Que, abrindo a vasta foz, no oceano morrem. &lt;br /&gt;O Rio Doce, a Cananéia, a Prata, &lt;br /&gt;E outros cinqüenta mais, com que arremata. &lt;br /&gt;....................................................................&lt;br /&gt;....................................................................&lt;br /&gt;XXXV &lt;br /&gt;Das flores naturais pelo ar brilhante &lt;br /&gt;É com causa entre as mnis rainha a rosa, &lt;br /&gt;Branca saindo a aurora rutilante, &lt;br /&gt;E ao meio-dia tinta em cor lustrosa; &lt;br /&gt;Porém, crescendo a chama rutilante, &lt;br /&gt;É purpúrea de tarde a cor formosa; &lt;br /&gt;Maravilha que a Clície competira, &lt;br /&gt;Vendo que muda a cor, quando o sol gira. &lt;br /&gt;XXXVI &lt;br /&gt;Outra engraçada flor, que em ramos pende &lt;br /&gt;(Chamam de S. João), por bela passa &lt;br /&gt;Mais que quantas o prado ali compreende, &lt;br /&gt;Seja na bela cor, seja na graça: &lt;br /&gt;Entre a copada rama, que se estende &lt;br /&gt;Em vistosa aparência, a flor se enlaça &lt;br /&gt;Dando a ver por diante e nas espaldas &lt;br /&gt;Cachos de ouro com verdes esmeraldas. &lt;br /&gt;XXXVII &lt;br /&gt;Nem tu me esquecerás, flor admirada. &lt;br /&gt;Em quem não sei se a graça, se a natura &lt;br /&gt;Fez da Paixão do Redentor Sagrada &lt;br /&gt;Uma formosa e natural pintura; &lt;br /&gt;Pende com pomos mil sobre a latada, &lt;br /&gt;Áureos na cor, redondos na figura, &lt;br /&gt;O âmago fresco, doce e rubicundo, &lt;br /&gt;Que o sangue indica que salvara o mundo. &lt;br /&gt;XXXVIII &lt;br /&gt;Com densa cópia a fôlha se derrama, &lt;br /&gt;Que muito à vulgar hera é parecida, &lt;br /&gt;Entressachando pela verde rama &lt;br /&gt;Mil quadros da Paixão de Autor da vida; &lt;br /&gt;Milagre natural, que a mente chama &lt;br /&gt;Com impulsos da graça, que a convida, &lt;br /&gt;A pintar sobre a flor aos nossos olhos &lt;br /&gt;A cruz de Cristo, as chagas e os abrolhos. &lt;br /&gt;XXXIX &lt;br /&gt;É na forma redonda, qual diadema, &lt;br /&gt;De pontas, como espinhos, rodeada, &lt;br /&gt;A coluna no meio, e um claro emblema &lt;br /&gt;Das chagas santas e da cruz sagrada; &lt;br /&gt;Vêem-se os três cravos e na parte extrema &lt;br /&gt;Com arte a cruel lança figurada; &lt;br /&gt;A cor é branca, mas de um roxo exangue, &lt;br /&gt;Salpicada recorda o pio sangue. &lt;br /&gt;XL &lt;br /&gt;Prodígio raro, estranha maravilha, &lt;br /&gt;Com que tanto mistério se retrata! &lt;br /&gt;Onde em meio das trevas a fé brilha, &lt;br /&gt;Que tanto desconhece a gente ingrata! &lt;br /&gt;Assim, do lado seu nascendo filha &lt;br /&gt;A humana espécie, Deus piedoso trata, &lt;br /&gt;E faz que quando a graça em si despreza, &lt;br /&gt;Lhe pregue co esta flor a natureza. &lt;br /&gt;XLI &lt;br /&gt;Outras flores suaves e admiráveis &lt;br /&gt;Bordam com vária cor campinas belas, &lt;br /&gt;E em vária multidão por agradáveis &lt;br /&gt;A vista encantam, transportada em vê-las; &lt;br /&gt;Jasmins vermelhos há, que inumeráveis &lt;br /&gt;Cobrem paredes, tetos e janelas; &lt;br /&gt;E, sendo por miúdos mal distintos, &lt;br /&gt;Entretecem purpúreos labirintos. &lt;br /&gt;XLII &lt;br /&gt;As açucenas são talvez fragrantes, &lt;br /&gt;Como as nossas na folha organizadas; &lt;br /&gt;Algumas no candor lustram brilhantes, &lt;br /&gt;Outras na cor reluzem nacaradas. &lt;br /&gt;Os bredos namorados rutilantes, &lt;br /&gt;As flores de courana celebradas, &lt;br /&gt;E outras sem conto pelo prado imenso, &lt;br /&gt;Que deixam quem as vê eomo suspenso. &lt;br /&gt;XLIII &lt;br /&gt;Das frutas do país a mais louvada &lt;br /&gt;É o régio ananás, fruta tão boa, &lt;br /&gt;Que a mesma natureza namorada &lt;br /&gt;Quis como a rei cingi-la da coroa. &lt;br /&gt;Tão grato cheiro dá, que uma talhada &lt;br /&gt;Surprende o olfato de qualquer pessoa; &lt;br /&gt;Que, a não ter do ananás distinto aviso, &lt;br /&gt;Fragrância a cuidará do Paraíso. &lt;br /&gt;XLIV &lt;br /&gt;As fragrantes pitombas delicadas &lt;br /&gt;São como gemas de ovos na figura; &lt;br /&gt;As pitangas com cores golpeadas &lt;br /&gt;Dão refrigério na febril secura; &lt;br /&gt;As formosas goiabas nacaradas, &lt;br /&gt;As bananas famosas na doçura, &lt;br /&gt;Fruta, que em cachos pende e cuida a gente &lt;br /&gt;Que fora o figo da cruel serpente. &lt;br /&gt;XLV &lt;br /&gt;Distingue-se entre as mais na forma e gosto &lt;br /&gt;Pendente de alto ramo o coco duro, &lt;br /&gt;Que em grande casca no exterior composto, &lt;br /&gt;Enche o vaso int'rior de um licor puro; &lt;br /&gt;Licor que, à competência sendo posto, &lt;br /&gt;Do antigo néctar fora o nome escuro; &lt;br /&gt;Dentro tem carne branca como a amêndoa, &lt;br /&gt;Que a alguns enfermos foi vital, comendo-a. &lt;br /&gt;XLVI &lt;br /&gt;Não são menos que as outras saborosas &lt;br /&gt;As várias frutas do Brasil campestres: &lt;br /&gt;Com gala de ouro e púrpura vistosas, &lt;br /&gt;Brilha a mangaba e os mocuiés silvestres; &lt;br /&gt;Os mamões, morieis, e outras famosas, &lt;br /&gt;De que os rudes cabelos foram mestres, &lt;br /&gt;Que ensinaram os nomes, que, se estilam, &lt;br /&gt;Janipo e caju vinhos distilam. &lt;br /&gt;...................................................................&lt;br /&gt;...................................................................&lt;br /&gt; (1) Troféu.  Alude-se à imagem de Catarina Álvares, pintada sobre a casa da pólvora na Bahia. (6) Salmoneu. Este príncipe pretendia imitar o raio para espantar os gregos, então bárbaros e semelhantes aos nossos Brasilienses . Tanto se pode crer no Rei de Creta, que aqueles Insulares chamaram Júpiter. &lt;br /&gt;(7) Hércules. Os heróis dos tempos fabulares foram sem dúvida, semelhantes aos nossos primeiros descobridores, feitos celebres pela rudeza e ignorância dos seus tempos. Observamos este paralelo para preocupar a censura de quem acaso estimasse a matéria e objeto desta epopéia, digna de comparar-se à que escolheram os antigos poetas épicos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-2418383409880303427?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/2418383409880303427/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=2418383409880303427&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/2418383409880303427'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/2418383409880303427'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/jose-de-santa-rita-durao.html' title='José de Santa Rita Durão'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-2216738605699819307</id><published>2012-02-18T12:38:00.001-04:00</published><updated>2012-02-18T12:39:49.576-04:00</updated><title type='text'>Claudio Manuel da Costa</title><content type='html'>Vila Rica &lt;br /&gt;De Claudio Manuel da Costa&lt;br /&gt;Canto X&lt;br /&gt;Trajando as galas da maior decência&lt;br /&gt;Na casa do Senado o Herói entrava;&lt;br /&gt;Da cor da tíria púrpura talhava&lt;br /&gt;A farda militar; cinge-lhe o lado&lt;br /&gt;A rica espada, que já tem provado&lt;br /&gt;Mil vezes o furor do irado Marte;&lt;br /&gt;E a mão, que os prêmios liberal reparte&lt;br /&gt;E dispõe os castigos, já sustenta&lt;br /&gt;O bastão que os poderes representa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão no plano os esquadrões formados,&lt;br /&gt;Monta a Cavalaria, e cinge os lados;&lt;br /&gt;O centro ocupa a Infantaria; tudo&lt;br /&gt;Respira da grandeza um novo estudo:&lt;br /&gt;Brilha o asseio e a ostentação; a idéia&lt;br /&gt;Crê que dos Céus na vista se recreia,&lt;br /&gt;Vendo nos recamados fios de ouro&lt;br /&gt;Que o Sol retrata ali o seu tesouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta arte entrando vai na Régia Sala,&lt;br /&gt;Senta-se, mede a todos, e assim fala:&lt;br /&gt;Felizes vós, feliz também eu devo&lt;br /&gt;Chamar-me neste dia, pois que escrevo&lt;br /&gt;Com letras de ouro o meu, e o nome vosso.&lt;br /&gt;Entre as vitórias e entre as palmas posso&lt;br /&gt;Seguro descansar: enfim caída&lt;br /&gt;Vejo de todo a rebeldia erguida,&lt;br /&gt;E Vassalos de um Rei, que mais vos ama,&lt;br /&gt;Buscais acreditar a vossa fama&lt;br /&gt;Com o dote imortal, que a Nação preza,&lt;br /&gt;De uma fidelidade portuguesa.&lt;br /&gt;De meus antecessores longe o susto;&lt;br /&gt;Goze-se a doce paz, e um trato justo&lt;br /&gt;De amizade e de fé, de hoje em diante&lt;br /&gt;Acabe de apagar o delirante,&lt;br /&gt;Fanático discurso, que inda excita&lt;br /&gt;De algum Vassalo a dor; não se limita&lt;br /&gt;O Régio Braço: a todos se dilata,&lt;br /&gt;A todos favorece, acolhe, e trata&lt;br /&gt;Sem outra distinção mais do que aquela&lt;br /&gt;Que demanda a virtude ilustre e bela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse; e solenizando a ação, procura&lt;br /&gt;Se lavre logo a sólida escritura,&lt;br /&gt;Onde o foral da Vila se establece.&lt;br /&gt;Entanto o pátrio Gênio lhe oferece,&lt;br /&gt;Por mão de destro artífice pintadas&lt;br /&gt;Nas paredes, as férteis, dilatadas&lt;br /&gt;Montanhas do País; e aqui lhe pinta,&lt;br /&gt;[Por ordem natural, clara e distinta]&lt;br /&gt;A diferente forma do trabalho&lt;br /&gt;Com que o sábio mineiro entre o cascalho&lt;br /&gt;Busca o louro metal, e com que passa&lt;br /&gt;Logo a purificá-lo sobre a escassa&lt;br /&gt;Tábua, ou canal do liso bulinete,&lt;br /&gt;Com que entre a negra areia ao depois mete&lt;br /&gt;Todo o extraído pó nos lisos vasos&lt;br /&gt;(Que uns mais côncavos são, outros mais rasos)&lt;br /&gt;E aos golpes d'água da matéria estranha&lt;br /&gt;O separa e divide; alta façanha&lt;br /&gt;De agudo engenho! A máquina aparece,&lt;br /&gt;Que desde a sua altura ao centro desce&lt;br /&gt;Da profundada cata, e as águas chupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê-se o outro mineiro, que se ocupa&lt;br /&gt;Em penetrar por mina o duro monte&lt;br /&gt;Ao rumo oblíquo, ou reto; tem defronte&lt;br /&gt;Da gruta, que abre, a terra que extraíra;&lt;br /&gt;Os lagrimais das águas que retira&lt;br /&gt;Ao tanque artificioso logo solta;&lt;br /&gt;Trazida a terra entre a corrente envolta,&lt;br /&gt;Baixa as grades de ferro; ali parados,&lt;br /&gt;Os grossos esmeris são depurados,&lt;br /&gt;Deixando ao dono em prêmio da fadiga&lt;br /&gt;Os bons tesouros da fortuna amiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por entre a pedra estoutro vai buscando&lt;br /&gt;As betas de ouro; aquele vai trepando&lt;br /&gt;Pelo escabroso serro, e as águas guia&lt;br /&gt;Pelos canais que lhe abre a pedra fria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não menos mostra o Gênio a agricultura&lt;br /&gt;Tão rara do País, aonde a dura&lt;br /&gt;Força dos bois não geme ao grave arado;&lt;br /&gt;Só do bom lavrador o braço armado&lt;br /&gt;Derriba os matos, e se ateia logo&lt;br /&gt;Sobre a seca matéria o ardente fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mole produção da cana loura&lt;br /&gt;Verdeja algum terreno, outro se doura;&lt;br /&gt;O lavrador a corta, e lhe prepara&lt;br /&gt;As ligeiras moendas; ali pára&lt;br /&gt;O espremido licor nos fundos cobres:&lt;br /&gt;Tu, ardente fornalha, me descobres&lt;br /&gt;Como em brancos torrões haja tornado&lt;br /&gt;A estímulos do fogo o mel coalhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O arbusto está, que o vício tem subido&lt;br /&gt;A inestimável preço, reduzido&lt;br /&gt;A pó sutil o talo e a folha inteira.&lt;br /&gt;Não menos brota a oriental figueira&lt;br /&gt;Com as crescidas folhas, e co'o fruto,&lt;br /&gt;Que inda nos lembra o mísero tributo,&lt;br /&gt;Que pagam nossos Pais, que já tiveram&lt;br /&gt;A morada do Éden e não puderam&lt;br /&gt;Guardar por muito tempo a lei imposta&lt;br /&gt;(Ó natureza ao Criador oposta!).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pássaros se vêem de espécie rara&lt;br /&gt;Que o Céu de lindas cores emplumara;&lt;br /&gt;As feras e animais mais esquisitos&lt;br /&gt;Todos no alegre mapa estão descritos,&lt;br /&gt;Os olhos deleitando e entretendo&lt;br /&gt;O Herói que facilmente o está crendo,&lt;br /&gt;Ao ver que destra mão dar-lhes procura&lt;br /&gt;A vida que lhes falta na pintura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas já lavrado estava e já firmado&lt;br /&gt;O termo, que escrevera o bom Pegado;&lt;br /&gt;Quando mais que a eleição, podendo o acaso,&lt;br /&gt;Manda o Herói que se extraiam dentre um vaso&lt;br /&gt;Os nomes dos primeiros a quem toca&lt;br /&gt;Reger a Vara que a justiça invoca.&lt;br /&gt;A ti te chama a sorte, ó grande Melo,&lt;br /&gt;E tu, Fonseca, em nobre paralelo&lt;br /&gt;Cedes nos anos teus a precedência,&lt;br /&gt;Do que contemplas próvida influência.&lt;br /&gt;Seguem-se àqueles dous um Figueiredo,&lt;br /&gt;Um Gusmão, um Faria, e te concedo&lt;br /&gt;Que sejas tu, Almeida, o que completes&lt;br /&gt;O número na ação em que competes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ansioso o Povo às portas esperava&lt;br /&gt;Pela alegre notícia, e já clamava&lt;br /&gt;Viva o Senado... Viva! Repetia&lt;br /&gt;Itamonte, que ao longe o eco ouvia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim serás cantada, Vila Rica,&lt;br /&gt;Teu nome impresso nas memórias fica;&lt;br /&gt;Terás a glória de ter dado o berço&lt;br /&gt;A quem te faz girar pelo Universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fonte: "http://pt.wikisource.org/w/index.php?title=Vila_Rica_(Cl%C3%A1udio_Manuel_da_Costa)/X&amp;oldid=73453" &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SONETOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para cantar de amor tenros cuidados, &lt;br /&gt;Tomo entre vós, ó montes, o instrumento; &lt;br /&gt;Ouvi pois o meu fúnebre lamento;&lt;br /&gt;Se é, que de compaixão sois animados:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já vós vistes, que aos ecos magoados&lt;br /&gt;Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;&lt;br /&gt;Da lira de Anfião ao doce acento&lt;br /&gt;Se viram os rochedos abalados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem sei, que de outros gênios o Destino,&lt;br /&gt;Para cingir de Apolo a verde rama,&lt;br /&gt;Lhes influiu na lira estro divino: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O canto, pois, que a minha voz derrama,&lt;br /&gt;Porque ao menos o entoa um peregrino,&lt;br /&gt;Se faz digno entre vós também de fama. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leia a posteridade, ó pátrio Rio,&lt;br /&gt;Em meus versos teu nome celebrado;&lt;br /&gt;Por que vejas uma hora despertado&lt;br /&gt;O sono vil do esquecimento frio: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vês nas tuas margens o sombrio,&lt;br /&gt;Fresco assento de um álamo copado;&lt;br /&gt;Não vês ninfa cantar, pastar o gado&lt;br /&gt;Na tarde clara do calmoso estio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Turvo banhando as pálidas areias &lt;br /&gt;Nas porções do riquíssimo tesouro &lt;br /&gt;O vasto campo da ambição recreias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que de seus raios o planeta louro &lt;br /&gt;Enriquecendo o influxo em tuas veias,&lt;br /&gt;Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pastores, que levais ao monte o gado,&lt;br /&gt;Vêde lá como andais por essa serra;&lt;br /&gt;Que para dar contágio a toda a terra,&lt;br /&gt;Basta ver se o meu rosto magoado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ando (vós me vêdes) tão pesado; &lt;br /&gt;E a pastora infiel, que me faz guerra,&lt;br /&gt;É a mesma, que em seu semblante encerra &lt;br /&gt;A causa de um martírio tão cansado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a quereis conhecer, vinde comigo, &lt;br /&gt;Vereis a formosura, que eu adoro; &lt;br /&gt;Mas não; tanto não sou vosso inimigo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixai, não a vejais; eu vo-lo imploro; &lt;br /&gt;Que se seguir quiserdes, o que eu sigo, &lt;br /&gt;Chorareis, ó pastores, o que eu choro.&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou pastor; não te nego; os meus montados &lt;br /&gt;São esses, que aí vês; vivo contente &lt;br /&gt;Ao trazer entre a relva florescente &lt;br /&gt;A doce companhia dos meus gados;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali me ouvem os troncos namorados, &lt;br /&gt;Em que se transformou a antiga gente; &lt;br /&gt;Qualquer deles o seu estrago sente; &lt;br /&gt;Como eu sinto também os meus cuidados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vós, ó troncos, (lhes digo) que algum dia&lt;br /&gt;Firmes vos contemplastes, e seguros &lt;br /&gt;Nos braços de uma bela companhia;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consolai-vos comigo, ó troncos duros; &lt;br /&gt;Que eu alegre algum tempo assim me via; &lt;br /&gt;E hoje os tratos de Amor choro perjuros.&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se sou pobre pastor, se não governo&lt;br /&gt;Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes;&lt;br /&gt;Se em frio, calma, e chuvas inclementes&lt;br /&gt;Passo o verão, outono, estio, inverno; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem por isso trocara o abrigo terno&lt;br /&gt;Desta choça, em que vivo, coas enchentes &lt;br /&gt;Dessa grande fortuna: assaz presentes &lt;br /&gt;Tenho as paixões desse tormento eterno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adorar as traições, amar o engano, &lt;br /&gt;Ouvir dos lastimosos o gemido, &lt;br /&gt;Passar aflito o dia, o mês, e o ano;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja embora prazer; que a meu ouvido &lt;br /&gt;Soa melhor a voz do desengano, &lt;br /&gt;Que da torpe lisonja o infame ruído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brandas ribeiras, quanto estou contente &lt;br /&gt;De ver nos outra vez, se isto é verdade! &lt;br /&gt;Quanto me alegra ouvir a suavidade, &lt;br /&gt;Com que Fílis entoa a voz cadente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os rebanhos, o gado, o campo, a gente, &lt;br /&gt;Tudo me está causando novidade: &lt;br /&gt;Oh como é certo, que a cruel saudade &lt;br /&gt;Faz tudo, do que foi, mui diferente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebei (eu vos peco) um desgraçado, &lt;br /&gt;Que andou té agora por incerto giro &lt;br /&gt;Correndo sempre atrás do seu cuidado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este pranto, estes ais, com que respiro, &lt;br /&gt;Podendo comover o vosso agrado, &lt;br /&gt;Façam digno de vós o meu suspiro.&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estou? Este sítio desconheço:&lt;br /&gt;Quem fez tão diferente aquele prado? &lt;br /&gt;Tudo outra natureza tem tomado; &lt;br /&gt;E em contemplá-lo tímido esmoreço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço &lt;br /&gt;De estar a ela um dia reclinado: &lt;br /&gt;Ali em vale um monte está mudado:&lt;br /&gt;Quanto pode dos anos o progresso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Árvores aqui vi tão florescentes, &lt;br /&gt;Que faziam perpétua a primavera: &lt;br /&gt;Nem troncos vejo agora decadentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me engano: a região esta não era:&lt;br /&gt;Mas que venho a estranhar, se estão presentes &lt;br /&gt;Meus males, com que tudo degenera!&lt;br /&gt;VIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é o rio, a montanha é esta, &lt;br /&gt;Estes os troncos, estes os rochedos; &lt;br /&gt;São estes inda os mesmos arvoredos; &lt;br /&gt;Esta é a mesma rústica floresta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo cheio de horror se manifesta, &lt;br /&gt;Rio, montanha, troncos, e penedos; &lt;br /&gt;Que de amor nos suavíssimos enredos &lt;br /&gt;Foi cena alegre, e urna é já funesta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh quão lembrado estou de haver subido &lt;br /&gt;Aquele monte, e as vezes, que baixando &lt;br /&gt;Deixei do pranto o vale umedecido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo me está a memória retratando;&lt;br /&gt;Que da mesma saudade o infame ruído&lt;br /&gt;Vem as mortas espécies despertando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IX&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco importa, formosa Daliana, &lt;br /&gt;Que fugindo de ouvir me, o fuso tomes; &lt;br /&gt;Se quanto mais me afliges, e consomes, &lt;br /&gt;Tanto te adoro mais, bela serrana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou já fujas do abrigo da cabana, &lt;br /&gt;Ou sobre os altos montes mais te assomes, &lt;br /&gt;Faremos imortais os nossos nomes, &lt;br /&gt;Eu por ser firme, tu por ser tirana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um obséquio, que foi de amor rendido, &lt;br /&gt;Bem pode ser, pastora, desprezado;&lt;br /&gt;Mas nunca se verá desvanecido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, que para lisonja do cuidado, &lt;br /&gt;Testemunhas serão de meu gemido &lt;br /&gt;Este monte, este vale, aquele prado.&lt;br /&gt;X&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ponho esta sanfona, tu, Palemo, &lt;br /&gt;Porás a ovelha branca, e o cajado; &lt;br /&gt;E ambos ao som da flauta magoado &lt;br /&gt;Podemos competir de extremo a extremo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Principia, pastor; que eu te não temo; &lt;br /&gt;Inda que sejas tão avantajado &lt;br /&gt;No cântico amebeu: para louvado &lt;br /&gt;Escolhamos embora o velho Alcemo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que esperas? Toma a flauta, principia; &lt;br /&gt;Eu quero acompanhar te; os horizontes &lt;br /&gt;Já se enchem de prazer, e de alegria:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece, que estes prados, e estas fontes &lt;br /&gt;Já sabem, que é o assunto da porfia&lt;br /&gt;Nise, a melhor pastora destes montes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Formosa é Daliana; o seu cabelo, &lt;br /&gt;A testa, a sobrancelha é peregrina; &lt;br /&gt;Mas nada tem, que ver coa bela Eulina, &lt;br /&gt;Que é todo o meu amor, o meu desvê-lo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece escura a nove em paralelo &lt;br /&gt;Da sua branca face; onde a bonina &lt;br /&gt;As cores misturou na cor mais fina, &lt;br /&gt;Que faz sobressair seu rosto belo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto os seus lindos olhos enamoram, &lt;br /&gt;Que arrebatados, como em doce encanto, &lt;br /&gt;Os que a chegam a ver, todos a adoram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se alguém disser, que a engrandeço tanto &lt;br /&gt;Veia, para desculpa dos que choram &lt;br /&gt;Veja a Eulina; e então suspenda o pranto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fatigado da calma se acolhia &lt;br /&gt;Junto o rebanho à sombra dos salgueiros; &lt;br /&gt;E o sol, queimando os ásperos oiteiros, &lt;br /&gt;Com violência maior no campo ardia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sufocava se o vento, que gemia&lt;br /&gt;Entre o verde matiz dos sovereiros; &lt;br /&gt;E tanto ao gado, como aos pegureiros &lt;br /&gt;Desmaiava o calor do intenso dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta ardente estação, de fino amante &lt;br /&gt;Dando mostras Daliso, atravessava &lt;br /&gt;O campo todo em busca de Violante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu descuido em seu fogo desculpava; &lt;br /&gt;Que mal feria o sol tão penetrante, &lt;br /&gt;Onde maior incêndio a alma abrasava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nise ? Nise ? onde estás ? Aonde espera &lt;br /&gt;Achar te uma alma, que por ti suspira, &lt;br /&gt;Se quanto a vista se dilata, e gira, &lt;br /&gt;Tanto mais de encontrar te desespera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah se ao menos teu nome ouvir pudera &lt;br /&gt;Entre esta aura suave, que respira! &lt;br /&gt;Nise, cuido, que diz; mas é mentira. &lt;br /&gt;Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grutas, troncos, penhascos da espessura, &lt;br /&gt;Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde, &lt;br /&gt;Mostrai, mostrai me a sua formosura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem ao menos o eco me responde! &lt;br /&gt;Ah como é certa a minha desventura! &lt;br /&gt;Nise ? Nise ? onde estás ? aonde ? aonde ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XIV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem deixa o trato pastoril amado &lt;br /&gt;Pela ingrata, civil correspondência, &lt;br /&gt;Ou desconhece o rosto da violência, &lt;br /&gt;Ou do retiro a paz não tem provado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que bem é ver nos campos transladado &lt;br /&gt;No gênio do pastor, o da inocência! &lt;br /&gt;E que mal é no trato, e na aparência &lt;br /&gt;Ver sempre o cortesão dissimulado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali respira amor sinceridade; &lt;br /&gt;Aqui sempre a traição seu rosto encobre; &lt;br /&gt;Um só trata a mentira, outro a verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali não há fortuna, que soçobre; &lt;br /&gt;Aqui quanto se observa, é variedade: &lt;br /&gt;Oh ventura do rico! Oh bem do pobre!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Formoso, e manso gado, que pascendo &lt;br /&gt;A relva andais por entre o verde prado, &lt;br /&gt;Venturoso rebanho, feliz gado, &lt;br /&gt;Que à bela Antandra estais obedecendo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já de Corino os ecos percebendo &lt;br /&gt;A frente levantais, ouvis parado; &lt;br /&gt;Ou já de Alcino ao canto levantado,&lt;br /&gt;Pouco e pouco vos ides recolhendo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, o mísero Alfeu, que em meu destino &lt;br /&gt;Lamento as sem razões da desventura, &lt;br /&gt;A seguir vos também hoje me inclino:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Medi meu rosto: ouvi minha ternura; &lt;br /&gt;Porque o aspecto, e voz de um peregrino &lt;br /&gt;Sempre faz novidade na espessura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XVI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a mortal fadiga adormecia &lt;br /&gt;No silêncio, que a noite convidava; &lt;br /&gt;Nada o sono suavíssimo alterava &lt;br /&gt;Na muda confusão da sombra fria:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só Fido, que de amor por Lise ardia, &lt;br /&gt;No sossego maior não repousava; &lt;br /&gt;Sentindo o mal, com lágrimas culpava &lt;br /&gt;A sorte; porque dela se partia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê Fido, que o seu bem lhe nega a sorte; &lt;br /&gt;Querer enternecê-na é inútil arte; &lt;br /&gt;Fazer o que ela quer, é rigor forte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas de modo entre as penas se reparte; &lt;br /&gt;Que à Lise rende a alma, a vida à morte: &lt;br /&gt;Por que uma parte alente a outra parte.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-2216738605699819307?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/2216738605699819307/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=2216738605699819307&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/2216738605699819307'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/2216738605699819307'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/claudio-manuel-da-costa.html' title='Claudio Manuel da Costa'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-9058656086664728393</id><published>2012-02-18T12:36:00.001-04:00</published><updated>2012-02-18T12:37:54.250-04:00</updated><title type='text'>Gregório de Matos</title><content type='html'>GREGÓRIO DE MATOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Epigrama&lt;br /&gt;Gregório de Mattos e Guerra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia.&lt;br /&gt;Que falta nesta cidade?... Verdade.&lt;br /&gt;Que mais por sua desonra?... Honra.&lt;br /&gt;Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O demo a viver se exponha,&lt;br /&gt;Por mais que a fama a exalta,&lt;br /&gt;Numa cidade onde falta&lt;br /&gt;Verdade, honra, vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.&lt;br /&gt;Quem causa tal perdição?... Ambição.&lt;br /&gt;E no meio desta loucura?... Usura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notável desaventura&lt;br /&gt;De um povo néscio e sandeu,&lt;br /&gt;Que não sabe que perdeu&lt;br /&gt;Negócio, ambição, usura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quais são seus doces objetos?... Pretos.&lt;br /&gt;Tem outros bens mais maciços?... Mestiços.&lt;br /&gt;Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dou ao Demo os insensatos,&lt;br /&gt;Dou ao Demo o povo asnal,&lt;br /&gt;Que estima por cabedal,&lt;br /&gt;Pretos, mestiços, mulatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.&lt;br /&gt;Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.&lt;br /&gt;Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os círios lá vem aos centos, &lt;br /&gt;E a terra fica esfaimando,&lt;br /&gt;Porque os vão atravessando&lt;br /&gt;Meirinhos, guardas, sargentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que justiça a resguarda?... Bastarda.&lt;br /&gt;É grátis distribuída?... Vendida.&lt;br /&gt;Que tem, que a todos assusta?... Injusta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valha-nos Deus, o que custa&lt;br /&gt;O que El-Rei nos dá de graça.&lt;br /&gt;Que anda a Justiça na praça&lt;br /&gt;Bastarda, vendida, injusta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que vai pela clerezia?... Simonia.&lt;br /&gt;E pelos membros da Igreja?... Inveja.&lt;br /&gt;Cuidei que mais se lhe punha?... Unha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sazonada caramunha,&lt;br /&gt;Enfim, que na Santa Sé&lt;br /&gt;O que mais se pratica é&lt;br /&gt;Simonia, inveja e unha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nos frades há manqueiras?... Freiras.&lt;br /&gt;Em que ocupam os serões?... Sermões.&lt;br /&gt;Não se ocupam em disputas?... Putas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com palavras dissolutas&lt;br /&gt;Me concluo na verdade,&lt;br /&gt;Que as lidas todas de um frade&lt;br /&gt;São freiras, sermões e putas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O açúcar já acabou?... Baixou.&lt;br /&gt;E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.&lt;br /&gt;Logo já convalesceu?... Morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À Bahia aconteceu&lt;br /&gt;O que a um doente acontece:&lt;br /&gt;Cai na cama, e o mal cresce,&lt;br /&gt;Baixou, subiu, morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Câmara não acode?... Não pode.&lt;br /&gt;Pois não tem todo o poder?... Não quer.&lt;br /&gt;É que o Governo a convence?... Não vence.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem haverá que tal pense,&lt;br /&gt;Que uma câmara tão nobre,&lt;br /&gt;Por ver-se mísera e pobre,&lt;br /&gt;Não pode, não quer, não vence. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Namorou-se do bom ar de huma criollinha chamada Cipriana,&lt;br /&gt;ou Supupema, e lhe faz o seguinte romance.&lt;br /&gt;Crioula da minha vida, &lt;br /&gt;Supupema da minha alma, &lt;br /&gt;bonita como umas flores, &lt;br /&gt;e alegre como umas páscoas. &lt;br /&gt;Não sei que feitiço é este, &lt;br /&gt;que tens nessa linda cara, &lt;br /&gt;a gracinha, com que ris, &lt;br /&gt;a esperteza, com que falas. &lt;br /&gt;O Garbo, com que te moves, &lt;br /&gt;o donaire, com que andas, &lt;br /&gt;o asseio, com que te vestes, &lt;br /&gt;e o pico, com que te amanhas. &lt;br /&gt;Tem-me tão enfeitiçado, &lt;br /&gt;que a bom partido tomara &lt;br /&gt;curar-me por tuas mãos, &lt;br /&gt;sendo tu, a que me matas. &lt;br /&gt;Mas não te espante o remédio, &lt;br /&gt;porque na víbora se acha &lt;br /&gt;o veneno na cabeça, &lt;br /&gt;de que se faz a triaga. &lt;br /&gt;A tua cara é veneno, &lt;br /&gt;que me traz enfeitiçada &lt;br /&gt;esta alma, que por ti morre, &lt;br /&gt;por ti morre, e nunca acaba. &lt;br /&gt;Não acaba, porque é justo, &lt;br /&gt;que passe as amargas ânsias &lt;br /&gt;de te ver zombar de mim, &lt;br /&gt;que a ser morto não zombaras. &lt;br /&gt;Tão infeliz sou contigo, &lt;br /&gt;que a fim de que te agradara, &lt;br /&gt;fora o Bagre, e fora o Negro, &lt;br /&gt;que tinha as pernas inchadas. &lt;br /&gt;Claro está, que não sou negro, &lt;br /&gt;que a sê-lo tu me buscaras; &lt;br /&gt;nunca meu Pai me fizera &lt;br /&gt;branco de cagucho, e cara. &lt;br /&gt;Mas não deixas de querer-me, &lt;br /&gt;porque sou branco de casta, &lt;br /&gt;que se me tens cativado, &lt;br /&gt;sou teu negro, e teu canalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À DONA ANGELA&lt;br /&gt;"Anjo no nome, Angélica na cara, &lt;br /&gt;Isso é ser flor e anjo juntamente, &lt;br /&gt;Ser Angélica flor, e Anjo florente &lt;br /&gt;Em quem, senão em vós, se uniformara? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem veria uma flor, que não a cortara &lt;br /&gt;Do verde pé, da rama florescente? &lt;br /&gt;E quem um anjo vira tão luzente, &lt;br /&gt;Que por seu deus não idolatrara? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se como Anjo sois dos meus altares &lt;br /&gt;Fôreis o meu custódio, e a minha guarda, &lt;br /&gt;Livrara eu de diabólicos azares, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas vejo que tão bela e tão galharda, &lt;br /&gt;Posto que os anjos nunca dão pesares, &lt;br /&gt;Sois Anjo que me tenta, e não me guarda." &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DESCREVE O QUE ERA NAQUELE TEMPO A CIDADE DA BAHIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada canto um grande conselheiro,&lt;br /&gt;Que nos quer governar cabana e vinha;&lt;br /&gt;Não sabem governar sua cozinha,&lt;br /&gt;E podem governar o mundo inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em cada porta um bem freqüente olheiro,&lt;br /&gt;Que a vida do vizinho e da vizinha&lt;br /&gt;Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,&lt;br /&gt;Para o levar à praça e ao terreiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos mulatos desavergonhados,&lt;br /&gt;Trazidos sob os pés os homens nobres,&lt;br /&gt;Posta nas palmas toda a picardia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estupendas usuras nos mercados,&lt;br /&gt;Todos os que não furtam muito pobres:&lt;br /&gt;E eis aqui a cidade da Bahia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-9058656086664728393?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/9058656086664728393/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=9058656086664728393&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/9058656086664728393'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/9058656086664728393'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/gregorio-de-matos.html' title='Gregório de Matos'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-1510142069979339762</id><published>2012-02-18T12:27:00.003-04:00</published><updated>2012-02-18T12:33:21.169-04:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>CAPÍTULO SEXTO&lt;br /&gt;Das árvores agrestes do Brasil&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há no Brasil grandíssimas matas de árvores agrestes, cedros, carvalhos, vinháticos, angelins, e outras não conhecidas em Espanha, de madeiras fortíssimas para se poderem fazer delas fortíssimos galeões, e o que mais é, que da casca de algumas se tira a estopa para se calafetarem, e fazerem cordas para enxárcia e amarras, do que tudo se aproveitam os que querem cá fazer navios, e se poderá aproveitar el-rei se cá os mandara fazer; mas os índios naturais da terra as embarcações de que usam são canoas de um só pau, que lavram a fogo e a ferro; e há paus tão grandes, que ficam&lt;br /&gt;depois de cavados, com 10 palmos de boca de bordo a bordo; e tão compridos, que remam a 20 remos por banda. São também as madeiras do Brasil mui acomodadas para os edifícios das casas por sua fortaleza, e com elas se acha juntamente a pregadura; porque ao pé das mesmas árvores nascem uns vimes mui rijos, chamados timbós, e cipós que, subindo até o mais alto delas ficam parecendo mastros de navios com seus cordéis, e com estes atam os caibros, ripas e toda a madeira das casas, que houvera de ser pregadas, no que se forra muito gasto de dinheiro e, principalmente, nas grandes cercas, que fazem aos pastos dos bois dos engenhos, porque não saiam a comer os canaviais do açúcar, e os achem no pasto, quando os houverem mister para a moenda, as quais cercas se fazem de estacas e varas atadas com estes cipós.&lt;br /&gt;Ao longo do mar, e em algumas partes, muito espaço dentro dele há grandes matas de&lt;br /&gt;mangues, uns direitos e delgados de que fazem estas cercas e caibros para as casas. Outros que dos ramos lhes descem as raízes ao lado, e delas sobem outros, que depois de cima lançam outras raízes, e assim se vão continuando de ramos a raízes, e de raízes a ramos, até ocupar um grande espaço, que é coisa de admiração.&lt;br /&gt;Não é menos admirável outra planta, que nasce nos ramos de qualquer árvore, e ali cresce, e dá um fruto grande, e mui doce chamado caragatá, e entre suas folhas, que são largas, e rijas, se acha todo o verão água frigidíssima, que é o remédio dos caminhantes, onde não há fontes. Há muitas castas de palmeiras, de que se comem os palmitos e o fruto, que são uns cachos de cocos, e se faz deles azeite para comer, e para a candeia, e das palmas se cobrem as casas.&lt;br /&gt;Nem menos são as madeiras do Brasil formosas que fortes, porque as há de todas as cores,brancas, negras, vermelhas, amarelas, roxas, rosadas e jaspeadas, porém tirado o pau vermelho, a que chamam Brasil, e o amarelo chamado Tataisba, e o rosado Arariba, os mais não dão tinta de suas cores, e, contudo, são estimados por sua formosura para fazer leitos, cadeiras, escritórios e bufetes: como também se estimam outros, porque estilam de si óleo odorífero, e medicinal, quais são umas árvores mui grossas, altas e direitas chamadas copaíbas, que golpeadas no tempo do estio com um machado, ou furadas com uma verruma, ao pé estilam do âmago um precioso óleo, com&lt;br /&gt;que se curam todas as enfermidades de humor frio, e se mitigam as dores que delas procedem, e saram quaisquer chagas, principalmente de feridas frescas, posto com o sangue, de tal modo, que nem fica delas sinal algum, depois que saram: e acerta às vezes estar este licor tão de vez, e desejoso de sair, que em tirando a verruma, corre em tanta quantidade como se tiraram o torno a uma pipa de azeite; porém, nem em todas se acha isto, senão nas que os índios chamam fêmeas, e esta é a diferença que tem dos machos, sendo em tudo o mais semelhante, nem só tem estas árvores&lt;br /&gt;9&lt;br /&gt;virtude no óleo, mas também na casca, e assim se acham ordinariamente roçadas dos animais, que as vão buscar para remédio de suas enfermidades.&lt;br /&gt;Outras árvores há chamadas coboreibas, que dão o suavíssimo bálsamo com que se fazem as mesmas curas, e o Sumo Pontífice o tem declarado, por matéria legítima da santa unção, e crisma, e como tal se mistura e sagra com os santos óleos onde falta o da Pérsia. Este se tira também dando golpes na árvore, e metendo neles um pouco de algodão em que se colhe, e exprimido o metem em uns coquinhos para o guardarem e venderem. Outras árvores se estimam ainda que agrestes, por seus saborosos frutos, que são inumeráveis, as que frutificam pelos campos, e matos, e assim não poderei contar senão algumas principais, tais são as sasapocaias de que fazem os eixos para as moendas dos engenhos, por serem rigíssimas, direitas e tão grossas como tonéis, cujos frutos são uns vasos tapados, cheios de saborosas amêndoas, os quais depois que estão de vez se destapam, e comidas as amêndoas servem as cascas de grãos para pisar adubos, ou o que querem. Maçarandubas, que é a madeira mais ordinária de que fazem as traves e todo o madeiramento das casas, por ser quase incorruptível, seu fruto é como cerejas, maior e mais doce, mas lança de si leite, como os figos mal maduros.&lt;br /&gt;Jenipapos, de que fazem os remos para os barcos como na Espanha os fazem de faia, tem um fruto redondo tão grande como laranjas, o qual quando é verde, espremido dá o sumo tão claro como a água do pote; porém quem se lava com ele fica negro como carvão, nem se lhe tira a tinta em poucos dias.&lt;br /&gt;Desta se pintam, e tingem os índios em suas festas, e saem tão contentes nus, como se&lt;br /&gt;saíssem com uma rica libré, e este fruto se come depois de maduro, sem botar dele nada fora.&lt;br /&gt;Gyitis (sic) é fruto de outras, o qual posto que feio à vista, e por isto lhe chamam coroe, que quer dizer nodoso, e sarabulhento, contudo é de tanto sabor e cheiro, que não parece simples, senão composto de açúcar, ovos e almiscar.&lt;br /&gt;Os cajueiros dão a fruta chamada cajus, que são como verdiais, mas de mais sumo, os quais se colhem no mês de dezembro em muita quantidade, e os estimam tanto, que aquele mês não querem outro mantimento, bebida ou regalo, porque eles lhes servem de fruta, o sumo de vinho, e de pão lhes servem umas castanhas, que vem pegadas a esta fruta, que também as mulheres brancas prezam muito, e secas as guardam todo o ano em casa para fazerem maçapães e outros doces, como de amêndoas; e dá goma como a Arábia. A figura desta árvore e do seu fruto é a seguinte.&lt;br /&gt;O mesmo tem outra planta que produz os ananases, fruta que em formosura, cheiro e sabor excede todas as do mundo, alguma tacha lhe põem os que têm chagas e feridas abertas, porque lhas assanha muito se a comem, trazendo ali todos os ruins humores, que acha no corpo: porém isto antes argue a sua bondade, que é não sofrer consigo ruins humores, e purgá-los, pelas vias, que acha abertas, como o experimentam os enfermos de pedra, que lha desfaz em areias, e expele com a urina, e até a ferrugem da faca, com que se apara, a limpa; a figura da planta e fruto é o seguinte.&lt;br /&gt;Cultivam-se palmares de cocos grandes, e colhem-se muitos, principalmente à vista do mar, mas só os comem, e lhes bebem a água, que tem dentro seus mais proveitos, que tiram na Índia, onde diz o padre Frei Gaspar no seu Itinerário a folhas 14, que das palmeiras se arma uma nau à vela, e se carrega de todo o mantimento necessário sem levar sobre si mais, que a si mesma. Fazemse favais de favas e feijões de muitas castas, e as favas secas são melhores que as de Portugal, porque não criam bicho, nem tem a casca tão dura como as de lá, e as verdes não são piores.&lt;br /&gt;A sua rama é a modo de vimes, e se tem por onde trepar faz grande ramada.&lt;br /&gt;Maracujás é outra planta que trepa pelos matos, e também a cultivam e põem em latadas nos pátios e quintais, dão fruto de quatro ou cinco sortes, uns maiores, outros menores, uns amarelos,outros roxos, todos mui cheirosos, e gostosos, e o que mais se pode notar é a flor porque além de ser &lt;br /&gt;10&lt;br /&gt;formosa e de várias cores, é misteriosa, começa no mais alto em três folhinhas, que se rematam em um globo, que representa as três divinas pessoas em uma Divindade ou / como outros querem / os três cravos com que Cristo foi encravado, e logo tem abaixo do globo (que é o fruto) outras cinco folhas, que se rematam em uma roxa coroa, representando as cinco chagas e coroa de espinhos de Cristo Nosso Redentor.&lt;br /&gt;Das árvores e plantas frutíferas, que se cultivam em Portugal, se dão no Brasil as de espinho com tanto viço, e fertilidade, que todo o ano há laranjas, limões cidras e limas doces em muita abundância. Há também romãs, marmelos, figos e uvas de parreira, que se vindimam duas vezes no ano; e na mesma parreira / se querem/ tem juntamente uvas em flor, outras em agraço, outras maduras, se as podam a pedaços em tempos diversos.&lt;br /&gt;Há muitas melancias e abóboras de Quaresma, e de conserva muitos melões todo o verão tão bons, como os bons de Abrantes, e com esta vantagem que lá entre cento se não acham dois bons, e cá entre cento se não acham dois ruins.&lt;br /&gt;Finalmente se dá no Brasil toda a hortaliça de Portugal, hortelã, endros, coentro, segurelha, alfaces, celgas, borragens, nabos e couves, e estas só uma vez se plantam de couvinha, mas depois dos olhos, que nascem ao pé, se faz a planta muitos anos, e em poucos dias crescem e se fazem grandes couves: além destas há outras couves da mesma terra, chamadas taiobas, das quais comem também as raízes cozidas, que são como batatas pequenas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-1510142069979339762?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/1510142069979339762/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=1510142069979339762&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/1510142069979339762'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/1510142069979339762'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/capitulo-sexto-das-arvores-agrestes-do.html' title=''/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-389160541651277322</id><published>2012-02-18T12:19:00.002-04:00</published><updated>2012-02-18T12:21:11.655-04:00</updated><title type='text'>A carta de Pero vaz de Caminha - passagens</title><content type='html'>A Carta de Pero Vaz de Caminha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer.&lt;br /&gt;Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para aformosear nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu. &lt;br /&gt;A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grã- Canária, e ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto. &lt;br /&gt;Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais! &lt;br /&gt;Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome – o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera Cruz. &lt;br /&gt;Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro. &lt;br /&gt;Então lançamos fora os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor, onde falaram entre si.&lt;br /&gt;E o Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens. &lt;br /&gt;Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram. &lt;br /&gt;Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete&lt;br /&gt;vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal&lt;br /&gt;grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar. &lt;br /&gt;Na noite seguinte, ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus, e especialmente a capitânia. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar âncoras e fazer vela; e fomos ao longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados à popa na direção do norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nos demorássemos, para tomar água e lenha. Não que nos minguasse, mas por aqui nos acertarmos. &lt;br /&gt;Quando fizemos vela, estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali poucos e poucos. Fomos de longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que seguissem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem. &lt;br /&gt;E, velejando nós pela costa, obra de dez léguas do sítio donde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. As naus arribaram sobre eles; e um pouco antes do sol posto amainaram também, obra de uma légua do recife, e ancoraram em onze braças. &lt;br /&gt;E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia. Um deles trazia um arco e seis ou sete setas; e na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram. Trouxe-os logo, já de noite, ao Capitão, em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa. &lt;br /&gt;A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, de comprimento&lt;br /&gt;duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber. &lt;br /&gt;Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço&lt;br /&gt;e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não o era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar. &lt;br /&gt;O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram&lt;br /&gt;sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata. &lt;br /&gt;Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados. &lt;br /&gt;Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançaram fora.&lt;br /&gt;Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes a água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora. &lt;br /&gt;Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do Capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo. &lt;br /&gt;Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera. &lt;br /&gt;Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir, sem buscarem maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. O Capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus coxins; e o da cabeleira esforçava-se por não a quebrar. E lançaram-lhes um manto por cima; e eles consentiram, quedaram-se e dormiram. &lt;br /&gt;Muitos deles ou quase a maior parte dos que andavam ali traziam aqueles bicos de osso nos beiços. E alguns, que andavam sem eles, tinham os beiços furados e nos buracos uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha; outros traziam três daqueles bicos, a saber, um no meio e os dois nos cabos. Aí andavam outros, quartejados de cores, a saber, metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, a modos de&lt;br /&gt;azulada; e outros quartejados de escaques. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e&lt;br /&gt;suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha. &lt;br /&gt;Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha, que se não entendia nem ouvia ninguém.&lt;br /&gt;Acenamos-lhes que se fossem; assim o fizeram e passaram-se além do rio. Saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris de água que nós levávamos e tornamo-nos às naus. Mas quando assim vínhamos, acenaram-nos que tornássemos. Tornamos e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles. Este levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não cuidaram de lhe tomar nada, antes o mandaram com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, ordenando que lhes desse aquilo. E ele tornou e o deu , à vista de nós, àquele que da primeira vez agasalhara. Logo voltou e nós trouxemo-lo.&lt;br /&gt;Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por louçainha todo cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia asseteado como S. Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem-feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela. Nenhum deles era fanado, mas, todos assim como nós. E com isto nos tornamos e eles foram-se. &lt;br /&gt;Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-389160541651277322?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/389160541651277322/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=389160541651277322&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/389160541651277322'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/389160541651277322'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/carta-de-pero-vaz-de-caminha-passagens.html' title='A carta de Pero vaz de Caminha - passagens'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-494081817770591220</id><published>2012-02-18T12:16:00.003-04:00</published><updated>2012-02-26T14:07:36.888-04:00</updated><title type='text'>Plano de curso - Proc. lit bras - poesia</title><content type='html'>UCAM – UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES – 2012.1    &lt;br /&gt;DEPARTAMENTO DE LETRAS&lt;br /&gt;CURSO: PORTUGUÊS/LITERATURA/INGLÊS&lt;br /&gt;DISCIPLINA: PROCESSO LITERÁRIO BRASILEIRO - POESIA                         &lt;br /&gt;PROF. Dr : CLÁUDIO LUÍS SERRA MARTINS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EMENTA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conceito de Literatura Brasileira. Panorama literário brasileiro. Formação e desenvolvimento da Arte literária no Brasil. Literatura informativa e produção Jesuíta. Barroco. Neoclassicismo. Pré-Romantismo. Romantismo. Parnasianismo. Simbolismo..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PLANO DE CURSO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FEVEREIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13 Introdução ao curso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20 Feriado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27 Conceito de literatura Brasileira. Textos de informação: “A carta de Pero Vaz de Caminha”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARÇO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;05 Produção Jesuítica. O novo mundo sob a ótica jesuítica: “Feitos de Mem de Sá Governador do Brasil”, de Padre José de Anchieta; “Das árvores agrestes do Brasil”, de frei Vicente do salvador e “Carta (Ao rei D. Afonso VI – 1657)”, de Padre Antonio Vieira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12 O Barroco no Brasil colonial: A invenção da mulata: preconceito e racismo na obra de Gregório de Matos – “Epigrama - Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia”, “Namorou-se do bom ar de huma criollinha chamada Cipriana, ou Supupema, e lhe faz o seguinte romance”, “ À Dona Angela”. &lt;br /&gt;19 O Arcadismo (neoclassicismo) brasileiro: Claudio Manuel da Costa – “Sonetos”, “Vila Rica”.&lt;br /&gt;26 Santa Rita Durão – Leitura e análise do poema épico “Caramuru”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ABRIL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;02 1a . Verificação semestral&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09 O Romantismo brasileiro: o imaginário do colonizador na construção de uma identidade nacional. “Canção do Exílio” e “I-Juca Pirama”, de Gonçalves Dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16 Álvares de Azevedo – Prefácio [à segunda parte da Lira dos Vinte Anos] - “Crepúsculo nas Montanhas”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23 Feriado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;30 Feriado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;07 Casimiro de Abreu – “Canção do Exílio”, “Meus oito anos”..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14 Castro Alves – “Navio Negreiro”, “A Canção do Africano”, “O Adeus de Teresa”.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21 O Parnasianismo – Olavo Bilac – “Via Láctea”, “Criação”, “O Sonho”.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28 O Simbolismo - A influência de Edgar Allan Poe na poesia de Augusto dos Anjos – “Psicologia de um vencido”, “O morcego”, “Solitário”, Versos Íntimos”, “Soneto”. Ensaio: “Augusto dos Anjos &amp;amp; Edgar Allan Poe: Relações Poéticas, de Sandra Erickson. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JUNHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;04 Revisão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11  Segunda Verificação Semestral&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18  Entrega de Resultado &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25 Terceira Verificação Semestral&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JULHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;02 Entrega de resultados &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BIBLIOGRAFIA BÁSICA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira.  São Paulo: Cultrix, 1994.&lt;br /&gt;CÂNDIDO, Antônio &amp;amp; CASTELLO, J.A. Presença da Literatura Brasileira: Das origens ao Realismo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÍTIOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ARTIGO SOBRE AUGUSTO DOS ANJOS E EDGAR ALLAN POE:&lt;br /&gt;http://www.cchla.ufrn.br/humanidades/ARTIGOS/GT40/AA%20e%20Poe--SH%202008%20-%20Completo%20III%20(12-12).pdf&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OBRAS DE DOMÍNIO PÚBLICO:&lt;br /&gt;http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-494081817770591220?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/494081817770591220/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=494081817770591220&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/494081817770591220'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/494081817770591220'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/programa-e-calendario-de-proc-lit-bras.html' title='Plano de curso - Proc. lit bras - poesia'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-7892812238900985901</id><published>2012-02-05T13:47:00.002-04:00</published><updated>2012-02-05T13:54:32.047-04:00</updated><title type='text'>Macedo e a cidade do Rio de Janeiro: um passeio pelo imaginário do colonizador</title><content type='html'>Claudio Luis Serra Martins&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Na abertura do livro Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, Macedo dirigi-se aos leitores, explicando o seu projeto de mapeamento histórico-geográfico da corte, cujo objetivo é resgatar o que foi esquecido da memória da cidade. Ao convidar o leitor para um passeio, o cronista se oferece para ser o guia desta viagem “imaginária e ao léu”, sem uma ordem cronológica de tempo. Para exaltar a urbanidade, Macedo, como se fosse, segundo Pechman, um “pintor de costumes da sociedade moderna” , faz uma nova “pintura” do imaginário da cidade do Rio de Janeiro, apagando o incômodo cenário natural; fornece assim, informações históricas, verídicas ou inventadas, a respeito dos costumes do passado da cidade, prestando ao país, como ele mesmo afirma, “um tributo de patriotismo”:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Determinei escrever o que sabia e conseguisse saber sobre a história e tradições de alguns edifícios, estabelecimentos públicos e instituições da cidade do Rio de Janeiro, abundando quanto pudesse em informações relativas aos homens notáveis e aos usos e costumes do passado, porque entendi que com este meu trabalho presto ao meu país um serviço e pago-lhe um tributo de patriotismo, pois que concorro com meu contingente, fraco embora, para salvar do olvido muitas cousas e muitos fatos cuja lembrança vai desaparecendo .      &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Percebe-se claramente que o intuito de Macedo é preservar uma memória e, acima de tudo, criar novas memórias para uma nação que acabou de nascer. Mas fica também claro que sua tentativa de construção de uma identidade nacional, não configura uma descontinuidade do processo imperialista de colonização sofrido pelo Brasil até este momento. Muito pelo contrário, os passeios pelos monumentos, ruas, igrejas e palácios revelam o que Alfred Crosby em Imperialismo Ecológico  diz ser uma necessidade dos europeus de transformar os territórios conquistados em imagens que eles deixaram para trás. E essas imagens são mantidas através do poder de uma narração que, além de legitimar a conquista do homem branco, impede que outras narrativas surjam dando um novo significado à paisagem que está sendo modificada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O objetivo deste trabalho é, portanto, mostrar que a exaltação de um Rio urbano, feita por Macedo nos folhetins reunidos no livro Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro (1862/1863), só vem a confirmar a tese de continuidade do projeto imperialista colonial português, inserindo a recente nação dentro de uma nova comunidade imaginária independente chamada Brasil. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Em Cidades estreitamente vigiadas, Pechman argumenta que as histórias de Macedo estão relacionadas com uma tentativa de formar “uma nova mentalidade ética para a burguesia do império, aparentemente desprovida de uma sólida bagagem moral” . Uma busca que encontra inspiração no modelo do bom sauvage, de Rousseau, na qual o homem nasce puro, mas é corrompido pelo contato com a sociedade. Para Macedo, a literatura tem o poder de resgatar a pureza perdida e modificar os vícios, provenientes dos costumes deteriorados pelo contato com as “importações morais”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O “remédio” para se evitar o contágio com a “imoralidade externa” se dá através da preservação do passado de um povo. “O passado”, diz Macedo, “é um livro cheio de preciosos tesouros que não se devem desprezar, e toda a terra tem sua história mais ou menos política, suas recordações mais ou menos interessantes, como todo o coração tem suas saudades”(p.20) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A afirmação de Macedo de que “toda a terra tem sua história” revela a existência de um passado que deve ser compartilhado por todos aqueles que pertencem a uma mesma comunidade. Segundo Stuart Hall, o que chamamos hoje de nação nada mais é do que uma invenção de valores e tradições que são inseridos e moldados na mente das pessoas através de um estratagema discursivo que ele chamou de “narrativa da nação”: &lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;Em primeiro lugar, há a narrativa da nação, tal como é contada e recontada nas histórias e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. Essas fornecem uma série de histórias, imagens, panoramas, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais que simbolizam ou representam as experiências partilhadas, as perdas, os triunfos e os desastres que dão sentido à nação. Como membros de tal “comunidade imaginada”, nos vemos, no olho de nossa mente, como compartilhando dessa narrativa. Ela dá significado e importância à nossa monótona existência, conectando nossas vidas cotidianas com um destino nacional que preexiste a nós e continua existindo após essa morte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao passear com Macedo, o leitor passa a ver o mundo não com seus próprios olhos, mas com os olhos da mente do conquistador. É importante ressaltar que em cada lugar conquistado, os europeus sempre procuraram estabelecer fronteiras imaginárias dentro de suas mentes, ou seja, os conquistados passam a ser “os outros”, e tanto o território como a mentalidade destes são declarados diferentes dos “nossos” (europeus). Como bem observou Homi Bhabha, “as nações, tais como as narrativas, perdem suas origens nos mitos do tempo e efetivam plenamente seus horizontes nos olhos da mente” .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, Macedo fixa seu “olhar mental” a partir do período colonial, época em que o domínio português foi mais acentuado. E o motivo de ele não ir além desse período é não reconhecer uma civilização anterior ao descobrimento do Brasil. Isso fica bem claro na introdução do livro quando ele diz que não irá falar das províncias centrais e longínquas, pois estas “representam um mundo que ainda está à espera do seu Colombo”(p.20). Ou ainda mais adiante quando exalta o papel desempenhado pelos jesuítas chamando-os de “missionários dedicados e civilizadores”(p.46). Portanto, para o cronista, assim como para os europeus, o Novo Mundo era apenas uma tábula rasa na qual eles podiam projetar suas próprias imagens de uma sociedade perfeita. Não é a toa que pensamentos como esses são refletidos no protótipo do romance realista moderno Robinson Crusoé, que cria um feudo para si próprio em uma terra distante.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um projeto civilizatório em mente, Macedo se recusa a viajar por “províncias longínquas”. No entanto, até meados do século XIX, o imaginário da burguesia ainda é influenciado pelos relatos dos viajantes estrangeiros que falavam de um Brasil exótico.  Por isso, Macedo não deixará de viajar, visto que, a crônica, como precursora do “mundismo”, vai se utilizar, como diz Pechman, “das fórmulas consagradas e que tinham plena aceitação pelos leitores: os relatos de viagem” . Mas desta vez a viagem é curta, ele não irá ao confins do Brasil, ficará  dentro dos limites da cidade.&lt;br /&gt;Nesse tocante, Pechman ainda ressalta que o observador de costumes se cansa de viajar pelo país, “limita-se a passear pela cidade, passando a reconhecê-la como a nova “paisagem” brasileira” . Assim, a crônica surge como forma narrativa, ao mesmo tempo que a cidade se transforma em objeto de observação. A partir de então, vê-se também o processo de invenção da cidade, onde os seus habitantes passarão a se identificar como parte desse projeto civilizatório, uma dialética que, segundo Pechman, dará uma nova configuração ao cronista..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma dialética entre a configuração do cronista como novo narrador da literatura brasileira e a constituição de uma representação estética da cidade que, uma vez estruturada, passará a identificar a própria cidade e dar identidade a seus habitantes. Por isso é que, ao elaborar a crônica de costumes, o cronista se inventa como narrador ao mesmo tempo que inventa a cena urbana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário de alguns escritores românticos brasileiros que transformam o ambiente natural em pano de fundo para o projeto de uma literatura brasileira, Macedo simplesmente faz uma “devastação mental” da paisagem natural da cidade do Rio de Janeiro. Em vez de exaltar a natureza viva com seus jardins naturais arborizados, cortados por belos riachos e rios, Macedo dá as costas a ela, e vira-se para o terraço do Passeio Público: um jardim construído artificialmente, que comentarei em detalhes mais a frente, em uma tentativa de demonstrar uma cidade que já possui um corpo que vale a pena ser apreciado. E num dos poucos momentos que Macedo reconhece a presença da natureza, ele, assim, dirige-se aos leitores: “Voltemos as costas para o mar. O espetáculo dessa natureza opulenta, grandiosa, sublime, absorve-nos em uma contemplação insaciável. Cerremos por algum tempo os olhos à majestade das obras de Deus.”(p.51)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A identidade, como se observou mais acima, seja de um indivíduo ou de uma nação, é baseada em experiências vividas, testemunhos de uma existência que se perpetua através da tradição. Embora as teorias de identidade nacional, como sendo uma construção social, sejam recentes, parece que Macedo já as conhecia ao afirmar que “as tradições...abundam nos arquivos da imaginação e da credulidade de todos os povos, e encontram-se em todas as nações”.(p.43) Dito isto, ele vai defender a sua escrita “em tom brincalhão e às vezes epigramático”, pois escrevia também para o povo, que “prefere os livros amenos e romanescos às obras grandiosas e profundas”.(p.18)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obviamente, o povo a quem Macedo se refere é a emergente burguesia que lia avidamente os romances e, tal qual uma personagem flaubertiana, acreditava no imaginário construído por aqueles. Aliás, foi através do romance que o imperialismo europeu encontrou uma forma de legitimar o seu poder nas colônias. Em Cultura e Imperialismo, Edward Said, ao analisar os romances ingleses oitocentistas, ressalta o caráter de continuidade do projeto imperialista britânico na narrativa romântica. Para o teórico, isso ocorre porque “eles (os romances) nunca defendem que se abra mão das colônias, mas adotam a visão geral de que, na medida em que elas entram na órbita do predomínio britânico, esse mesmo predomínio é uma espécie de norma, sendo assim preservado juntamente com as colônias” . &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda, segundo Said, isso pode ser comprovado mesmo em obras que, apesar das sérias críticas ao imperialismo, nunca admitiram a liberdade dos nativos. Por exemplo, em Heart of Darkness, Joseph Conrad acredita que as trevas podem ser colonizadas e iluminadas, o que explica, portanto, as várias referências à mission civilisatrice: projetos cujos objetivos era o de “levar a luz aos lugares e povos escuros”. Sendo assim, os personagens Marlow e Kurtz, embora reconheçam que as “trevas” possuem autonomia própria, podendo um dia reinvindicar aquilo que o europeu acreditava lhe pertencer, eles não conseguem reconhecer que a “treva” não européia nada mais era do que “um mundo não europeu resistindo ao imperialismo, para algum dia reconquistar a soberania e a independência, e não, como diz Conrad, de maneira reducionista, para restaurar as trevas” .     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, os romances ingleses e franceses têm suas histórias muitas vezes situadas em territórios ultramarinos, e quando as personagens não estão com os pés fincadas em solo estrangeiro, as colônias são mencionadas como sendo de direito do colonizador. “A idéia”, diz Said, “é que os territórios distantes estão lá para serem usados, à vontade e ao talante do romancista, em geral para fins relativamente simples como a imigração, o exílio ou o enriquecimento” . &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora alguns críticos possam dizer que em Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro, Macedo não se enquadre ao esquema romântico inglês ou francês, por não estar falando de terras distantes, mas do seu próprio país, é preciso, porém, entender que a narrativa de Macedo é um espelho que está a todo momento refletindo o imaginário do colonizador português. Macedo não lida com uma distância que pode ser medida em metros, mas uma distância que deve ser medida pelo tempo. E uma medida temporal se perde facilmente com a corrosão da memória; e a narrativa, quando colocada em forma de texto, tem o poder de manter vivo o passado de uma nação. Além disso, o fato de ele falar de dentro “silencia a plenitude da experiência do imperialismo, amputa-a e subordina-a ao predomínio de uma visão eurocêntrica e totalizadora” , ficando, assim, mais fácil para se juntar “à história verdadeira os tais ligeiros romances, tradições inaceitáveis e lendas inventadas para falar à imaginação e excitar a curiosidade do povo que lê”. (p.18)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como em toda obra literária nunca sabemos ao certo o que realmente os personagens pensam, sabemos apenas que eles estão sendo representados pelo autor da obra. O poder do discurso literário é muitas vezes contagiante, e nem sempre se dá a importância necessária à forma como os textos são feitos, e porque eles são feitos. Jacques Derrida demonstra essa preocupação quando afirma em Positions que “em lugar de interrogar somente sobre o conteúdo dos pensamentos, seria preciso também analisar a maneira como os textos são feitos”. E perceber, principalmente, que há “no romantismo e no romance”, usando as palavras de Pechman, “uma “intenção programática” de descrever o país, de interpretá-lo, e é esse caráter de exploração e levantamento do país que dá à ficção romântica importância capital como tomada de consciência da realidade brasileira no plano da arte” .   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje não há mais espaço para críticos ingênuos que acreditam que as obras literárias são apenas produtos de gênios solitários, escrevendo sem quaisquer interferências do meio onde vivem. Acreditar que os textos são apenas frutos de uma criatividade incondicional, como ainda algumas escolas modernas sugerem, é simplificar a complexidade do próprio processo criativo. Da mesma forma, deve-se ter cautela ao dizer que toda literatura clássica ocidental defendia o imperialismo e a colonização, como faz a literatura de resistência. Para alguns críticos, por exemplo, The Tempest pode ser estudado como um texto do Império Britânico, pertencente ao que Peter Hulme chama de “literatura do descobrimento”; e sendo assim, transformando Shakespeare em “um emblema de valores que o império britânico estava exportando para as partes desconhecidas do globo onde a civilização ainda estava por penetrar”.      &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é de se surpreender que a peça tenha se tornado uma espécie de panfleto para o império britânico até metade do século XX. Mas não se pode dizer com todas as letras que o próprio Shakespeare pretendia ser um veículo de propaganda colonizadora, estabelecendo deste modo uma cumplicidade total com “uma mitologia de colonização benevolente”. Ao contrário, Shakespeare “pretendeu fazer uma contribuição a um debate filosófico sobre colonização e relações de raças que já estavam emergindo na Europa de seu tempo” , como acredita Annabel Patterson..   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na realidade, pode-se dizer que o texto de Shakespeare poderia ter sido usado pelo Império Britânico como uma espécie de panfleto político mesmo após sua morte. Que Shakespeare se tornou um ícone da literatura ocidental ninguém nega, e seria perfeitamente possível que seu nome pudesse ser facilmente associado e usado com o propósito de justificar a superioridade européia em relação às novas raças das novas colônias. Como resultado disso, a leitura de um texto pode ser interpretada e usada de acordo com o propósito de alguém, ou como Said bem coloca, “cada obra cultural é a visão de um momento, e devemos justapor essa visão às várias revisões que depois ela gerou...”.  Além disso, mesmo que críticos modernos, como Annabel Patterson, não identifiquem traços de propaganda imperialista em The Tempest, não se pode, porém, deixar de reconhecer a existência de uma relação íntima entre literatura e política. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meados do século passado, por exemplo, o escritor inglês George Orwell, ao escrever obras, como 1984 e Animal Farm (Fazenda Animal), revela uma literatura com uma abordagem claramente crítica e política. Segundo ele, a linguagem é uma das ferramentas mais poderosas, e que pode facilmente ser usada pelo Estado como forma de controle, através da omissão da verdade. Além disso, Orwell deixa claro que literatura e política sempre caminharam lado a lado, como podemos observar em um de seus ensaios:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não gostar da política de um escritor é uma coisa. Não gostar dele porque ele te força a pensar é uma outra coisa, não necessariamente compatível com a primeira. Mas assim que você começa a falar sobre escritores “bons” e “ruins”, você está explicitamente referindo-se a uma tradição literária, e, conseqüentemente, deixando de fora outros valores totalmente diferentes. Então, o que seria um “bom” escritor? Shakespeare foi bom? A maioria das pessoas concorda que ele foi. No entanto, Shakespeare é, e talvez tenha sido, até mesmo para os padrões de seu próprio tempo, um escritor com tendências reacionárias; e  ele também é, sem dúvida, um escritor não acessível ao homem comum.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a literatura pode ser uma forma de controle, então não há dúvida de que em alguns textos a relação entre autor e leitor pode também ser marcada pelo controle daquele em relação a este. Na literatura de tese, por exemplo, cria-se uma relação de autoridade do autor para com o leitor, isto é, “no texto literário de tese, uma só maneira de ver as coisas é a “boa”, sendo errôneas todas as outras” , como afirma Heloisa Toller Gomes em Marcas da Escravidão. A capacidade interpretativa do leitor é excluída nesses tipos de literatura, e a “palavra autoral”, segundo Heloisa, “aliada à maneira como no texto estruturam-se os acontecimentos, esclarece o seu sentido (pretensamente único) e hierarquiza os sistemas de valores ali representados, orientando o leitor para que ele, então, efetue a interpretação “correta”.     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, os leitores devem fazer a “interpretação correta” dos fatos que estão sendo apresentados através dos olhos da mente de Macedo. As imagens produzidas não são feitas pelos leitores que o acompanham na viagem, mas transferidas diretamente para os olhos mentais daqueles, como se fossem um simples download de imagens e idéias, e que sem o auxílio de filtros, acabam processando as informações supostamente tidas como verdadeiras. Além do mais, o papel controlador de Macedo fica bastante nítido quando ele usa as digressões para dar uma “lição” de moral no leitor. Como bem observou Flora Sussekind, “é por vezes tão nítido esse papel “ordenador” do cronista que, a certa altura...chega a ensaiar desculpas retóricas dirigidas ao leitor-companheiro de viagem” . A “lição” de moral se faz necessária, pois Macedo não admite deixar seus leitores-passageiros dormirem durante a viagem. É preciso mantê-los acordados, para apreciarem a obra humana, e seus grandes feitos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, em cada igreja e palácio visitado por Macedo, percebe-se claramente uma intenção moralizante através de seu entusiasmo pelo “esplendor da monarquia”. Embora Macedo fale dos abusos cometidos pelos vice-reis no período colonial e da corte de D. João VI – ao criticar o sistema de patronato e as aposentadorias passivas –, não coloca em dúvida, em nenhum momento, a legitimidade da presença portuguesa no Brasil. Macedo fala com a autoridade de um europeu nascido numa terra distante, e ao falar do palácio, confirma essa tese quando diz que: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nas monarquias, o esplendor da majestade reflete sobre toda a nação, e a casa do monarca, o palácio do chefe do Estado, que atrai todas as visitas, que abre suas salas aos representantes das nações estrangeiras e a todos os cidadãos, deve ser grandioso como a idéia que representa. (p.25) &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Nota-se ainda que Macedo está mais preocupado com a imagem da nação, e principalmente com o suposto julgamento que “os representantes estrangeiros” fariam do Brasil. É preciso, portanto, lembrar que Macedo olha para o palácio como um viajante do tempo – o olhar de um europeu que acabou de conquistar a independência política em relação à antiga metrópole. Todavia, os “brasileiros” do Brasil colonial não se viam como tal, mas como portugueses nascidos em uma colônia de Portugal. O motivo pelo qual eles aqui estavam era exclusivamente a garantia do lucro que lhes renderiam, podendo, assim, retornar a Portugal com riqueza e poder. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, pode-se dizer que no período colonial, e mesmo após a independência política em 1822, os colonos brancos nunca tiveram uma verdadeira vontade de romper os laços entre colônia e metrópole. Ao falar dessa relação, Said cita o historiador conservador inglês D. K. Fieldhouse que, segundo este, isso se deu porque “a base da autoridade imperial foi a atitude mental do colono. Sua aceitação da subordinação – fosse num sentido positivo de comungar interesses com o Estado de origem, fosse pela incapacidade de conceber outra alternativa – deu durabilidade ao império”.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É mister dizer que Fieldhouse está se referindo aos colonos brancos nas Américas, como já fora mencionado mais acima. No Brasil colonial não foi diferente, já que os colonos que aqui estavam também faziam parte de um “comprometimento por causa do lucro”. Enquanto essa relação de interesses econômicos entre colono e colonizador rendia lucros para ambas as partes, não havia necessidade de rompimento com o sistema já estabelecido, pois o empreendimento imperial dependia da idéia de possuir um império. E esta era a mentalidade dos colonos da América, transformar seus territórios em futuros impérios. Os Estados Unidos hoje são um exemplo desta idéia de continuidade do império ocidental na América. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando novamente a atenção para o nosso condutor, vê-se que Macedo continua a se indignar com o desperdício de dinheiro do sistema de Patronato, que sempre acha “recursos financeiros para fazer presentes à custa da pátria amada”(25); enquanto que a construção de um palácio – obra de dever e patriotismo – sempre esbarra “diante do monstro chamado déficit”. Parece que os políticos modernos continuam a ouvir o eco do patriotismo macediano quando dizem que no Brasil não falta dinheiro para obras grandiosas, mas sim vontade política para fazê-las. Aliás, não foi com semelhante retórica que Juscelino Kubitschek conseguiu verbas para a construção de Brasília? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o passeio no tempo, que começa no final do século XVII e termina em meados do século XIX, verifica-se que as mudanças não foram muito perceptíveis. Ao falar das diferenças entre o patronato de outrora e o atual, Macedo mostra o seu lado irônico: “O patronato do outro tempo usava calções, e o da atualidade de calças”(32). Porém, mesmo criticando o patronato, Macedo demonstra uma atitude que nos dias de hoje é marca registrada do brasileiro: o conformismo. Para ele, o patronato sempre houve e sempre haverá, mas se conforma ao dizer que pelo menos o de “agora quem sofre pode levantar a voz, fazer-se ouvir, achar um eco na opinião pública, e muitas vezes consegue ver triunfante o seu direito...”(33). Se levarmos em consideração que a opinião pública é facilmente manipulável, então o eco pode acabar ressonando em ouvidos deficientes ou treinados para ouvirem somente o que for desejado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Um Passeio pela cidade do Rio de Janeiro, Macedo faz uma mescla de  histórias verídicas, como afirma no começo do livro, com as tradições populares “que abundam nos arquivos da imaginação”, e que fazem parte das poesias dos povos, pois “os meninos as aprendem de cor, os poetas as escutam cobiçosos, a terra da pátria se enfeita com elas”(43) Portanto, no seu projeto de dar forma ao corpo da cidade do Rio de Janeiro,  Macedo não pode agir com a frieza de um engenheiro ou arquiteto, fazendo apenas anotações e descrições físicas de monumentos, igrejas, praças e jardins. Ao contrário, ele quer mais do que dar forma a esta cidade, ele deseja humanizá-la; e com isso, fazer com que a cidade seja o verdadeiro coração do país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como as veias do corpo humano servem de ruas para o sangue circular, os leitores de Macedo também circulam pelas veias da cidade, que são as ruas. E ao longo do passeio eles são levados a prestar a atenção, não mais na vegetação estática da cidade, mas no movimento frenético das pessoas, comprovando assim, a existência de vida humana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, para tornar a sua narrativa ainda mais comovente e até mesmo verossímil, Macedo transforma personalidades históricas, como o vice-rei Luiz de Vasconcelos e mestre Valentim, em personagens fictícias, bem ao estilo romanesco como afirma fazer uso no começo do livro. E para valorizar a história do Passeio Público, por exemplo, Macedo não quer apenas apresentar uma documentação histórica do jardim, com datas do início e inauguração da grandiosa obra, mas “buscar no último quartel do século décimo oitavo o princípio da história desse jardim público” (51).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando pensamos que o nosso escritor-guia vai dar princípio a história do jardim, a narração é interrompida, e o leitor é mais uma vez, como de costume, envolvido em uma teia de informações; desta vez sobre o caos em que a capital se encontrava devido às fortes chuvas. E o resultado disso tudo é um problema que segue existindo até os dias de hoje: o rompimento de aquedutos das fontes públicas provocado pelas enchentes, deixando os habitantes sem água, e com uma terrível epidemia que abalou a “bela Sebastianópolis”. Antes mesmo que alguém dissesse o que isso teria de haver com a história do Passeio Público, Macedo se defende dizendo:  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez me acusem de prolixo e divagador por entrar em explicações que não têm relação alguma com a história do Passeio Público. É uma injustiça: convém guardar as lembranças que vou registrando, e que podem para o futuro prevenir confusões possíveis. (52) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As explicações se fazem necessárias para que Macedo possa construir a imagem do vice-rei Luiz de Vasconcelos de maneira positiva: um governante, como ele afirma, que “não desanimou”, e que “deu prontas e enérgicas providências para o abastecimento de água”, e que teve “força para ordenar uma série de obras importantes”. Na construção do personagem Luiz de Vasconcelos, Macedo exalta as qualidades de um administrador afável, cortês e bondoso, qualidades que conquistaram as simpatias do povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode-se dizer o mesmo de mestre Valentim, filho de um fidalgo português com uma brasileira, é valorizado por Macedo que via nele um artista tão talentoso quanto qualquer grande artista francês. A ênfase da amizade de mestre Valentim com o vice-rei Luiz de Vasconcelos, faz com que a construção do Passeio Público não tenha um caráter corriqueiro de uma relação meramente trabalhista entre os dois, mas, acima de tudo, um valor sentimental para a cidade do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E para dar a obra esse valor sentimental, Macedo cria uma “historieta” popular, bem ao estilo do romance dezenovesco, para mostrar que o Passeio Público foi inspirado no amor platônico de Luiz de Vasconcelos por uma bela jovem de origem humilde chamada Suzana. Macedo então nos conta que certo dia, o vice-rei e mestre Valentim estavam os dois juntos a cavalgar quando chegaram junto do Monte das Mangueiras. Ao olhar para a cidade do alto do morro, Luiz de Vasconcelos faz um comentário ao mestre Valentim, que reflete bem o imaginário do colonizador a respeito da cidade, e que vale a pena reproduzi-lo: “Temos montes demais na cidade, mestre. Eis aqui um outeiro que podia bem desaparecer, sendo substituído por uma rua”. Fica aqui claro o incômodo pela geografia da cidade do Rio de Janeiro, com suas montanhas e morros, bem diferente das grandes cidades européias, como Paris, modelo a ser copiado pelo colonizador.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando aos nossos ilustres brasileiros, o vice-rei convida então mestre Valentim para continuar o passeio a pé até chegarem à margem da lagoa do Boqueirão onde a jovem Suzana morava sozinha com sua avó em um modesto casebre. A partir desse momento, faz-se importante ressaltar que o relacionamento entre os dois passa a ser de cumplicidade, e nas palavras do próprio Luiz de Vasconcelos, ele reconhece que “não há aqui nem vice-rei nem artista: devemos supor que há somente dois curiosos um pouco apaixonados, um pouco imprudentes, mas em todo o caso honestos”.(55)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não soubéssemos que a história se passa na capital do império, e se o lêssemos destacados do restante da narrativa, poderíamos dizer de que se tratava de um uma poesia do arcadismo, ou mesmo do início do romantismo, pois o cenário campestre que os rodeia possui todas as características: dois apaixonados a beira de um lago, sentados por entre moitas de arbustos, ouvindo a balada que vinha da voz doce e melancólica de uma linda mulher. Sem dúvida, Macedo transforma uma aparente cena banal em um momento mágico, visto que ela transforma a figura imortal do poder de um vice-rei em um ser humano como qualquer um de nós, capaz de amar e de chorar por amor. “Os vice-reis também têm coração”, revela Luiz de Vasconcelos ao seu amigo artista.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mágica da narrativa de Macedo encontra seu clímax quando a bela Suzana revela ao seu primo e noivo Vicente que havia tido um sonho com o vice-rei. Esse demonstrando ciúme é logo acalmado por Suzana quando diz que sonhara na realidade com um gênio que tinha o rosto do vice-rei, mas que falava com os olhos, e fez surgir diante dela um lindo jardim no lugar da lagoa do Boqueirão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O gênio levou-nos para fora, e tirando dos ombros uma túnica cor Angélica que trazia, estendeu-a sobre a lagoa do Boqueirão, que, de  súbito, se transformou em um lindíssimo jardim. Depois, o gênio...a sombra foi-se esvaindo, até desaparecer de todo; e felizes, contentes, nós corremos como duas crianças travessas pelo jardim. (57)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Toda essa cena é ouvida pelo vice-rei Luiz de Vasconcelos e mestre Valentim. Este ainda consegue observar a emoção marcada pelas lágrimas daquele. No dia seguinte, Luiz de Vasconcelos nomeia o primo de Suzana subsecretário; dá ordens a um engenheiro para aterrar a lagoa do Boqueirão; e pede a mestre Valentim que, além de ficar responsável pela ornamentação do jardim, não se esquecesse de reproduzir um coqueiro do qual os dois bem sabiam o motivo. A historieta de Macedo termina desta forma, e se foi verdade ou não o que ele narrou, o importante é que a história que deu origem ao jardim foi fruto, não do gênio que apareceu para Suzana, mas da genialidade de Macedo. E mesmo que sofresse severas críticas por seu modo de relatar os acontecimentos históricos, Macedo afirma que jamais deixaria de passear, pois, segundo ele: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Esta historieta, tradição ou coisa que o valha, que aliás daria origem um pouco romanesca ao nosso Passeio Público, só poderia ter transpirado por uma indiscrição de mestre Valentim, ou porque Suzana houvesse adivinhado o segredo do gênio do seu sonho de moça. Em qualquer dos casos, acaba, porém, de um modo que não desmente, antes faz honra ao caráter generoso de Luiz de Vasconcelos. Se ainda assim não quiserem aceitar a tradição por lhe faltar seguro fundamento, roguem-me pragas  ou critiquem-me à vontade, que nem por isso deixarei de passear”. (58)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir de então, Macedo quebra o encanto do homem benevolente que envolvia a figura de Luiz de Vasconcelos, dando-o de volta a “bengala de vice-rei”, e transformando-o em um governante de caráter absoluto e violento. Para enfatizar os momentos de capricho e mau humor do vice-rei, Macedo dá uma amostra aos seus leitores-passageiros da arbitrariedade de Luiz de Vasconcelos quando um dia este descendo a ladeira do Monte da Conceição irrita-se com João Homem, que era levado em uma cadeirinha por dois escravos em direção ao alto do monte. O motivo era simples: os escravos exaustos por causa do forte calor, e porque João Homem era muito gordo e pesado para ser carregado por aqueles. O vice-rei não pensou duas vezes antes de tomar a seguinte atitude: &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mandou-os parar, fez sair da cadeirinha a João Homem, ordenou-lhe que tomasse o lugar de um dos negros, obrigou a este a ir sentar-se dentro da cadeirinha, e lá foi o senhor a carregar o escravo pela ladeira acima”. &lt;br /&gt;   - É para ensiná-lo a ser mais humano – disse o vice-rei. (59)  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota-se na passagem acima que a indignação de Macedo é para com o tratamento sofrido por João Homem. Em nenhum momento, ele coloca em dúvida o direito de João Homem de ser levado por seus escravos, mesmo que o sol estivesse escaldante, e que eles morressem de insolação. Mais uma vez, quando Macedo defende o “povo”, ele está excluindo os negros, os índios e os mestiços. O relato supracitado só reforça a tese de que Macedo só via como legítimos representantes do povo brasileiro, os portugueses ou filhos de portugueses de cor branca, como João Homem. Para Macedo, negros sendo explorados até a exaustão não era violento, nem vexatório, porém, um homem branco ter que carregar um negro até o alto do morro, como fez o vice-rei, isso sim era um abuso de poder e vergonhoso, como ele mesmo explica:  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Eu, porém, me empenhava em impedir que se confundisse o juízo que fiz das qualidades pessoais e dos serviços do vice-rei Luiz de Vasconcelos, com o juízo que faço daquele bárbaro sistema de governo, que abria espaço a tantos vexames, tantas violências e tanta opressão que envileciam o povo. (59) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixo agora de passear com nosso ilustre brasileiro, para concluir que mesmo sem dizer abertamente, a proposta de Macedo é ainda uma continuidade dos valores que foram impostos à base da força aos primeiros moradores desta terra de Santa Cruz. Em nenhum momento, escutamos a voz do índio, do negro ou do mestiço. Ah, sim, Suzana, a bela jovem que Luiz de Vasconcelos se encantou. Mas convenhamos que ela só serviu para dar mais sabor as aventuras do colonizador, e amenizar a truculência do processo colonial brasileiro. Basta lembrarmos da índia de José de Alencar que não teremos dificuldades para vermos as semelhanças. Em seu projeto patriótico, Macedo silencia toda e qualquer voz que não seja a do conquistador europeu. E para finalizar, retomo as palavras de George Orwell de que literatura e política são como dois espelhos, e quando colocados lado a lado, conseguimos ver em um a imagem do outro.     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BIBLIOGRAFIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  BHABHA, Homi. Narrating the Nation. Londres: Routledge, 1990.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. ______________. “Of Mimicry and Man: The Ambivalence of Colonial     Discourse” em: Modern Literary Theory: A Reader. Ed. Philip Rice and  Patricia Waugh. 2nd ed. Londres: Edward Arnold, 1992. p.234 – 241.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. CROSBY, Alfred, Ecological imperialism: The expansion of Europe, 900-1900. Cambridge: Cambridge University Press, 1986. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GOMES, Heloisa Toller. As Marcas da Escravidão: O Negro e o Discurso Oitocentista no Brasil e nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade; tradução: Thomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro – 3.ed.- Rio de Janeiro: DP&amp;A, 1999. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. HULME, Peter. “The Vaste and New World of America: English Literature of Discovery 1589 – 1852 – 1992.” em: Anais Do XXIV SENAPULLI. A Literatura dos Descobrimentos. UFPB, 1993. p.26 – 31.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro; Belo Horizonte: Garnier, 1991. p.17-76.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. PATTERSON, Annabel. Shakespeare and The Popular Voice. Cambridge: Basil Blackwell, 1989, p.154 – 162.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8. PECHMAN, Robert Moses. O corpo do país/O corpo da cidade/A crônica e os passeios pela cidade/Vozes da cidade. In: Cidades estreitamente vigiadas: o detetive e o urbanista. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002. p.165-191.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9. SAID, Edward W. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10. ------, Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11. SUSSEKIND, Flora. O “observador de costumes”/O cronista como viajante. In: O Brasil não é longe daqui. O narrador, a viagem. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 222-234.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12. THORNLEY, G. C. An Outline of English literature. Essex: Longman, 1995.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-7892812238900985901?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/7892812238900985901/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=7892812238900985901&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/7892812238900985901'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/7892812238900985901'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2012/02/macedo-e-cidade-do-rio-de-janeiro-um.html' title='Macedo e a cidade do Rio de Janeiro: um passeio pelo imaginário do colonizador'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-276615379515427843</id><published>2008-04-20T10:47:00.002-04:00</published><updated>2008-04-20T10:49:54.670-04:00</updated><title type='text'>Modelo de Resenha</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Resenha Crítica:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;ALVES-MAZZOTTI, Alda J., GEWANDSZNAJDER, Fernando. &lt;em&gt;O método nas ciências naturais e sociais; pesquisa quantitativa e qualitativa&lt;/em&gt;. 2. ed. São Paulo, Pioneira, 1999. 203 p.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;1. CREDENCIAIS DOS AUTORES:&lt;br /&gt;Alda Judith Alves Mazzotti é bacharel licenciada em Pedagogia, bacharel em Psicologia, Psicóloga, mestre em Educação, doutora em Psicologia da Educação, professora titular de Psicologia da Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e leciona a disciplina de Metodologia da Pesquisa em cursos de graduação e pós-graduação desde 1975. Outras obras:&lt;br /&gt;           ALVES-MAZZOTTI, Alda J., (1994). Do trabalho à rua: uma análise das representações sociais produzidas por meninos trabalhadores e meninos de rua. In Tecendo Saberes. Rio de Janeiro: Diadorim-UFRJ / CFCH.&lt;br /&gt;            _________ . (1996). Social representations of street children, resumo publicado nos Anais da Terceira Conferência Internacional sobre Representações Sociais, realizada em Aix-em- Provence.&lt;br /&gt;           Fernando Gewandsznajder é licenciado em Biologia, mestre em Educação, mestre em Filosofia e doutor em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Outras obras:&lt;br /&gt;           GEWANDSZNAJDER, Fernando. O que é o método científico. São Paulo: Pioneira,1989.&lt;br /&gt;           _________. A aprendizagem por mudança conceitual: uma crítica ao modelo PSHG. Doutoramento em Educação. Faculdade de Educação da UFRJ, 1995&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. RESUMO DA OBRA:&lt;br /&gt;O livro é constituído de duas partes, cada uma delas sob a responsabilidade de um autor, traduzindo sua experiência e fundamentação sobre o método científico, em abordagens que se complementam.&lt;br /&gt;          Na primeira parte, GEWANDSZNAJDER discute, em quatro capítulos, o método nas ciências naturais, apresentando conceitos básicos como o da lei, teoria e teste controlado.&lt;br /&gt;          No capitulo inicial há uma visão geral do método nas ciências naturais e um alerta sobre a não concordância completa entre filósofos da ciência sobre as características do método científico. Muitos concordam que há um método para testar criticamente e selecionar as melhores hipóteses e teorias. Neste sentido diz-se que há um método cientifico, em que a observação, a coleta dos dados e as experiências são feitas conforme interesses, expectativas ou idéias preconcebidas, e não com neutralidade. São formuladas teorias que devem ser encaradas como explicações parciais, hipotéticas e provisórias da realidade.&lt;br /&gt;          O segundo capítulo trata dos pressupostos filosóficos do método científico, destacando as características do positivismo lógico, segundo o qual o conhecimento factual ou empírico deve ser obtido a partir da observação, pelo método indutivo, bem como as críticas aos positivistas, cujo objetivo central era justificar ou legitimar o conhecimento científico, estabelecendo seus fundamentos lógicos e empíricos.&lt;br /&gt;          A partir das críticas à indução, o filósofo Karl Popper (1902- 1994) construiu o racionalismo crítico, sua visão do método cientifico e do conhecimento em geral, dizendo que ambos progridem através de conjecturas e refutações, sendo que a tentativa de refutação conta com o apoio da lógica dedutiva, que passa a ser um instrumento de crítica.&lt;br /&gt;          Apoiados em sua visão da história da ciência, Thomas Kuhn ( 1922- 1996) , Lakatos e Feyerabend, entre outros, criticam tanto Popper quanto os indutivistas, alegando que sempre é possível fazer alterações nas hipóteses e teorias auxiliares quando uma previsão não se realiza.&lt;br /&gt;          Kuhn destaca o conceito de paradigma como uma espécie de “teoria ampliada”, formada por leis, conceitos modelos, analogias, valores, regras para a avaliação de teorias e formulação de problemas, princípios metafísicos e “exemplares”. Tais paradigmas orientam a pesquisa cientifica; sua força seria tanta que determinaria até mesmo como um fenômeno é percebido pelos cientistas, o que explica por que as revoluções cientificas são raras: em vez de abandonar teorias refutadas, os cientistas se ocupam com a pesquisa cientifica orientada por um paradigma e baseada em um consenso entre especialistas.&lt;br /&gt;          Nos períodos chamados de “Revoluções Cientificas”, ocorre uma mudança de paradigma; novos fenômenos são descobertos, conhecimentos antigos são abandonados e há uma mudança radical na prática cientifica e na “visão de mundo” do cientista.&lt;br /&gt;          A partir do final dos anos sessenta, a Escola de Edimburgo, defende que a avaliação das teorias cientificas e seu próprio conteúdo são determinados por fatores sociais. Assume as principais teses da nova Filosofia da Ciência e conclui que o resultado da pesquisa seria menos uma descrição da natureza do que uma construção social.&lt;br /&gt;          O terceiro capítulo busca estimular uma reflexão crítica sobre a natureza dos procedimentos utilizados na pesquisa cientifica. Destaca que a percepção de um problema deflagra o raciocínio e a pesquisa, levando-nos a formular hipóteses e a realizar observações.&lt;br /&gt;          Importantes descobertas não foram totalmente casuais, nem os cientistas realizavam observações passivas, mas mobilizavam-se à procura de algo, criando hipóteses ousadas e pertinentes, o que aproxima a atividade cientifica de uma obra de arte.&lt;br /&gt;           Visando apreender o real, selecionamos aspectos da realidade e construímos um modelo do objeto a ser estudado. Mas isto não basta: há que se enunciar leis que descrevam seu comportamento. O conjunto formado pela reunião do modelo com as leis e as hipóteses constitui a teoria cientifica.&lt;br /&gt;          A partir do modelo, que representa uma imagem simplificada dos fatos, pode-se corrigir uma lei, enunciando outra mais geral, como ocorreu com Lavoisier, que estabeleceu os alicerces da química moderna.&lt;br /&gt;          No quarto capitulo, GEWANDSZNAJDER conclui a primeira parte da obra, comparando a ciência a outras formas de conhecimento, mostrando que tal distinção nem sempre é nítida e, que aquilo que atualmente não pertence à ciência, poderá pertencer no futuro.&lt;br /&gt;          Apresenta críticas a áreas cujos conhecimentos não são aceitos por toda a comunidade cientifica, como: paranormalidade, ufologia, criacionismo, homeopatia, astrologia.&lt;br /&gt;          Na maioria das vezes, o senso comum, formado pelo conjunto de crenças e opiniões, limita-se a tentar resolver problemas de ordem prática.&lt;br /&gt;          Assim, enquanto determinado conhecimento funcionar bem, dentro das finalidades para as quais foi criado, continuará sendo usado. Já o conhecimento cientifico procura sistematicamente criticar uma hipótese, mesmo que ela resolva satisfatoriamente os problemas para os quais foi concebida. Em ciência procura-se aplicar uma hipótese para resolver novos problemas, ampliando seu campo de ação para além dos limites de objetivos práticos e problemas cotidianos.&lt;br /&gt;          Na segunda parte do livro, Alves-Mazzotti discute a questão do método nas ciências sociais, com ênfase nas metodologias qualitativas, analisando seus fundamentos. Coloca que não há um modelo único para se construir conhecimentos confiáveis, e sim modelos adequados ou inadequados ao que se pretende investigar e que as ciências sociais vêm desenvolvendo modelos próprios de investigação, além de propor critérios para orientar o desenvolvimento da pesquisa, avaliar o rigor dos procedimentos e a confiabilidade das conclusões que não prescindem de evidências e argumentação sólida.&lt;br /&gt;          O capítulo cinco analisa as raízes da crise dos paradigmas, situando historicamente a discussão sobre a cientificidade das ciências sociais. Enfatiza fatos que contribuíram para estremecer a crença na ciência, como os questionamentos de Kuhn, nos anos sessenta, sobre a objetividade e a racionalidade da ciência e a retomada das críticas da Escola de Frankfurt, referentes aos aspectos ideológicos da atitude cientifica dominante.&lt;br /&gt;          Mostra que os argumentos de Kuhn, relativos à impossibilidade de avaliação objetiva de teorias cientificas, provocaram reações opostas, a saber: tomados às ultimas conseqüências, levaram ao relativismo, representado pelo “vale tudo” de Feyerabend e pelo construtivismo social da Sociologia do Conhecimento. De outro lado, tais argumentos foram criticados à exaustão, visando indicar seus exageros e afirmando a possibilidade de uma ciência que procure a objetividade, sem confundi-la com certeza.&lt;br /&gt;          E ainda, diversos cientistas sociais, mobilizados pelas críticas à ciência tradicional feitas pela Escola de Frankfurt, partindo de outra perspectiva, procuravam caminhos para a efetivação de uma ciência mais compromissada com a transformação social.&lt;br /&gt;          Em tal contexto, adquirem destaque nas ciências sociais, os modelos alternativos ao positivismo, como a teoria crítica, expondo o conflito entre o positivismo e a visão dialética. Esgotado o paradigma positivista, adquire destaque, na década de setenta, o paradigma qualitativo, abrindo espaço para a invenção e o estudo de problemas que não caberiam nos rígidos limites do paradigma anterior.&lt;br /&gt;          A discussão contemporânea propõe compromisso com princípios básicos do método cientifico, como clareza, consenso, linguagem formalizada, capacidade de previsão, conjunto de conhecimentos que sirvam de guia para a ação(modelos).&lt;br /&gt;          A análise das posições indica flexibilização dos critérios de cientificidade, preocupação com clareza do discurso cientifico permitindo crítica fundamentada, explicação e não apenas descrição dos fenômenos.&lt;br /&gt;          O capítulo seis apresenta aspectos relativos ao debate sobre o paradigma qualitativo na década de oitenta.&lt;br /&gt;          Inicialmente caracteriza a abordagem qualitativa por oposição ao positivismo, visto muitas vezes de maneira ingênua.&lt;br /&gt;          Wolcott denuncia a confusão na área, Lincoln e Guba denominam o novo paradigma de construtivista e Patton capta o que há de mais geral entre as modalidades incluídas nessa abordagem, indicando que seguem a tradição compreensiva ou interpretativa.&lt;br /&gt;          Na Conferência dos Paradigmas Alternativos, em 1989, são apresentados como sucessores do positivismo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Construtivismo Social, influenciado pelo relativismo e pela fenomenologia, enfatizando a intencionalidade dos atos humanos e privilegiando as percepções. Considera que a adoção de teorias a priori  na pesquisa turva a visão do observado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pós – positivismo - Defende a adoção  do método científico nas ciências sociais, preferindo   modelos experimentais com teste  de hipóteses, tendo como objetivo último a formulação   de teorias explicativas de relações causais..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teoria Crítica, onde o termo assume, pelo menos, dois sentidos distintos: (1)Análise rigorosa da argumentação e do método; (2)Ênfase na análise das condições   de  regulação social, desigualdade e poder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os teóricos – críticos enfatizam o papel da ciência na transformação da sociedade, embora a forma de envolvimento do cientista nesse processo de transformação seja objeto de debate. Ao contrário dos construtivistas e  dos pós-positivistas, questionam a dicotomia objetivo/subjetivo, implicando oposições, declarando que  esta  é uma simplificação   que, em vez de esclarecer confunde. Para eles subjetividade não é algo a ser expurgado da pesquisa, mas que precisa ser admitido e compreendido como parte da construção dos significados inerente às relações sociais que se estabelecem no campo pesquisado. Tem que ser entendida como sendo determinada por múltiplas relações  de poder e interesses de classe, raça gênero, idade e orientação sexual. Conceito que deve ser discutido em relação à consciência e às relações de poder que envolvem tanto o pesquisador   como os pesquisados.&lt;br /&gt;          Como organizador da citada conferência, Guba retratou as ambigüidades, confusões e discordâncias existentes, visando estimular a continuação das discussões. A diferença entre as três posições reside na ênfase atribuída e, especialmente, nas conseqüências derivadas  dessas questões:o papel da teoria, dos valores e a subdeterminação da teoria.&lt;br /&gt;          Na prática, observa-se com freqüência a coexistência de características atribuídas a diferentes paradigmas.&lt;br /&gt;          No capítulo sete estuda-se o planejamento de pesquisas qualitativas, discutem-se alternativas e sugestões, acompanhadas de exemplos que auxiliam o planejamento e desenvolvimento de pesquisas.&lt;br /&gt;          Ao contrário das quantitativas, as investigações qualitativas não admitem regras precisas, aplicáveis a uma infinidade de casos, por sua diversidade e flexibilidade. Diferem também quanto aos aspectos que podem ser definidos no projeto. Enquanto os pós-positivistas trabalham com projetos bem detalhados, os construtivistas sociais defendem um mínimo de estruturação prévia, definindo os aspectos referentes à pesquisa, no decorrer do processo de investigação.&lt;br /&gt;          Para a autora, um projeto de pesquisa consiste basicamente em um plano para uma investigação sistemática que busca uma compreensão mais elaborada de determinado problema.&lt;br /&gt;          Seja qual for o paradigma em que está operando, o projeto deve indicar: o que se pretende investigar; como se planejou conduzir a investigação; porque o estudo é relevante.&lt;br /&gt;          Encerrando a obra, o capítulo oito trata da revisão da bibliografia, destacando dois aspectos pertinentes à pesquisa: (1) análise de pesquisas anteriores sobre o mesmo tema e ou sobre temas correlatos; (2) discussão do referencial teórico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo a produção do conhecimento uma construção coletiva da comunidade científica, o pesquisador formulará um problema, situando-se e analisando criticamente o estado atual do conhecimento em sua área de interesse, comparando e criticando abordagens teórico-metodológicas e avaliando o peso e confiabilidade de resultados de pesquisas, identificando pontos de consensos, controvérsias, regiões de sombra e lacunas que merecem ser esclarecidas. Posicionar-se-á quanto ao referencial teórico a ser utilizado e seguirá o plano estabelecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. CONCLUSÃO DA RESENHISTA:&lt;br /&gt;    De um modo geral, os autores apóiam-se em diversos estudiosos para emitir suas conclusões. Numa das poucas oportunidades em que declara suas próprias idéias, GEWANDSZNAJDER nos lembra que a decisão de adotar uma postura crítica, de procurar a verdade e valorizar a objetividade é uma decisão livre. Alerta-nos que determinadas escolhas geram conseqüências que poderão ser consideradas indesejáveis pelo sujeito ou pela comunidade. Supondo, num exemplo extremo, que se decida “afrouxar” os padrões da crítica a ponto de abandonar o uso de argumentos e a possibilidade de corrigir-se os próprios erros com a experiência, não mais distinguiríamos uma opinião racional, conseqüência de ponderações, críticas e discussões que consideram diferentes posições, de um simples preconceito, que se utiliza de conceitos falsos para julgar pessoas pelo grupo a que pertencem, levando a discriminações.&lt;br /&gt;          Também aqui sua conclusão apóia-se em um autor: “Finalmente como diz Popper, se admitimos não ser possível chegar a um consenso através de argumentos, só resta o convencimento pela autoridade. Portanto, a falta de discussão crítica seria substituída por decisões autoritárias, soluções arbitrárias e dogmáticas – e até violentas – para se decidir uma disputa”  (pág 64).&lt;br /&gt;          Com este discurso, incentiva-nos a reagir à acomodação e falsa neutralidade, mostrando nossa responsabilidade em tudo que fazemos e criamos, pois a decisão final será sempre um ato de valor e pode ser esclarecida pelo pensamento, através da análise das conseqüências posições de determinada decisão.&lt;br /&gt;          Respaldando, ainda, suas opiniões em autores de peso, destaca que a história da ciência mostra que nas revoluções científicas não há mudanças radicais no significado de todos os conceitos, sendo utilizada uma linguagem capaz de ser compreendida por ambos os lados.&lt;br /&gt;          Enfatiza que a maioria dos problemas estudados pelos cientistas surge a partir de um conjunto de teorias científicas que funciona como um conhecimento de base. E é este conhecimento de base que procura nos fornecer, deixando claro que a formulação e resolução de problemas só podem ser feitas por quem tem um bom conhecimento das  teorias científicas de sua área. Completa dizendo que um bom cientista não se limita a resolver problemas, mas também formula questões originais e descobre problemas onde outros viam apenas fatos banais, pois “os ventos só ajudam aos navegadores que têm um objetivo definido”.(pág. 66)&lt;br /&gt;          Alves – Mazzotti, esclarece que os teórico-críticos enfatizam o papel da ciência na transformação da sociedade, apesar da forma de envolvimento do cientista nesse processo de transformação como objeto de debate. Complementa com a posição de diferentes autores sobre cientistas sociais, parceiros na formação de agendas sociais através de sua prática científica, sendo esse envolvimento e a militância política questões distintas. Enfatiza que a diferença básica entre a teoria crítica e as demais abordagens qualitativas está na motivação política dos pesquisadores e nas questões sobre desigualdade e dominação que, em conseqüência, permeiam seus trabalhos.&lt;br /&gt;          Coerente com essas preocupações, a abordagem crítica é essencialmente relacional: busca investigar o que ocorre nos grupos e instituições relacionando as ações humanas com a cultura e as estruturas sociais e políticas, procurando entender de que forma as redes de poder são produzidas, mediadas e transformadas. Parte do pressuposto de que nenhum processo social pode ser compreendido de forma isolada, como instância neutra, acima dos conflitos ideológicos da sociedade. Ao contrário, estão sempre profundamente ligados, vinculados, às desigualdades culturais, econômicas e políticas que dominam nossa sociedade.&lt;br /&gt;          Os autores concluem que coexistem atualmente diferentes linhas filosóficas acerca da natureza do método cientifico, o que também é válido em relação aos critérios para avaliação das teorias cientificas. Concordam, também, que a pesquisa nas ciências sociais se caracteriza por uma multiplicidade de abordagens, com pressupostos, metodologias e estilos diversos.&lt;br /&gt;          Finalmente, deixam claro que o uso do método científico não pode ser considerado de maneira independente dos conceitos ou das bases teóricas, implícita ou explicitamente, envolvidos na pesquisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. CRÍTICA DA RESENHISTA:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A obra fornece subsídios à nossa pesquisa científica, à medida que trata dos principais autores/protagonistas da discussão/construção do método cientifico na história mais recente, reportando-se a esclarecimentos mais distantes sempre que necessário.&lt;br /&gt;          Com sólidos conhecimentos acerca do desenrolar histórico, os autores empenham-se em apresentar clara e detalhadamente as circunstâncias e características da pesquisa cientifica, levando-nos a compreender as idéias básicas das várias linhas filosóficas contemporâneas, bem como a descobrir uma nova maneira de ver o que já havia sido visto, estudado.&lt;br /&gt;          É uma leitura que exige conhecimentos prévios para ser entendida, além de diversas releituras e pesquisas quanto a conceitos, autores e contextos apresentados, uma vez que as conclusões emergem a partir de esclarecimentos e posições de diversos estudiosos da ciência e suas aplicações e posturas quanto ao método científico.&lt;br /&gt;          Com estilo claro o objetivo, os autores dão esclarecimentos sobre o método cientifico nas ciências naturais e sociais, exemplificando, impulsionando reflexão crítica e discussão teórica sobre fundamentos filosóficos. Com isso auxiliam sobremaneira a elaboração do nosso plano de pesquisa.&lt;br /&gt;          Os exemplos citados amplamente nos auxiliam na compreensão da atividade científica e nos possibilitam analisar e confrontar várias posições, a fim de chegarmos à nossa própria fundamentação teórica, decidindo-nos por uma linha de pesquisa. Mostram-nos a imensa possibilidade de trabalhos que existe no campo da ciência, além de nos encaminhar para exposições mais detalhadas a respeito de determinados tópicos abordados, relacionando autores e bibliografia específicas.&lt;br /&gt;          Finalmente, com o estudo dessa obra, podemos amadurecer mais, inclusive para aceitar e até solicitar crítica rigorosa, que em muito pode enriquecer nosso trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. INDICAÇOES DA RESENHISTA:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A obra tem por objetivo discutir alternativas e oferecer sugestões para estudantes universitários e pesquisadores, a fim de que possam realizar, planejar e desenvolver as próprias pesquisas, na graduação e pós-graduação, utilizando-se do rigor necessário à produção de conhecimentos confiáveis. É de grande auxilio, principalmente, àqueles que desenvolvem trabalhos acadêmicos no campo da ciência social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se trata de um simples manual, com passos a serem seguidos, mas um livro que apresenta os fundamentos necessários à compreensão da natureza do método científico, nas ciências naturais e sociais, bem como diretrizes operacionais que contribuem para o desenvolvimento da atitude crítica necessária ao progresso do conhecimento.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joana Maria Rodrigues Di Santo é Psicopedagoga experiente, com atuação significativa em Psicopedagogia Institucional, Coordenadora de Ensino Médio e Fundamental, Supervisora aposentada do Município de São Paulo, Mestre em Educação, profere palestras e assessora diversas escolas.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-276615379515427843?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/276615379515427843/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=276615379515427843&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/276615379515427843'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/276615379515427843'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2008/04/modelo-de-resenha.html' title='Modelo de Resenha'/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-3633998047864767108</id><published>2007-10-14T09:16:00.000-04:00</published><updated>2007-10-14T09:33:54.347-04:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O QUE OS HOMENS QUEREM? “A MULHER PERFEITA”: Subvertendo estereótipos em &lt;em&gt;M. Butterfly&lt;/em&gt;, de David Henry Hwang&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;                                                                                    Cláudio Luís Serra Martins (Mestre - UERJ)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a peça &lt;em&gt;M. Butterfly&lt;/em&gt; de David Henry Hwang foi encenada pela primeira vez na Broadway (Nova York) em 1988, muitas pessoas pensaram que iriam ver mais uma versão da ópera Madama Butterfly, escrita em 1904, por Giacomo Puccini: a clássica história de amor entre o marine norte-americano Pinkerton, e a bela e jovem japonesa Cio-Cio-San, também conhecida como Butterfly. Esta ao ser abandonada por Pinkerton, acaba “morrendo de amor” (MENDONÇA, 1992, p.5)  como uma personagem Flaubertiana, que acredita na promessa do ideal romântico de caráter católico e burguês do século dezenove; ambientado em um cenário exótico que traduzia bem a fascinação de europeus e americanos pela arte e cultura japonesas encorajados, principalmente, pela abertura dos portos japoneses ao comércio ocidental por volta de 1860.&lt;br /&gt;No entanto, o Oriente retratado na peça de Hwang, não é exatamente o lugar exótico e místico, cujos habitantes ingênuos “necessitam da ajuda” do Ocidente, detentor do conhecimento e escolhido pelo poder divino para levar a civilização até eles. Ao contrário, Hwang expõe um Oriente que foi, na visão de Edward Said, renomado crítico literário americano, “orientalizado não só porque se descobriu que ele era “oriental” em todos aqueles aspectos considerados como lugares-comuns por um europeu médio do século XIX, mas também porque podia ser – isto é, permitia ser – feito oriental” (SAID, 1995, P.17)&lt;a title="" style="mso-endnote-id: edn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18759176#_edn1" name="_ednref1"&gt;[1]&lt;/a&gt;. O colonizador ao orientalizar o Oriente, domestica o conhecimento deste para o Ocidente, definindo e corrigindo o Oriente através de um discurso meramente europeu.&lt;br /&gt;É importante ressaltar aqui que Song Liling, a personagem oriental de Hwang em &lt;em&gt;M. Butterfly&lt;/em&gt;, tem consciência deste “feito oriental” e dos estereótipos criados pelo Ocidente com todos os paradigmas etnocêntricos e sexistas. Em conseqüência, este conhecimento faz com que ela permita, e manipule para benefício próprio, a existência deste Oriente imaginário com suas fantasias favoritas. Quando Gallimard, após assistir a encenação da ópera de Puccini, demonstra sua admiração pela bela história, pelo “sacrifício puro” da protagonista, Song comenta ironicamente: “É uma de suas fantasias favoritas, não é? A mulher oriental submissa e o homem branco cruel”&lt;a title="" style="mso-endnote-id: edn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18759176#_edn2" name="_ednref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;David Henry Hwang, o dramaturgo em questão, também tem amplo conhecimento dos estereótipos associados à cultura oriental. Filho de imigrantes chineses, Hwang nasceu em Los Angeles, e formou-se na Universidade de Stanford em 1979. Mas já em 1978, ele já tinha escrito sua primeira peça, &lt;em&gt;FOB&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;Fresh Off the Boat&lt;/em&gt;), que gira em torno de problemas enfrentados por imigrantes chineses ao tentarem se adaptar à cultura norte-americana, ganhando o prêmio Obie, em 1981, como melhor peça da temporada. Hwang fez curso de Teatro na Yale School durante o período entre 1980 e 1981. Ainda no mesmo ano em que foi premiado, Hwang escreveu mais duas peças promissoras, &lt;em&gt;The Dance and the Railroad and Family Devotions&lt;/em&gt;, ambas também baseadas nos problemas dos imigrantes, muitas vezes divididos entre assimilar e evitar a assimilação de uma nova cultura. Hwang continuou a escrever e dirigir para o teatro durante toda a década de 80, sempre com a preocupação de explorar questões concernentes à raça, gênero e cultura. Porém seu grande sucesso na Broadway ocorreu em 1988, com a encenação de &lt;em&gt;M. Butterfly&lt;/em&gt;, o que lhe rendeu não somente o prêmio Tony por melhor peça, mas também a inclusão de seu nome entre os grandes dramaturgos americanos contemporâneos.&lt;br /&gt;Em &lt;em&gt;M. Butterfly&lt;/em&gt;, Hwang mistura de uma forma pós-moderna, ficção com acontecimentos reais. O jornal The New York Times, de maio de 1986, publicou uma matéria a respeito de um funcionário do governo francês, Bernard Bouriscot, que foi julgado e condenado à prisão por espionagem. Durante vinte anos, Bouriscot mantivera um relacionamento com uma atriz chinesa, sem saber que ela era, além de espiã, um homem travestido de mulher. Ao se defender das acusações, Bouriscot afirmou nunca ter visto sua “namorada” nua, mas que havia aceitado esse fato inusitado por pensar que “ela era muito modesta... e por considerar um costume chinês”. Esse relato que certamente testa nossa credibilidade, incitou a curiosidade de Hwang, que procurando um ângulo para sua peça concluiu que Bouriscot “provavelmente pensou que tivesse encontrado a Madame Butterfly”. No posfácio, Hwang explica que optando por uma desconstrução da ópera de Puccini, encontrou o núcleo de sua peça onde “o francês fantasia que ele é Pinkerton e sua amante é a Butterfly”(95).&lt;br /&gt;Hwang deixa claro que o propósito da peça não é documentar a “verdade” sobre o caso Bouriscot mas dramatizar o choque entre as culturas Ocidental e Oriental. Através de M. Butterfly, Hwang desmistifica e desconstrói por inteiro uma visão distorcida de um Oriente visto ao longo de mais de dois séculos como submisso, frágil e impotente diante de um Ocidente forte e soberano.           &lt;br /&gt;Se o Oriente tem sido visto pelo Ocidente desta forma, o que faz então os ocidentais acreditarem que o Ocidente é diferente do Oriente? Por que crescem acreditando que o Oriente é exótico e místico? De onde vem esta idéia pré-concebida de que o Oriente é frágil e submisso? São estas perguntas que levaram o sino-americano David Henry Hwang a escrever esta peça, em uma tentativa de explorar o imaginário da sociedade ocidental da segunda metade do século XX, que obviamente incorporou todos os estereótipos mencionados acima através de um longo processo de propaganda colonizadora, internalizando assim a visão do Oriente como um lugar “diferente”, irracional, depravado, infantil e principalmente, exótico. Entretanto, o Ocidente é visto pelos próprios ocidentais de uma forma totalmente oposta. O colonizador é, portanto,  racional, virtuoso, maduro e “normal”. É fácil chamar de exótico algo que não conhecemos, fazer projeções imaginárias sobre o desconhecido, e até transformar o Oriente numa espécie de criação utópica do Ocidente.&lt;br /&gt;Em cima desta imaginação, vários romances, poemas e estudos sobre a cultura dos povos orientais começaram a despertar e fascinar, principalmente a partir do século XIX, uma Europa prepotente e imperialista que acabou criando e consolidando uma visão hegemônica de domínio geográfico sobre o Oriente. Estudiosos que passaram a ser chamados de Orientalistas – detentores do conhecimento da cultura oriental que, de certo modo, criam o Oriente, o oriental e seu mundo – passaram a validar o poder europeu-atlântico sobre o Oriente. Este discurso verídico sobre o Oriente ficou conhecido como orientalismo, e seu estudo foi submetido ao “imperialismo, ao positivismo, ao utopismo, ao historicismo, ao darwinismo, ao racismo, ao freudismo, ao marxismo, ao spenglerismo” (SAID, 1995, p.53).&lt;br /&gt;Em nenhum momento o Oriente é visto de forma igualitária e sem preconceitos por estes orientalistas. Além disso, a ocupação e colonização das terras conquistadas, por britânicos e franceses, por exemplo, precisavam de homens “especialistas” em Oriente. E é claro que, através de seus supostos conhecimentos, o domínio colonial passava a ter aparentemente um caráter de “ajuda” a povos que não tinham capacidades para o autogoverno. O discurso de Arthur James Balfour em 13 de junho de 1910 na Câmara dos Comuns em favor da presença britânica no Egito ilustra claramente esta atitude paternalista:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Antes de mais nada, considerem os fatos em questão. Assim que surgem para a história, as nações ocidentais demonstram aquelas capacidades incipientes para o autogoverno. [...] tendo méritos próprios. [...] Pode-se olhar para o conjunto da história dos orientais no que é chamado, falando de maneira geral, de leste, sem nunca encontrar traços de autogoverno. Todos os séculos grandiosos desses países – e eles foram muito grandiosos – foram vividos sob despotismos, sob governos absolutos. Todas as suas grandiosas contribuições para as civilizações – e elas foram grandiosas – foram feitas sob essa forma de governo. Um conquistador sucedia a outro conquistador; uma dominação seguia a outra; mas nunca, em todas as reviravoltas da sina e da fortuna, se viu uma dessas nações, de modo próprio, estabelecer o que nós, de um ponto de vista ocidental, chamamos de autogoverno. Esse é o fato. Não é uma questão de superioridade ou de inferioridade. Suponho que um verdadeiro sábio oriental diria que o governo funcional que assumimos no Egito e em outros lugares não é uma obra digna de um filósofo – que essa obra é o trabalho sujo, o trabalho inferior, de desempenhar as tarefas necessárias. (IDEM, p.43)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, o argumento deste alto funcionário do império britânico reforça muito bem a tese de que o conhecimento de uma “civilização desde as suas origens à sua plenitude e declínio” ajuda e vem ajudando até hoje a manutenção do poder de uma nação sobre a outra. Mesmo que este conhecimento seja uma fabricação com o intuito de manipular e dominar.&lt;br /&gt;É importante salientar que a expansão ultramarina fez com que os europeus tivessem contato com povos que tinham cultura e hábitos diferentes dos seus, e a partir daí, tentaram, então, entender e explicar o desconhecido, o diferente, porém sempre com olhares de superioridade e preconceitos, sempre diminuindo e menosprezando todos aqueles não-europeus, e de fato, como diz Said, "pode ser argumentado que o principal componente na cultura européia é precisamente o que torna essa cultura hegemônica tanto na Europa quanto fora dela: a idéia da identidade européia como sendo superior em comparação com todos os povos e culturas não-europeus.(p.19)".  Esta visão utópica do mundo já pode ser observada no século dezesseis através da obra &lt;em&gt;Utopia&lt;/em&gt;, de Thomas More. Mesmo sendo considerado um humanista, More não esconde sua ideologia imperialista ao escrever que:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Se os nativos não fizerem o que lhes for mandado, eles serão expulsos da área demarcada para anexação. Se eles tentarem resistir, os utopianos declaram guerra – pois eles consideram a guerra perfeitamente justificável, quando um país nega ao outro o direito natural de uso de qualquer solo do qual os proprietários originais não estão fazendo uso, mas meramente retendo-o como um pedaço de terra improdutiva.&lt;/em&gt;&lt;a title="" style="mso-endnote-id: edn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18759176#_edn3" name="_ednref3"&gt;&lt;em&gt;[3]&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt; &lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Para Thomas More é, portanto, “perfeitamente justificável” a declaração de guerra contra aqueles que não aceitavam ceder suas terras pacificamente. Além disto, um outro fator que merece atenção nesta passagem é a forma natural com que More expõe a conquista da propriedade alheia, chamando-a de “terras improdutivas”. Analisando atentamente este texto tão eloqüente e persuasivo, que muito influenciou na formação de idéias socialistas, podemos dizer que Thomas More não estava se referindo a grupos de sem-terras que não tem lugar para produzir e como sustentar suas famílias, mas sim a grupos que usam o termo acima como desculpa para conquistar e aumentar ainda mais suas possessões territoriais.&lt;br /&gt;Em outras palavras, podemos dizer que &lt;em&gt;Utopia&lt;/em&gt; é uma forma embrionária do que veio a ser chamado mais tarde de imperialismo. Tudo na história humana tem suas raízes na terra, e como afirma Edward Said em &lt;em&gt;Cultura e Imperialismo&lt;/em&gt;, “o que significa que devemos pensar sobre a habitação, mas significa também que as pessoas pensaram em ter mais territórios, e precisaram, portanto, fazer algo em relação aos habitantes nativos.”(p.37)&lt;br /&gt;É desta forma então, que o Oriente é apresentado para o Ocidente, ele “não está meramente lá”, como diz Edward Said, “assim como o próprio Ocidente não está apenas lá”. O Oriente e o Ocidente são fabricados pelo homem, “orientalizados”, melhor dizendo, assim como fato e ficção caminham lado a lado. Através do orientalismo, o conhecimento do Oriente, e as coisas orientais são colocadas em sala de aula e no tribunal; é feito então, uma espécie de manual do Oriente que será “estudado, julgado, disciplinado ou governado”(IDEM, p.51).&lt;br /&gt;Este conhecimento, reforçado pelo domínio colonial, será então disseminado e explorado por todas as áreas de interesse, seja ele, econômico, político, social e até mesmo pela literatura com as obras de Nerval, Defoe, Shakespeare, Kipling, Conrad, e Flaubert. Este, por exemplo, em uma de suas viagens ao Egito, conheceu a dançarina egípcia, Kuchuk Hanem, que veio a ser sua amante. Para Said, ela se tornou o protótipo de várias personagens femininas dos romances de Flaubert, principalmente em &lt;em&gt;Salamnbô&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Salomé&lt;/em&gt;, que refletem o modelo de mulher oriental, com todos os seus encantos e mistérios. &lt;br /&gt;Vale acrescentar aqui que a Butterfly de Puccini teve ainda a influência de versões anteriores, como a do diretor nova iorquino David Belasco, que inspirado pelo sucesso do conto &lt;em&gt;Madame Butterfly&lt;/em&gt; (1898) de John Luther Long, produziu juntamente com este em 1900, a representação teatral do mito de Madame Butterfly&lt;a title="" style="mso-endnote-id: edn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18759176#_edn4" name="_ednref4"&gt;[4]&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Os clássicos da literatura ocidental terão, muitas vezes, um papel panfletário, dando legitimidade à idéia de superioridade européia de que os povos nativos perdem suas identidades, sendo totalmente descaracterizados e até mesmo vistos como subhumanos. Esta visão distorcida do nativo canibal, com aparência monstruosa, serviu como desculpa para defender a invasão e até mesmo, em alguns casos, o extermínio de povos inteiros. Personagens clássicos como Calibã, na peça &lt;em&gt;The Tempest&lt;/em&gt; de Shakespeare, e Sexta-Feira na novela &lt;em&gt;Robinson Crusoé&lt;/em&gt; de Daniel Defoe, refletem esta visão que ajudou e muito, no fortalecimento da construção de uma relação, sempre baseada na submissão entre colonizador e colonizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, a literatura produzida sobre o Oriente torna muito difícil a distinção entre o que é real e o que é imaginário, ou melhor dizendo, o que é Oriente e Ocidente, visto que ambos são constantemente idealizados. Como diz Edward Said, “o Oriente é uma idéia que tem uma história e uma tradição de pensamento, imagística e vocabulário que lhe deram realidade e presença no e para o Ocidente. As duas entidades geográficas, desse modo, apóiam e, em certa medida, refletem uma à outra” (p.17).              &lt;br /&gt;Visto por esse ângulo, em &lt;em&gt;M.Butterfly&lt;/em&gt;, Hwang – ao contrário de Flaubert que é envolvido pelos conceitos tradicionais de Oriente – transforma essa idéia em uma história que brinca com o real e o imaginário ocidental. Revela o que está por detrás da névoa densa criada por anos de colonização e que vem impedindo o Ocidente de ver com clareza o que está bem a sua frente. &lt;br /&gt;Na peça de Hwang, o Ocidente está personificado no papel do Diplomata francês, René Gallimard, nascido e moldado dentro dos padrões ocidentais de conduta humana. Com uma visão distorcida do Oriente, Gallimard acaba se apaixonando, não por uma pessoa, mas por uma projeção, o que David Hwang chama de “estereótipo de fantasia”. Na peça, o dramaturgo vai ainda mais longe, levantando não somente questões concernentes à fantasia do indivíduo, mas também questões que revelam uma visão coletiva estereotipada do Oriente pelo Ocidente, das mulheres asiáticas pelos homens ocidentais. Segundo o próprio Hwang, estes estereótipos fabricados pelo Ocidente tornam “a ‘impossível’ história de um francês ludibriado por um homem chinês travestido como uma mulher... perfeitamente explicável; Hwang acrescenta ainda que “dado o grau de incompreensão entre homens e mulheres, e também entre Oriente e Ocidente era praticamente inevitável que um equívoco dessa magnitude viesse acontecer um dia”(98).&lt;br /&gt;Apesar de alguns críticos encararem a peça como uma acusação, como a conclusão de James S. Moy de que “a acusação de Hwang ao Ocidente é clara” (COOPERMAN, 1996, p.167), Cooperman argumenta que na realidade, Hwang busca oferecer uma visão equilibrada. Em&lt;em&gt; M. Butterfly&lt;/em&gt;, ele demonstra que o “Oriente também tem uma visão distorcida do Ocidente”(DI GAETANI, 1991, p.165), acrescentando ainda, que o Oriente é tão “culpado ou igualmente cúmplice desta forma dupla de estereótipo cultural”. Para representar o lado oriental, Hwang apresenta ao público / leitor a personagem Song Liling, que encoraja todas as visões distorcidas européias da “mulher oriental como sendo passiva e totalmente submissa”(p.95). &lt;br /&gt;Pode-se dizer que em &lt;em&gt;M. Butterfly&lt;/em&gt;, René Gallimard acredita fielmente nos estereótipos acima mencionados, e com isso vai em busca da mulher perfeita. Essa busca, porém, envolve sempre uma constante tensão com a realidade. Tensão esta que pode fazer o público / leitor pensar e discutir sobre os limites da fantasia dos seres humanos. E como resultado desta discussão, algumas questões podem ser levantadas: Até onde podemos sonhar? Até onde nos é permitido sonhar? Ou ainda, o que nos faz sonhar?&lt;br /&gt;René Gallimard ousou sonhar, pois ele acreditou na imagem pré-estabelecida do Ocidente em relação ao Oriente. Entretanto, em &lt;em&gt;M. Butterfly&lt;/em&gt;, David Hwang demonstra que na fronteira entre a realidade e a fantasia está a morte. E de fato, a morte é a punição para aqueles que optam pela fantasia ao invés da realidade.&lt;br /&gt;Tal qual um escritor que cria personagens fictícios, sem compromisso com a verdade ou com o real, René Gallimard projeta em Song Liling a sua mulher perfeita, a sua própria criação. E ele termina a peça, como um escritor consciente de sua criação, ao negar que esta é um homem, e ao dizer no final: “Meu nome é René Gallimard – também conhecido como Madame Butterfly”(p.93). René Gallimard reconhece que “o amor distorceu [seu] julgamento, cegou [seus] olhos, marcou [seu] rosto... até que [ele] ao olhar no espelho visse nada além de... uma mulher”(p.92). Desta vez, a visão da mulher Oriental idealizada sacrificando-se pelo amor de um homem, é substituída pelo sacrifício de Gallimard por sua fantasia.   &lt;br /&gt;Esta inversão de identidades na peça traz à tona uma nova discussão sobre a sexualidade, e de como ela é atribuída pelo Ocidente ao Oriente. Esta visão de um Oriente feminino, onde as palavras-chave são fragilidade e submissão, é totalmente desmascarada por Hwang. A visão de feminilidade de Gallimard é, portanto, relacionada com a submissão, passividade e fragilidade. Este personifica o “Ocidente achando-se masculino – armas grandes, indústria grande, dinheiro grande” enquanto Song Liling personifica o Oriente como “feminino – fraco, delicado, pobre... mas bom em arte, e cheio de sabedoria – a mística feminina”(p.83).&lt;br /&gt;Podemos ainda dizer que o Oriente exótico mencionado no começo deste trabalho, como frágil e submisso, reflete claramente o que Said chama de orientalismo, ou seja, os estudos sobre o Oriente apenas aumentam a distância entre Ocidente e Oriente. E visto desta forma, em M. Butterfly é possível traçar um paralelo entre a visão de feminilidade de Gallimard e a visão de orientalismo dos europeus. Em ambos os casos, podemos ver nada mais do que invenções impostas pela arrogante crença da superioridade européia. &lt;br /&gt;Em &lt;em&gt;A Mínima Diferença: Masculino e Feminino na Cultura&lt;/em&gt;, a psicanalista Maria Rita Kehl, por exemplo, afirma que feminilidade é um conceito “inventado e imposto pelos homens às mulheres”(KEHL, 1992, p.189). Para Kehl, a feminilidade está associada ao masoquismo através do qual a mulher está sempre disponível, pronta para amar com toda a passividade, um amor sem limites.&lt;br /&gt;Em &lt;em&gt;M. Butterfly&lt;/em&gt;, Gallimard ao buscar a suposta feminilidade acaba encontrando-a dentro de si mesmo, o que demonstra no final, segundo Kehl, que a distância entre os dois sexos é mínima. É possível, portanto, concluir que David Henry Hwang, em &lt;em&gt;M. Butterfly&lt;/em&gt;, demonstra que a diferença entre homem (Ocidente) e mulher (Oriente) está na fronteira entre fantasia e realidade.&lt;br /&gt;O René Gallimard do começo da peça, incorporando uma sociedade fálica e narcisística, querendo a todo preço “sentir pela primeira vez o poder absoluto do homem”(p.32), é desconstruído no final por Hwang quando aquele, metamorfoseado em Madame Butterfly, não mais projeta em Song Liling sua idealização de “mulher perfeita”, mas sim em si próprio. Da mesma forma, pode-se dizer que os europeus vêm buscando ao longo de mais de três séculos a sua “sociedade perfeita”, a sua utopia, e que através de suas projeções imaginárias de superioridade, acabaram realmente acreditando que o mundo pertencia a eles, e o que é pior, acreditaram que o mundo queria ser salvo por eles.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;NOTAS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-endnote-id: edn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18759176#_ednref1" name="_edn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; SAID, Edward W. &lt;em&gt;Orientalismo&lt;/em&gt;. p.17&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-endnote-id: edn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18759176#_ednref2" name="_edn2"&gt;[2]&lt;/a&gt; HWANG, David Henry. M. Butterfly, p.17. As citações subsequentes desta peça referem-se à esta edição, e estão indicadas por parênteses no texto. A tradução é de minha autoria.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-endnote-id: edn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18759176#_ednref3" name="_edn3"&gt;[3]&lt;/a&gt; MORE, Thomas. &lt;em&gt;Utopia&lt;/em&gt;. p.73&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-endnote-id: edn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18759176#_ednref4" name="_edn4"&gt;[4]&lt;/a&gt; Para uma discussão detalhada das várias versões da personagem Butterfly, tanto na literatura como na ópera, ver Madame Chrysanthème, de Pierre Loti, o conto de John Luther Long, &lt;em&gt;Madame Butterfly&lt;/em&gt; e a peça de David Belasco, &lt;em&gt;Madame Butterfly&lt;/em&gt;, escrito com a colaboração de Long em 1900.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BIBLIOGRAFIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  BARKER, Francis, HULME, Peter &amp;amp; IVERSEN, Margaret. &lt;em&gt;Cannibalism and The Colonial World.&lt;/em&gt; UK, Cambridge University Press, 1998.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BHABHA, Homi. &lt;em&gt;Narrating the Nation&lt;/em&gt;. Londres: Routledge, 1990.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;______________. “Of Mimicry and Man: The Ambivalence of Colonial     Discourse” em: &lt;em&gt;Modern Literary Theory: A Reader&lt;/em&gt;. Ed. Philip Rice and  Patricia Waugh. 2nd ed. Londres: Edward Arnold, 1992. p.234 – 241.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. COOPERMAN, Robert. “New Theatrical Statements: Asian-Western Mergers in the Early Plays of David Henry Hwang” em: &lt;em&gt;MAUFORT, Marc, ed. Staging Difference: Cultural Pluralism in American Theatre and Drama.&lt;/em&gt; Nova York: Peter Lang, 1996.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5.  DI GAETANI, John L. &lt;em&gt;A Search for a Postmodern Theatre: Interviews with Playwrights&lt;/em&gt;. Nova York: Greenwood Press, 1991.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6.  FLAUBERT, Gustave. &lt;em&gt;Madame Bovary&lt;/em&gt;. São Paulo: Nova Alexandria, 1993.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7.   FOUCAULT, Michel. &lt;em&gt;História da Sexualidade&lt;/em&gt;.  Tradução de M. Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon de Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1988.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8. FREUD, Anna. &lt;em&gt;O Ego e os Mecanismos de Defesa&lt;/em&gt;. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9. GOMES, Heloisa Toller. &lt;em&gt;As Marcas da Escravidão: O Negro e o Discurso Oitocentista no Brasil e nos Estados Unidos.&lt;/em&gt; Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10. HALL, Stuart. &lt;em&gt;A Identidade Cultural na Pós-Modernidade&lt;/em&gt;; tradução: Thomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro – 3.ed.- Rio de Janeiro: DP&amp;amp;A, 1999.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11. HULME, Peter. “The Vaste and New World of America: English Literature of Discovery 1589 – 1852 – 1992.” em: &lt;em&gt;Anais Do XXIV SENAPULLI. A Literatura dos Descobrimentos&lt;/em&gt;. UFPB, 1993. p.26 – 31.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12. HUTCHEON, Linda. &lt;em&gt;The Politics of Postmodernism&lt;/em&gt;. New York: Routledge, 1989.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13. ---------------------------. Splitting Images: &lt;em&gt;Contemporary Canadian Ironies&lt;/em&gt;. Toronto: Oxford UP, 1991.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14. HWANG, David Henry. &lt;em&gt;M. Butterfly&lt;/em&gt;. Nova York: Penguin Group, 1989.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15. ----------------------------. “A Conversation with David Henry Hwang” em: &lt;em&gt;Bearing Dreams, Shaping Visions: An Asian Pacific American Perspective&lt;/em&gt;. Eds. Linda A. Revilla, Gail M. Nomura, et al. Washinghton: Washington State UP, 1993. P.185 – 191.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16. KEHL, Maria Rita. &lt;em&gt;A Mínima Diferença: Masculino e Feminino na Cultura&lt;/em&gt;. Rio de Janeiro: Imago, 1992.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17. ------------------------. &lt;em&gt;Deslocamentos do Feminino&lt;/em&gt;. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1998.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;18. LAURETIS, Teresa de. &lt;em&gt;Popular Culture, Public and Private Fantasies: Femininity and Fetishism in David Cronenberg's M. Butterfly.&lt;/em&gt; Signs v.24, n.2 (Winter, 1999). p.303 – 334. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19. MENDONÇA, Antônio Sérgio. &lt;em&gt;Bovarismo &amp;amp; Paixão&lt;/em&gt;. Porto Alegre: Centro de Estudos Lacaneanos, 1992.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20. MONTAIGNE, Michel de. “Cap. XXXI – Dos Canibais” em: ----. &lt;em&gt;Ensaios. Os Pensadores&lt;/em&gt;. Trad. Sérgio Millet. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p.192 – 203.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21. MORE, Thomas. &lt;em&gt;Utopia&lt;/em&gt;. London: Penguin Books, 1965.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22. MORETTO, Fúlvia M. H. Apresentação. Em: FLAUBERT, Gustave. &lt;em&gt;Madame Bovary&lt;/em&gt;. São Paulo: Nova Alexandria, 1993.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23. SAID, Edward W. &lt;em&gt;Cultura e Imperialismo&lt;/em&gt;. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; 24. ------, &lt;em&gt;Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente&lt;/em&gt;. São Paulo: Companhia das Letras, 1990&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-3633998047864767108?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/3633998047864767108/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=3633998047864767108&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/3633998047864767108'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/3633998047864767108'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2007/10/o-que-os-homens-querem-mulher-perfeita.html' title=''/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-6652454387535993801</id><published>2007-10-04T14:59:00.000-04:00</published><updated>2007-10-04T15:00:35.943-04:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Michel Foucault, uma entrevista:Sexo, poder e a política da identidade&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Michel Foucault, an Interview: Sex, Power and the Politics of Identity; entrevista com B. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gallagher e A. Wilson, Toronto, junho de 1982; The Advocate, n. 400, 7 de agosto de 1984, pp. 26-30 e 58. Esta entrevista estava destinada à revista canadense Body Politic. Tradução de wanderson flor do nascimento.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;        - Você sugere em seus livros que a liberação sexual não está tanto em colocar em jogo as verdades secretas sobre si mesmo ou sobre seu desejo do que em um elemento do processo de definição e construção do desejo. Quais são as implicações práticas desta distinção?         - O que eu gostaria de dizer é que, em minha opinião, o movimento homossexual tem mais necessidade hoje de uma arte de viver do que de uma ciência ou um conhecimento científico (ou pseudocientífico) do que é a sexualidade. A sexualidade faz parte de nossa conduta. Ela faz parte da liberdade em nosso usufruto deste mundo. A sexualidade é algo que nós mesmos criamos - ela é nossa própria criação, ou melhor, ela não é a descoberta de um aspecto secreto de nosso desejo. Nós devemos compreender que, com nossos desejos, através deles, se instauram novas formas de relações, novas formas de amor e novas formas de criação. O sexo não é uma fatalidade; ele é uma possibilidade de aceder a uma vida criativa.         - É, no fundo, a conclusão à qual você chega quando diz que devemos tentar tornar-nos gays e não nos contentar em reafirmar nossa identidade de gays.         - Sim, é isto. Nós não devemos descobrir que somos homossexuais.         - Nem descobrir o que isto queira dizer?         - Exatamente, nós devemos, antes, criar um modo de vida gay. Um tornar-se gay.         - E é algo sem limites?         - Sim, claramente. Quando examinamos as diferentes maneiras pelas quais as pessoas têm vivenciado sua liberdade sexual - a maneira que elas têm criado suas obras de arte -, forçosamente constatamos que a sexualidade tal qual a conhecemos hoje torna-se uma das fontes mais produtivas de nossa sociedade e de nosso ser. Eu penso que deveríamos compreender a sexualidade em um outro sentido: o mundo considera que a sexualidade constitui o segredo da vida cultural criadora; ela é mais um processo que se inscreve, para nós hoje, na necessidade de criar uma nova vida cultural, sob a condução de nossas escolhas sexuais.         - Na prática, uma das conseqüências dessa tentativa de colocar em jogo o segredo é que o movimento homossexual não foi mais longe do que a reivindicação de direitos civis ou humanos relativos à sexualidade. Isso quer dizer que a liberação sexual tem se limitado ao nível de uma exigência de tolerância sexual.         - Sim, mas é um aspecto que é preciso afirmar. É importante, de início, para um indivíduo ter a possibilidade - e o direito - de escolher a sua sexualidade. Os direitos do indivíduo no que diz respeito à sexualidade são importantes, e mais ainda os lugares onde não são respeitados. É preciso, neste momento, não considerar como resolvidos estes problemas. Desde o início dos anos sessenta, se produziu um verdadeiro processo de liberação. Este processo foi muito benéfico no que diz respeito situações relativas às mentalidades, mas a situação não está definitivamente estabilizada. Nós devemos ainda dar um passo adiante, penso eu. Eu acredito que um dos fatores de estabilização será a criação de novas formas de vida, de relações, de amizades nas sociedades, a arte, a cultura de novas formas que se instaurassem por meio de nossas escolhas sexuais, éticas e políticas. Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmar, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa.         - Muitas coisas no que você diz lembram, por exemplo, as tentativas do movimento feminista, que deseja criar sua própria linguagem e sua própria cultura.         - Sim, mas eu não estou seguro de que nós devamos criar nossa própria cultura. Nós devemos criar uma cultura. Devemos realizar criações culturais. Mas aí, devemos nos embater com o problema da identidade. Desconheço o que faríamos para produzir essas criações e desconheço quais formas essas criações tomariam. Por exemplo, eu não estou de todo certo de que a melhor forma de criação literária que possa atingir aos homossexuais sejam os romances homossexuais.         - De fato, nós mesmos não concordaríamos em dizer isso. Seria partir de um essencialismo que nos devemos precisamente evitar.         - É verdade. O que se entende, por exemplo, por "pintura gay"? E, entretanto, eu estou certo que a partir de nossas escolhas sexuais, a partir de nossas escolhas éticas podemos criar algo que tenha uma certa relação com a homossexualidade. Mas esta coisa não deve ser uma tradução da homossexualidade no domínio da música, da pintura - o que sei eu, novamente? - que penso não ser possível.         - Como você vê a extraordinária proliferação, depois dos últimos dez ou quinze anos, das práticas homossexuais masculinas, a sensualização, se você prefere, de certas partes até então negligenciadas do corpo e a expressão de novos desejos? Eu penso, é claro, nas características mais surpreendentes daquilo que chamamos filmes gueto-pornôs, os clubes de S/M [sadomasoquismo] ou de fistfucking. É isto uma simples extensão, em uma outra esfera, da proliferação geral dos discursos sexuais depois do séc. XIX, ou antes se tratam de desenvolvimentos de outro tipo, próprios do contexto histórico atual?         - De fato, o que gostaríamos de falar aqui é precisamente, penso, das inovações que implicam essas práticas. Consideramos, por exemplo, a "sub-cultura S/M", para retomar uma expressão cara a nossa amiga Gayle Rubin&lt;a href="file:///C:/WINDOWS/Desktop/claudio/Foucault.htm#ref1" name="1"&gt;1&lt;/a&gt;. Eu não penso que o movimento das práticas sexuais tenha a ver com colocar em jogo a descoberta de tendências sado-masoquistas profundamente escondidas em nosso inconsciente. Eu penso que o S/M é muito mais que isso, é a criação real de novas possibilidades de prazer, que não se tinha imaginado anteriormente. A idéia de que o S/M é ligado com uma violência profunda e que essa prática é um meio de liberar essa violência, de dar vazão à agressão é uma idéia estúpida. Sabemos muito bem que essas pessoas não são agressivas; que elas inventam novas possibilidades de prazer utilizando certas partes estranhas do corpo - erotizando o corpo. Eu penso que temos uma forma de criação, de empreendimento de criatividade, dos quais a principal característica é o que chamo de dessexualização do prazer. A idéia de que o prazer físico provém sempre do prazer sexual e a idéia de que o prazer sexual é a base de todos os prazeres possíveis, penso, é verdadeiramente algo de falso. O que essas práticas de S/M nos mostram é que nós podemos produzir prazer a partir dos objetos mais estranhos, utilizando certas partes estanhas do corpo, nas situações mais inabituais, etc.        - A assimilação do prazer ao sexo é, então, ultrapassada.         - É exatamente isso. A possibilidade de utilizar nossos corpos como uma fonte possível de uma multiplicidade de prazeres é muito importante. Se consideramos, por exemplo, a construção tradicional do prazer, constata-se que os prazeres físicos, ou os prazeres da carne, são sempre a bebida, a comida e o sexo. É ai que se limita, me parece, nossa compreensão dos corpos, dos prazeres. O que me frustra, por exemplo, que se considere sempre o problema das drogas exclusivamente em termos de liberdade ou de proibição. Penso que as drogas deveriam tornar-se elemento de nossa cultura.         - Enquanto fonte de prazer?         - Enquanto fonte de prazer. Devemos estudar as drogas. Devemos experimentar as drogas. Devemos fabricas boas drogas - capazes de produzir um prazer muito intenso. O puritanismo, que coloca o problema das drogas - um puritanismo que implica o que se deve estar contra ou a favor - é uma atitude errônea. As drogas já fazem parte de nossa cultura. Da mesma forma que há boa música e má música, há boas e más drogas. E então, da mesma forma que não podemos dizer somos "contra" a música, não podemos dizer que somos "contra" as drogas.         - O objetivo é testar o prazer e suas possibilidades.         - Sim. O prazer também deve fazer parte de nossa cultura. É muito interessante notar, por exemplo, que depois de séculos as pessoas em geral - mas também os médicos, os psiquiatras e mesmo os movimentos de liberação - têm sempre falado do desejo e nunca do prazer. "Nós devemos liberar o nosso desejo", dizem eles. Não! Devemos criar prazeres novos. Então, pode ser que o desejo surja.         - É significativo que certas identidades se constituam em torno de novas práticas sexuais tais quais o S/M? Essas identidades favorecem a exploração dessas práticas; elas contribuem também para o direito do indivíduo de entregar-se. Mas elas também não restringem as possibilidades do indivíduo?         - Veja bem, se a identidade é apenas um jogo, apenas um procedimento para favorecer relações, relações sociais e as relações de prazer sexual que criem novas amizades, então ela é útil. Mas se a identidade se torna o problema mais importante da existência sexual, se as pessoas pensam que elas devem "desvendar" sua "identidade própria" e que esta identidade deva tornar-se a lei, o princípio, o código de sua existência, se a questão que se coloca continuamente é: "Isso está de acordo com minha identidade?", então eu penso que fizeram um retorno a uma forma de ética muito próxima à da heterossexualidade tradicional. Se devemos nos posicionar em relação à questão da identidade, temos que partir do fato de que somos seres únicos. Mas as relações que devemos estabelecer conosco mesmos não são relações de identidade, elas devem ser antes relações de diferenciação, de criação, de inovação. É muito chato ser sempre o mesmo. Nós não devemos excluir a identidade se é pelo viés desta identidade que as pessoas encontram seu prazer, mas não devemos considerar essa identidade como uma regra ética universal.         - Mas até agora a identidade sexual tem sido muito útil politicamente.         - Sim, ela tem sido muito útil, mas é uma identidade que nos limita e, penso eu que temos (e podemos ter) o direito de ser livres.         - Queremos que algumas de nossas práticas sexuais sejam práticas de resistência no sentido político ou social. Como isso é possível, sendo que a estimulação do prazer pode servir para exercer um controle? Podemos estar seguros de que não haverá exploração desses novos prazeres? Estou pensando na maneira pela qual a publicidade utiliza a estimulação do prazer como um instrumento de controle social.         - Não se pode nunca estar seguro de que não haverá exploração. De fato podemos estar seguros de que haverá uma, e que tudo o que se tem criado ou adquirido, todo o terreno que se tem ganhado será, em um momento ou outro, utilizado desta maneira. Parece ser assim na vida, na luta e na história dos homens. E eu não penso que isso seja uma objeção a todos esses movimentos ou a todas essas situações. Porém, você tem razão em assinalar que devemos ser prudentes e conscientes do fato de que devemos seguir a diante, ter também outras necessidades. O gueto S/M de São Francisco é um bom exemplo de uma comunidade que fez a experiência do prazer e que constituiu uma identidade em torno deste prazer. Esta guetização, esta identificação, este processo de exclusão produz efeitos de retorno. Eu não ousaria usar a palavra "dialética", mas não está muito longe disso.         - Você escreve que o poder não é somente uma força negativa, mas também uma força produtiva; que o poder está sempre presente; e que onde há poder, há resistência, e que a resistência não é nunca uma posição de exterioridade em relação ao poder. Mas se é assim, como não chegarmos à conclusão de que estamos presos no interior dessa relação e de que não podemos, de uma certa maneira, escapar?         - Na realidade, eu não penso que a palavra "presos" seja a palavra justa. Trata-se de uma luta, mas o que quero dizer quando falo de relações de poder é que estamos, uns em relação aos outros, em uma situação estratégica. Por sermos homossexuais, por exemplo, estamos em luta com o governo e o governo em luta conosco. Quando temos negócios com o governo a luta, é claro, não é simétrica, a situação de poder não é a mesma, mas participamos ao mesmo tempo dessa luta. Basta que qualquer um de nós se eleve sobre o outro, e o prolongamento dessa situação pode determinar a conduta a seguir, influenciar a conduta ou a não-conduta de outro. Não somos presos, então. Acontece que estamos sempre de acordo com a situação. O que quero dizer é que temos a possibilidade de mudar a situação, que esta possibilidade existe sempre. Não podemos nos colocar fora da situação, em nenhum lugar estamos livres de toda relação de poder. Eu não quis dizer que somos sempre presos, pelo contrário, que somos sempre livres. Enfim, em poucas palavras, há sempre a possibilidade de mudar as coisas.         - A resistência está, então, no interior dessa dinâmica da qual se pode retirá-la?         - Sim. Veja que se não há resistência, não há relações de poder. Porque tudo seria simplesmente uma questão de obediência. A partir do momento que o indivíduo está em uma situação de não fazer o que quer, ele deve utilizar as relações de poder. A resistência vem em primeiro lugar, e ela permanece superior a todas as forças do processo, seu efeito obriga a mudarem as relações de poder. Eu penso que o termo "resistência" é a palavra mais importante, a palavra-chave dessa dinâmica.         - Politicamente falando, o elemento mais importante pode ser, quando se examina o poder, o fato de que, segundo certas concepções anteriores, "resistir" significa simplesmente dizer não. É somente em termo de negação que se tem conceitualizado a resistência. Tal como você a compreende, entretanto, a resistência não é unicamente uma negação. Ela é um processo de criação. Criar e recriar, transformar a situação, participar ativamente do processo, isso é resistir.         - Sim, assim eu definiria as coisas. Dizer não constitui a forma mínima de resistência. Mas, naturalmente, em alguns momentos é muito importante. É preciso dizer não e fazer deste não uma forma decisiva de resistência.         - Isso suscita a questão de saber de qual maneira, e em qual medida, um sujeito - ou uma subjetividade - dominado pode criar seu próprio discurso. Na análise tradicional do poder, o elemento onipresente sobre o qual se funda a análise é o discurso dominante, as reações a este discurso ou, no interior desse discurso, apenas os elementos subsidiários. Entretanto, se por "resistência" no seio das relações de poder entendemos mais que uma simples negação, não se pode dizer que certas praticas - o S/M lesbiano, por exemplo - são de fato a maneira na qual sujeitos dominados formulam sua própria linguagem?         - De fato. Eu penso que a resistência é um elemento das relações estratégicas nas quais se constitui o poder. A resistência se apóia, na realidade, sobre a situação à qual combate. No movimento homossexual, por exemplo, a definição médica de homossexualidade constituiu-se em um instrumento muito importante para combater a opressão da qual era vítima a homossexualidade no fim do século XIX e início do XX. Esta medicalização, que foi um meio de opressão, tem sido também um instrumento de resistência, já que as pessoas podem dizer: "se somos doentes, então por que nos condenam, nos menosprezam?", etc. É claro que este discurso nos parece hoje bastante ingênuo, mas para a época ele foi muito importante.         Eu diria também, no que diz respeito ao movimento lesbiano, em minha perspectiva, que o fato de que as mulheres tenham sido por séculos e séculos isoladas na sociedade, frustradas, desprezadas de várias maneiras lhes proporcionou uma possibilidade real de constituir uma sociedade, de criar um certo tipo de relação social entre elas, fora de um mundo dominado pelos homens. O livro de Lillian Faderman, Surpassing the Love of Men&lt;a href="file:///C:/WINDOWS/Desktop/claudio/Foucault.htm#ref2" name="2"&gt;2&lt;/a&gt;, é, a este respeito, muito interessante. Ele levanta uma questão: Que tipo de experiência emocional, que tipo de relações podem ser estabelecidas num mundo onde as mulheres não têm poder social, legal ou político? E Faderman afirma que as mulheres utilizaram esse isolamento e essa ausência de poder.         - Se a resistência é o processo que consiste em liberar-se das práticas discursivas, parece que o S/M lesbiano seja uma das práticas que, a uma primeira vista, pode-se declarar mais legitimamente praticas de resistência. Em que medida essas práticas e essas identidades podem ser percebidas como uma contestação ao discurso dominante?         - O que me parece interessante, no que diz respeito ao S/M lesbiano é que ele permite se liberar de um certo número de estereótipos da feminilidade que são utilizados no movimento lesbiano - uma estratégia que o movimento lesbiano elaborou no passado. Essa estratégia se funda sobre a opressão de que foram vítimas as lésbicas, e o movimento a utilizou para lutar contra essa opressão. Mas é possível que hoje essas ferramentas, essas armas estejas ultrapassadas. É claro que o S/M lesbiano tenta se liberar de todos os velhos estereótipos da feminilidade, das atitudes de rejeição dos homens, etc.        - Em sua opinião, o que se pode aprender a respeito do poder - e além do mais também, o prazer - com a prática do S/M que é no fundo uma erotização explicita do poder?         - Pode-se dizer que o S/M é a erotização do poder, a erotização das relações estratégicas. O que me choca no S/M é a maneira como ele se difere do poder social. O poder se caracteriza pelo fato de que ele constitui uma relação estratégica que se estabeleceu nas instituições. No seio das relações de poder, a mobilidade é então limitada, e certas fortalezas são muito difíceis de derrubar por terem sido institucionalizadas, porque sua influência é sensível no curso da justiça, nos códigos. Isso significa que as relações estratégicas entre os indivíduos se caracterizam pela rigidez.         Dessa maneira, o jogo do S/M é muito interessante porque, enquanto relação estratégica, é sempre fluida. Há papeis, é claro, mas qualquer um sabe bem que esses papéis podem ser invertidos. Às vezes, quando o jogo começa, um é o mestre e, no fim, este que é escravo pode tornar-se mestre. Ou mesmo quando os papéis são estáveis, os protagonistas sabem muito bem que isso se trata de um jogo: ou as regras são transgredidas ou há um acordo, explícito ou tácito, que define certas fronteiras. Este jogo é muito interessante enquanto fonte de prazer físico. Mas eu não diria que ele reproduz, no interior da relação erótica, a estrutura do poder. É uma encenação de estruturas do poder em um jogo estratégico, capaz de procurar um prazer sexual ou físico.         - Em que esse jogo estratégico é diferente na sexualidade e nas relações de poder?         - A prática do S/M se abre a criação do prazer e existe uma identidade entre o que acontece e essa criação. É a razão pela qual o S/M é verdadeiramente uma sub-cultura. É um processo de invenção. O S/M é a utilização de uma relação estratégica como fonte de prazer (de prazer físico). Esta não é a primeira vez que as pessoas utilizam as relações estratégicas como fonte de prazer. Havia, na Idade Média, por exemplo, a tradição do amor cortesão, com o trovador, a maneira que se instaura as relações amorosas entre uma dama e seu amante, etc. Tratava-se, também, de um jogo estratégico. Este jogo é retomado, hoje, entre os garotos e garotas que vão dançar sábado à noite. Eles colocam em cena relações estratégicas. O interessante é que, na vida heterossexual, essas relações estratégicas precedem o sexo. Elas existem seguindo a finalidade de obter o sexo. No S/M, por outro lado, essas relações estratégicas fazem parte do sexo, como uma convenção de prazer no interior de uma relação particular.         Em um dos casos, as relações estratégicas são puramente sociais e é o ser social que é objetivado; enquanto que no outro caso, o corpo é implicado. E é essa transferência de relações estratégicas que passam do ritual da corte ao plano sexual, o que é particularmente interessante.         - Em uma entrevista concedida há um ou dois anos à revista Gay Pied&lt;a href="file:///C:/WINDOWS/Desktop/claudio/Foucault.htm#ref3" name="3"&gt;3&lt;/a&gt;, você dizia que o que mais perturbava às pessoas nas relações homossexuais não é tanto o ato sexual em si, mas a perspectiva de ver as relações afetivas se desenvolverem fora dos quadros normativos. Os lugares e as amizades que se atam são imprevisíveis. Você acha que é esse potencial desconhecido que as relações homossexuais portam, ou você diria que essas relações são percebidas como uma ameaça direta em oposição às instituições sociais?         - Se há uma coisa que me interessa hoje é o problema da amizade. No decorrer dos séculos que se seguiram à Antiguidade, a amizade se constituiu em uma relação social muito importante: uma relação social no interior da qual os indivíduos dispõem de uma certa liberdade, de uma certa forma de escolha (limitada, claramente), que lhes permitia também viver relações afetivas muito intensas. A amizade tinha também implicações econômicas e sociais - o indivíduo devia auxiliar seus amigos, etc. Eu penso que, no séc. XVI e no séc. XVII, viu-se desaparecer esse tipo de amizade, no meio da sociedade masculina. E a amizade começa a tornar-se outra coisa. A partir do séc. XVI, encontram-se textos que criticam explicitamente a amizade, que é considerada como algo perigoso.         O exército, a burocracia, a administração, as universidades, as escolas, etc. - no sentido que se tem essas palavras nos dias de hoje - não podiam funcionar diante de amizades tão intensas. Podemos ver em instituições um esforço considerável por diminuir ou minimizar as relações afetivas. Neste caso, em particular, nas escolas. Quando se inauguraram as escolas secundárias que acolheram alguns jovens rapazes, um dos problemas foi o de saber como se podia não somente impedir as relações sexuais, claramente, mas também em impedir as amizades. Sobre o tema da amizade, pode-se estudar, por exemplo, a estratégias das instituições jesuítas - eles estavam cientes da impossibilidade de supressão da amizade, eles tentaram então utilizar o papel que tinha o sexo, o amor, a amizade e de limitá-los. Deveríamos agora, depois de estudar a história da sexualidade, tentar compreender a história da amizade, ou das amizades. É uma história extremamente interessante.         E uma de minhas hipóteses - estou certo de que ela se verificaria se nos colocássemos esta tarefa - é que a homossexualidade (pelo que eu entendo a existência de relações sexuais entre os homens), torna-se um problema a partir do séc. XVIII. A vemos tornar-se um problema com a polícia, com o sistema jurídico. Penso que se ela tornou-se um problema, um problema social, nessa época, é porque a amizade desapareceu. Enquanto a amizade representou algo importante, enquanto ela era socialmente aceita, não era observado que os homens mantivessem entre eles relações sexuais. Não se poderia simplesmente dizer que eles não as tinham, mas que elas não tinham importância. Isso não tinha nenhuma implicação social, as coisas eram culturalmente aceitas. Que eles fizessem amor ou que eles se abraçassem não tinha a menor importância. Absolutamente nenhuma. Uma vez desaparecida a amizade enquanto relação culturalmente aceita, a questão é colocada: "o que fazem, então, dois homens juntos?" E neste momento o problema apareceu. Em nossos dias, quando os homens fazem amor ou têm relações sexuais, isso é percebido como um problema. Estou seguro de ter razão: a desaparição da amizade enquanto relação social e o fato da homossexualidade ser declarada como problema social, político e médico fazem parte do mesmo processo.         - Se o que importa hoje é explorar as novas possibilidades da amizade, é preciso frisar que em um sentido largo, todas as instituições sociais são feitas para favorecer as amizades e as estruturas heterossexuais, com o menosprezo às amizades e estruturas homossexuais. O verdadeiro trabalho não é instaurar novas relações sociais, novos modelos de valores, novas estruturas familiares etc.? Todas as estruturas e as instituições que caminham juntas com a monogamia e com a família tradicional são uma das coisas que os homossexuais não tem facilmente acesso. Que tipo de instituições devemos começar a instaurar com a finalidade não somente de defender-nos, mas também de criar novas formas sociais que constituirão uma solução efetiva?         - Quais instituições? Não tenho uma idéia precisa. Claramente, penso que seja totalmente contraditório aplicar para esse fim e esse tipo de amizade o modelo da vida familiar ou as instituições que caminham junto com a família. Mas é verdade que, em função de algumas relações que existem na sociedade são formas protegidas de vida familiar, se constata que algumas variantes não são protegidas, são ao mesmo tempo, mais ricas, mais interessantes e mais criativas do que essas relações. Mas, naturalmente, elas são também bem mais frágeis e vulneráveis. A questão de saber quais tipos de instituições devemos criar é uma questão capital, mas eu não posso trazer a resposta. Nosso trabalho, penso eu, é tentar elaborar uma solução.         - Em que medida queremos ou temos necessidade de que o projeto de liberação dos homossexuais seja um projeto que, longe de se contentar em propor um percurso, pretenda abrir novos caminhos? Dito de outra forma, sua concepção de política sexual recusa a necessidade de um programa a ser seguido, em função preconizar a experimentação de novos tipos de relação?         - Penso que uma das grandes constatações que temos feito desde a Primeira Guerra é essa do fracasso de todos os programas sociais e políticos. Percebemos que as coisas não se produzem nunca como os programas políticos querem descrever; e que os programas tem sempre, ou quase sempre, conduzido seja a abusos, seja a uma dominação política por parte de um grupo, quer sejam técnicos, burocratas ou outros. Mas uma das realizações dos anos sessenta e setenta - que considero como realizações benéficas - é que certos modelos institucionais têm sido experimentados sem programas. Sem programa não quer dizer cegamente - enquanto cegueira de pensamento. Na França, por exemplo, nos últimos tempos, se tem criticado bastante o fato de que os diferentes movimentos políticos em favor da liberdade sexual, das prisões, da ecologia, etc., não tenham programa. Mas, penso, não ter programa pode ser ao mesmo tempo, muito útil, muito original e muito criativo, se isso não quer dizer não ter reflexão real sobre o que acontece ou não se preocupar com o que é impossível.         Desde o século XIX, as grandes instituições políticas e os grandes partidos políticos confiscaram o processo de criação política, quero dizer com isso que eles têm tentado dar à criação política a forma de um programa político, com a finalidade de se apoderar do poder. Penso que é necessário preservar o que se produziu nos anos sessenta e no início dos anos setenta. Uma das coisas que é preciso preservar, creio, é a existência, fora dos grandes partidos políticos, e fora do programa normal ou comum, uma certa forma de inovação política, de criação política e de experimentação política. É um fato que a vida cotidiana das pessoas tem mudado entre o início dos anos sessenta e agora; minha própria vida é testemunho disso. Evidentemente, não devemos essas mudanças aos partidos políticos, mas aos numerosos movimentos. Esses movimentos têm verdadeiramente transformado nossas vidas, nossa mentalidade e nossas atitudes, assim como as atitudes e a mentalidade de outras pessoas - as pessoas que não pertencem a esses movimentos. E isso é algo de muito importante e muito positivo. Eu repito, não são essas velhas organizações políticas tradicionais e normais que permitem esse exame.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;_______________________&lt;br /&gt;&lt;a href="file:///C:/WINDOWS/Desktop/claudio/Foucault.htm#1" name="ref1"&gt;1&lt;/a&gt; Rubin, Gayle. “The Leather Menace: Comments on Politics and S/M”, in Samois (ed.), Coming to Power. Writings and Graphics on Lesbian S/M., Berkeley, 1981, p. 195.&lt;br /&gt;&lt;a href="file:///C:/WINDOWS/Desktop/claudio/Foucault.htm#2" name="ref2"&gt;2&lt;/a&gt; Faderman, L. Surpassing the Love of Men. New York, William Morrow, 1981.&lt;a href="file:///C:/WINDOWS/Desktop/claudio/Foucault.htm#3" name="ref3"&gt;3&lt;/a&gt; Ver “Da amizade como modo de vida” ( De la amitié comme mode de vie).&lt;br /&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-6652454387535993801?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/6652454387535993801/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=6652454387535993801&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/6652454387535993801'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/6652454387535993801'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2007/10/michel-foucault-uma-entrevistasexo.html' title=''/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-3911725587531660989</id><published>2007-10-04T14:50:00.000-04:00</published><updated>2007-10-12T10:27:06.564-04:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Macedo versus Machado: dois passeios pela cidade do Rio de Janeiro&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;Cláudio Luís Serra Martins &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na abertura do livro &lt;em&gt;Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro&lt;/em&gt;, Macedo dirigi-se aos leitores, explicando o seu projeto de mapeamento histórico-geográfico da corte, cujo objetivo é resgatar o que foi esquecido da memória da cidade. Ao convidar o leitor para um passeio, o cronista se oferece para ser o guia desta viagem "imaginária e ao léu", sem uma ordem cronológica de tempo. Para exaltar a urbanidade, Macedo, como se fosse, segundo Pechman, um "pintor de costumes da sociedade moderna", faz uma nova "pintura" do imaginário da cidade do Rio de Janeiro, apagando o incômodo cenário natural; fornece assim, informações históricas, verídicas ou inventadas, a respeito dos costumes do passado da cidade, prestando ao país, como ele mesmo afirma, "um tributo de patriotismo": &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Determinei escrever o que sabia e conseguisse saber sobre a história e tradições de alguns edifícios, estabelecimentos públicos e instituições da cidade do Rio de Janeiro, abundando quanto pudesse em informações relativas aos homens notáveis e aos usos e costumes do passado, porque entendi que com este meu trabalho presto ao meu país um serviço e pago-lhe um tributo de patriotismo, pois que concorro com meu contingente, fraco embora, para salvar do olvido muitas cousas e muitos fatos cuja lembrança vai desaparecendo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;Percebe-se claramente que o intuito de Macedo é preservar uma memória e, acima de tudo, criar novas memórias para uma nação que acabou de nascer. Mas fica também claro que sua tentativa de construção de uma identidade nacional, não configura uma descontinuidade do processo imperialista de colonização sofrido pelo Brasil até este momento. Muito pelo contrário, os passeios pelos monumentos, ruas, igrejas e palácios revelam o que Alfred Crosby em Imperialismo Ecológico diz ser uma necessidade dos europeus de transformar os territórios conquistados em imagens que eles deixaram para trás. E essas imagens são mantidas através do poder de uma narração que, além de legitimar a conquista do homem branco, impede que outras narrativas surjam dando um novo significado à paisagem que está sendo modificada.&lt;br /&gt;Diferente de Macedo, Machado não segue os mesmos caminhos percorridos por seu colega, embora a cidade do Rio de Janeiro seja a mesma, pelo menos na localização geográfica. Em vez de mapear a cidade, contar sua história através de seus monumentos, resgatar a memória esquecida ou falar dos "homens notáveis", Machado convida o leitor para percorrer as vielas estreitas do inconsciente coletivo de seus moradores, mas sem impor um caminho certo ou errado, ou de preenchimento das lacunas que fazem parte de nossa História, como faz Macedo.&lt;br /&gt;No entanto, Machado reconhece que o artista detém um poder de criação quase mágico, sendo capaz de ver o tempo como um tecido invisível onde tudo pode se bordar, "uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo".. Mas que "também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é mais sutil obra deste mundo, e acaso, do outro". (&lt;em&gt;Esaú e Jacó&lt;/em&gt;, capítulo XII)&lt;br /&gt;Aqui temos a primeira grande diferença entre Machado e Macedo, e que me permitam o exagero, também dos demais escritores românticos e realistas de sua época que tentavam impor o imaginário burguês de percepção unívoca de mundo. A de Machado é, porém, construída sob o tecido da sutileza e costurada com a sua melhor agulha – a ironia. Enquanto Macedo vibra patrioticamente e crê na instituição chamada Brasil, Machado suspende a crença e a ataraxia. Como bem observou Maia Neto, "o desenvolvimento literário e filosófico de seus romances demonstra a busca e a gradual definição de um personagem cético que combina a suspensão na crença e a ataraxia (paz mental) do Pirronismo com uma atitude estética em relação à vida".&lt;br /&gt;O objetivo deste trabalho é, portanto, cruzar os dois caminhos distintos percorridos pelos dois escritores brasileiros na construção do imaginário da cidade do Rio de Janeiro. Com isso, expor dois projetos literários bastante divergentes. Para comentar Macedo, selecionei algumas passagens dos folhetins reunidos no livro &lt;em&gt;Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro&lt;/em&gt; (1862/1863), que só vêm confirmar a tese de continuidade do projeto imperialista colonial português, inserindo a recente nação dentro de uma nova comunidade imaginária independente chamada Brasil. Já em Machado, por não ser possível citar apenas um romance, uma coletânea de contos ou as crônicas, pois o ceticismo está presente em toda a sua obra, as citações escolhidas são as que revelam mais claramente a suspensão do juízo em oposição ao partidarismo de Macedo.&lt;br /&gt;Vamos passear primeiro com Macedo. Em &lt;em&gt;Cidades estreitamente vigiadas&lt;/em&gt;, Pechman argumenta que as histórias de Macedo estão relacionadas com uma tentativa de formar "uma nova mentalidade ética para a burguesia do império, aparentemente desprovida de uma sólida bagagem moral". Uma busca que encontra inspiração no modelo do bom sauvage, de Rousseau, na qual o homem nasce puro, mas é corrompido pelo contato com a sociedade. Para Macedo, a literatura tem o poder de resgatar a pureza perdida e modificar os vícios, provenientes dos costumes deteriorados pelo contato com as "importações morais".&lt;br /&gt;O "remédio" para se evitar o contágio com a "imoralidade externa" se dá através da preservação do passado de um povo. "O passado", diz Macedo, "é um livro cheio de preciosos tesouros que não se devem desprezar, e toda a terra tem sua história mais ou menos política, suas recordações mais ou menos interessantes, como todo o coração tem suas saudades"(p.20)&lt;br /&gt;A afirmação de Macedo de que "toda a terra tem sua história" revela a existência de um passado que deve ser compartilhado por todos aqueles que pertencem a uma mesma comunidade. Segundo Stuart Hall, o que chamamos hoje de nação nada mais é do que uma invenção de valores e tradições que são inseridos e moldados na mente das pessoas através de um estratagema discursivo que ele chamou de "narrativa da nação":&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Em primeiro lugar, há a narrativa da nação, tal como é contada e recontada nas histórias e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. Essas fornecem uma série de histórias, imagens, panoramas, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais que simbolizam ou representam as experiências partilhadas, as perdas, os triunfos e os desastres que dão sentido à nação. Como membros de tal "comunidade imaginada", nos vemos, no olho de nossa mente, como compartilhando dessa narrativa. Ela dá significado e importância à nossa monótona existência, conectando nossas vidas cotidianas com um destino nacional que preexiste a nós e continua existindo após essa morte.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em &lt;em&gt;Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro&lt;/em&gt;, Macedo fixa seu "olhar mental" a partir do período colonial, época em que o domínio português foi mais acentuado. E o motivo de ele não ir além desse período é não reconhecer uma civilização anterior ao descobrimento do Brasil. Isso fica bem claro na introdução do livro quando ele diz que não irá falar das províncias centrais e longínquas, pois estas "representam um mundo que ainda está à espera do seu Colombo"(p.20). Ou ainda mais adiante quando exalta o papel desempenhado pelos jesuítas chamando-os de "missionários dedicados e civilizadores"(p.46). Portanto, para o cronista, assim como para os europeus, o Novo Mundo era apenas uma tábula rasa na qual eles podiam projetar suas próprias imagens de uma sociedade perfeita. Não é a toa que pensamentos como esses são refletidos no protótipo do romance realista moderno &lt;em&gt;Robinson Crusoé&lt;/em&gt;, que cria um feudo para si próprio em uma terra distante.&lt;br /&gt;Com um projeto civilizatório em mente, Macedo se recusa a viajar por "províncias longínquas". No entanto, até meados do século XIX, o imaginário da burguesia ainda é influenciado pelos relatos dos viajantes estrangeiros que falavam de um Brasil exótico. Por isso, Macedo não deixará de viajar, visto que, a crônica, como precursora do "mundismo", vai se utilizar, como diz Pechman, "das fórmulas consagradas e que tinham plena aceitação pelos leitores: os relatos de viagem". Mas desta vez a viagem é curta, ele não irá ao confins do Brasil, ficará dentro dos limites da cidade.&lt;br /&gt;Ao contrário de alguns escritores românticos brasileiros que transformam o ambiente natural em pano de fundo para o projeto de uma literatura brasileira, Macedo simplesmente faz uma "devastação mental" da paisagem natural da cidade do Rio de Janeiro. Em vez de exaltar a natureza viva com seus jardins naturais arborizados, cortados por belos riachos e rios, Macedo dá as costas a ela, e vira-se para o terraço do Passeio Público: um jardim construído artificialmente, que comentarei em detalhes mais à frente, em uma tentativa de mostrar uma cidade que já possui um corpo para ser apreciado. E num dos poucos momentos em que Macedo reconhece a presença da natureza, ele, assim, dirige-se aos leitores: "Voltemos as costas para o mar. O espetáculo dessa natureza opulenta, grandiosa, sublime, absorve-nos em uma contemplação insaciável. Cerremos por algum tempo os olhos à majestade das obras de Deus."(p.51)&lt;br /&gt;A identidade, como se observou mais acima, seja de um indivíduo ou de uma nação, é baseada em experiências vividas, testemunhos de uma existência que se perpetua através da tradição. Embora as teorias de identidade nacional, como sendo uma construção social, sejam recentes, parece que Macedo já as conhecia ao afirmar que "as tradições...abundam nos arquivos da imaginação e da credulidade de todos os povos, e encontram-se em todas as nações".(p.43) Dito isto, ele vai defender a sua escrita "em tom brincalhão e às vezes epigramático", pois escrevia também para o povo, que "prefere os livros amenos e romanescos às obras grandiosas e profundas".(p.18)&lt;br /&gt;Obviamente, o povo a quem Macedo se refere é a emergente burguesia que lia avidamente os romances e, tal qual uma personagem flaubertiana, acreditava no imaginário construído por aqueles. Aliás, foi através do romance que o imperialismo europeu encontrou uma forma de legitimar o seu poder nas colônias. Em &lt;em&gt;Cultura e Imperialismo&lt;/em&gt;, Edward Said, ao analisar os romances ingleses oitocentistas, ressalta o caráter de continuidade do projeto imperialista britânico na narrativa romântica. Para o teórico, isso ocorre porque "eles (os romances) nunca defendem que se abra mão das colônias, mas adotam a visão geral de que, na medida em que elas entram na órbita do predomínio britânico, esse mesmo predomínio é uma espécie de norma, sendo assim preservado juntamente com as colônias".&lt;br /&gt;Embora alguns críticos possam dizer que em &lt;em&gt;Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro&lt;/em&gt;, Macedo não se enquadre ao esquema romântico inglês ou francês, por não estar falando de terras distantes, mas do seu próprio país, é preciso, porém, entender que a narrativa de Macedo é um espelho que está a todo momento refletindo o imaginário do colonizador português. Macedo não lida com uma distância que pode ser medida em metros, mas uma distância que deve ser medida pelo tempo. E uma medida temporal se perde facilmente com a corrosão da memória; e a narrativa, quando colocada em forma de texto, tem o poder de manter vivo o passado de uma nação. Além disso, o fato de ele falar de dentro "silencia a plenitude da experiência do imperialismo, amputa-a e subordina-a ao predomínio de uma visão eurocêntrica e totalizadora", ficando, assim, mais fácil para se juntar "à história verdadeira os tais ligeiros romances, tradições inaceitáveis e lendas inventadas para falar à imaginação e excitar a curiosidade do povo que lê". (p.18)&lt;br /&gt;Em meados do século passado, por exemplo, o escritor inglês George Orwell, ao escrever obras, como 1984 e &lt;em&gt;Animal Farm&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;Fazenda Animal&lt;/em&gt;), revela uma literatura com uma abordagem claramente crítica e política. Segundo ele, a linguagem é uma das ferramentas mais poderosas, e que pode facilmente ser usada pelo Estado como forma de controle, através da omissão da verdade. Além disso, Orwell deixa claro que literatura e política sempre caminharam lado a lado, como podemos observar em um de seus ensaios:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Não gostar da política de um escritor é uma coisa. Não gostar dele porque ele te força a pensar é uma outra coisa, não necessariamente compatível com a primeira. Mas assim que você começa a falar sobre escritores "bons" e "ruins", você está explicitamente referindo-se a uma tradição literária, e, conseqüentemente, deixando de fora outros valores totalmente diferentes. Então, o que seria um "bom" escritor? Shakespeare foi bom? A maioria das pessoas concorda que ele foi. No entanto, Shakespeare é, e talvez tenha sido, até mesmo para os padrões de seu próprio tempo, um escritor com tendências reacionárias; e ele também é, sem dúvida, um escritor não acessível ao homem comum.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se a literatura pode ser uma forma de controle, então não há dúvida de que em alguns textos a relação entre autor e leitor pode também ser marcada pelo controle daquele em relação a este. Na literatura de tese, por exemplo, cria-se uma relação de autoridade do autor para com o leitor, isto é, "no texto literário de tese, uma só maneira de ver as coisas é a "boa", sendo errôneas todas as outras", como afirma Heloisa Toller Gomes em &lt;em&gt;Marcas da Escravidão&lt;/em&gt;. A capacidade interpretativa do leitor é excluída nesses tipos de literatura, e a "palavra autoral", segundo Heloisa, "aliada à maneira como no texto estruturam-se os acontecimentos, esclarece o seu sentido (pretensamente único) e hierarquiza os sistemas de valores ali representados, orientando o leitor para que ele, então, efetue a interpretação "correta".&lt;br /&gt;Em &lt;em&gt;Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro&lt;/em&gt;, os leitores devem fazer a "interpretação correta" dos fatos que estão sendo apresentados através dos olhos da mente de Macedo. As imagens produzidas não são feitas pelos leitores que o acompanham na viagem, mas transferidas diretamente para os olhos mentais daqueles, como se fossem um simples download de imagens e idéias, e que sem o auxílio de filtros, acabam processando as informações supostamente tidas como verdadeiras. Além do mais, o papel controlador de Macedo fica bastante nítido quando ele usa as digressões para dar uma "lição" de moral no leitor. Como bem observou Flora Sussekind, "é por vezes tão nítido esse papel "ordenador" do cronista que, a certa altura [...]chega a ensaiar desculpas retóricas dirigidas ao leitor-companheiro de viagem". A "lição" de moral se faz necessária, pois Macedo não admite deixar seus leitores-passageiros dormirem durante a viagem. É preciso mantê-los acordados, para apreciarem a obra humana, e seus grandes feitos.&lt;br /&gt;Em &lt;em&gt;Um Passeio pela cidade do Rio de Janeiro&lt;/em&gt;, Macedo faz uma mescla de histórias verídicas, como afirma no começo do livro, com as tradições populares "que abundam nos arquivos da imaginação", e que fazem parte das poesias dos povos, pois "os meninos as aprendem de cor, os poetas as escutam cobiçosos, a terra da pátria se enfeita com elas"(43) Portanto, no seu projeto de dar forma ao corpo da cidade do Rio de Janeiro, Macedo não pode agir com a frieza de um engenheiro ou arquiteto, fazendo apenas anotações e descrições físicas de monumentos, igrejas, praças e jardins. Ao contrário, ele quer mais do que dar forma a esta cidade, ele deseja humanizá-la; e com isso, fazer com que a cidade seja o verdadeiro coração do país.&lt;br /&gt;Além disso, para tornar a sua narrativa ainda mais comovente e até mesmo verossímil, Macedo transforma personalidades históricas, como o vice-rei Luiz de Vasconcelos e mestre Valentim, em personagens fictícias, bem ao estilo romanesco como afirma fazer uso no começo do livro. E para valorizar a história do Passeio Público, por exemplo, Macedo não quer apenas apresentar uma documentação histórica do jardim, com datas do início e inauguração da grandiosa obra, mas "buscar no último quartel do século décimo oitavo o princípio da história desse jardim público" (51).&lt;br /&gt;Mas quando pensamos que o nosso escritor-guia vai dar princípio à história do jardim, a narração é interrompida, e o leitor é mais uma vez, como de costume, envolvido em uma teia de informações; desta vez sobre o caos em que a capital se encontrava devido às fortes chuvas. E o resultado disso tudo é um problema que segue existindo até os dias de hoje: o rompimento de aquedutos das fontes públicas provocado pelas enchentes, deixando os habitantes sem água, e com uma terrível epidemia que abalou a "bela Sebastianópolis". Antes mesmo que alguém dissesse o que isso teria de a a ver com a história do Passeio Público, Macedo se defende dizendo: "Talvez me acusem de prolixo e divagador por entrar em explicações que não têm relação alguma com a história do Passeio Público. É uma injustiça: convém guardar as lembranças que vou registrando, e que podem para o futuro prevenir confusões possíveis." (52)&lt;br /&gt;As explicações se fazem necessárias para que Macedo possa construir a imagem do vice-rei Luiz de Vasconcelos de maneira positiva: um governante, como ele afirma, que "não desanimou", e que "deu prontas e enérgicas providências para o abastecimento de água", e que teve "força para ordenar uma série de obras importantes". Na construção do personagem Luiz de Vasconcelos, Macedo exalta as qualidades de um administrador afável, cortês e bondoso, qualidades que conquistaram as simpatias do povo.&lt;br /&gt;Pode-se dizer o mesmo de mestre Valentim, filho de um fidalgo português com uma brasileira, é valorizado por Macedo que via nele um artista tão talentoso quanto qualquer grande artista francês. A ênfase da amizade de mestre Valentim com o vice-rei Luiz de Vasconcelos, faz com que a construção do Passeio Público não tenha um caráter corriqueiro de uma relação meramente trabalhista entre os dois, mas, acima de tudo, um valor sentimental para a cidade do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;E para dar a obra esse valor sentimental, Macedo cria uma "historieta" popular, bem ao estilo do romance dezenovesco, para mostrar que o Passeio Público foi inspirado no amor platônico de Luiz de Vasconcelos por uma bela jovem de origem humilde chamada Suzana. Macedo então nos conta que certo dia, o vice-rei e mestre Valentim estavam os dois juntos a cavalgar quando chegaram junto do Monte das Mangueiras. Ao olhar para a cidade do alto do morro, Luiz de Vasconcelos faz um comentário ao mestre Valentim, que reflete bem o imaginário do colonizador a respeito da cidade, e que vale a pena reproduzir: "Temos montes demais na cidade, mestre. Eis aqui um outeiro que podia bem desaparecer, sendo substituído por uma rua". Fica aqui claro o incômodo pela geografia da cidade do Rio de Janeiro, com suas montanhas e morros, bem diferente das grandes cidades européias, como Paris, modelo a ser copiado pelo colonizador.&lt;br /&gt;O vice-rei convida então mestre Valentim para continuar o passeio a pé até chegarem à margem da lagoa do Boqueirão onde a jovem Suzana morava sozinha com sua avó em um modesto casebre. A partir desse momento, faz-se importante ressaltar que o relacionamento entre os dois passa a ser de cumplicidade, e nas palavras do próprio Luiz de Vasconcelos, ele reconhece que "não há aqui nem vice-rei nem artista: devemos supor que há somente dois curiosos um pouco apaixonados, um pouco imprudentes, mas em todo o caso honestos".(55)&lt;br /&gt;A mágica da narrativa de Macedo encontra seu clímax quando a bela Suzana revela ao seu primo e noivo Vicente que havia tido um sonho com o vice-rei. Esse, demonstrando ciúme, é logo acalmado por Suzana quando diz que sonhara na realidade com um gênio que tinha o rosto do vice-rei, mas que falava com os olhos, e fez surgir diante dela um lindo jardim no lugar da lagoa do Boqueirão:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O gênio levou-nos para fora, e tirando dos ombros uma túnica cor Angélica que trazia, estendeu-a sobre a lagoa do Boqueirão, que, de súbito, se transformou em um lindíssimo jardim. Depois, o gênio...a sombra foi-se esvaindo, até desaparecer de todo; e felizes, contentes, nós corremos como duas crianças travessas pelo jardim. (57)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;Toda essa cena é ouvida pelo vice-rei Luiz de Vasconcelos e mestre Valentim. Este ainda consegue observar a emoção marcada pelas lágrimas daquele. No dia seguinte, Luiz de Vasconcelos nomeia o primo de Suzana subsecretário; dá ordens a um engenheiro para aterrar a lagoa do Boqueirão; e pede a mestre Valentim que, além de ficar responsável pela ornamentação do jardim, não se esquecesse de reproduzir um coqueiro do qual os dois bem sabiam o motivo. A historieta de Macedo termina desta forma, e se foi verdade ou não o que ele narrou, o importante é que a história que deu origem ao jardim foi fruto, não do gênio que apareceu para Suzana, mas da genialidade de Macedo. E mesmo que sofresse severas críticas por seu modo de relatar os acontecimentos históricos, Macedo afirma que jamais deixaria de passear, pois, segundo ele:&lt;br /&gt;Esta historieta, tradição ou coisa que o valha, que aliás daria origem um pouco romanesca ao nosso Passeio Público, só poderia ter transpirado por uma indiscrição de mestre Valentim, ou porque Suzana houvesse adivinhado o segredo do gênio do seu sonho de moça. Em qualquer dos casos, acaba, porém, de um modo que não desmente, antes faz honra ao caráter generoso de Luiz de Vasconcelos. Se ainda assim não quiserem aceitar a tradição por lhe faltar seguro fundamento, roguem-me pragas ou critiquem-me à vontade, que nem por isso deixarei de passear". (58)&lt;br /&gt;A partir de então, Macedo quebra o encanto do homem benevolente que envolvia a figura de Luiz de Vasconcelos, dando-o de volta a "bengala de vice-rei", e transformando-o em um governante de caráter absoluto e violento. Para enfatizar os momentos de capricho e mau humor do vice-rei, Macedo dá uma amostra aos seus leitores-passageiros da arbitrariedade de Luiz de Vasconcelos quando um dia este descendo a ladeira do Monte da Conceição irrita-se com João Homem, que era levado em uma cadeirinha por dois escravos em direção ao alto do monte. O motivo era simples: os escravos exaustos por causa do forte calor, e porque João Homem era muito gordo e pesado para ser carregado por aqueles. O vice-rei não pensou duas vezes antes de tomar a seguinte atitude: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Mandou-os parar, fez sair da cadeirinha a João Homem, ordenou-lhe que tomasse o lugar de um dos negros, obrigou a este a ir sentar-se dentro da cadeirinha, e lá foi o senhor a carregar o escravo pela ladeira acima".&lt;br /&gt;- É para ensiná-lo a ser mais humano – disse o vice-rei. (59)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Poderíamos até pensar que a passagem acima trata-se de uma ironia de Macedo, criticando o sistema abolicionista. Porém, algumas linhas mais abaixo, o nosso guia procura logo apagar o sorriso do leitor, defendendo o direito de João Homem de ser levado por seus escravos, mesmo que o sol estivesse escaldante, e que eles morressem de insolação:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Talvez que hoje alguns possam rir-se do tormento por que passou João Homem; afirmo, porém, que naquele tempo, nem o povo riu-se e nem João Homem queixou-se. Mas a que vem isto para a história do Passeio Público? Tendes razão. Foi um incidente que não tem aplicação ao caso. Eu, porém, me empenhava em impedir que se confundisse o juízo que fiz das qualidades pessoais e dos serviços do vice-rei Luís de Vasconcelos, com o juízo que faço daquele bárbaro sistema de governo, &lt;strong&gt;que abria espaço a tantos vexames, tantas violências e tanta opressão que envileciam o povo&lt;/strong&gt;. (p.98) (grifo meu)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que se evidencia, portanto, é que quando Macedo defende o "povo", ele está excluindo os negros, os índios e os mestiços. O relato supracitado só reforça a tese de que Macedo só via como legítimos representantes do povo brasileiro, os portugueses ou filhos de portugueses de cor branca, como João Homem. Por conseguinte, negros sendo explorados até a exaustão não deveria ser visto como algo violento, nem vexatório, mas um homem branco ter que carregar um negro até o alto do morro, como fez o vice-rei, isso sim seria considerado um abuso de poder e vergonhoso.&lt;br /&gt;Agora, passemos a direção para nosso ilustre Machado. Em &lt;em&gt;O Bordado de um tempo&lt;/em&gt;, Margarida de Souza Neves observa que a narrativa de Machado de Assis "toma como ponto de partida a convicção de que a fonte literária [...] não nos revela de forma transparente, neutra e finalmente objetiva a sociedade que a produz e que pretendemos compreender". Os caminhos tomados por machado nunca são uma via de mão única. Ao contrário, a narrativa segue sempre por caminhos de mão dupla, tendo sempre a ambigüidade e ambivalência como características presentes em seus textos.&lt;br /&gt;No tecido invisível do seu tempo, Machado não se preocupa em apenas bordar a cidade do Rio de janeiro "como um mero mapeamento de bairros, ruas, praças e travessas", mas, acima de tudo, como um tecido social. O Machado historiador, ainda nas palavras de Margarida Neves,&lt;br /&gt;não é um arqueólogo da documentação, mediador neutro entre a verdade da fonte e a verdade da História, mas sim aquele que é capaz de formular uma problemática e de construir uma interpretação em que reconhece o encontro de duas historicidades: a sua própria e da documentação que utiliza.&lt;br /&gt;Machado tem consciência de que não é possível olhar para o passado sem a interferência do olhar do presente. No tecido do tempo, as histórias são bordadas com o mesmo fio, embora vistas de longe pareçam formar um grande mosaico. Para enxergar e desatar os nós que ligam uma história a outra é preciso ser um leitor com olhar aguçado e atento, como o próprio Machado afirma: "o leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade que estava, ou parecia estar escondida".(Esaú e Jacó, capítulo LV)&lt;br /&gt;Ao contrário de Macedo que não abre espaço para ruminações, Machado convida o leitor à interpretação, e ao longo do discurso, sinalizações dispostas no texto confirmam a intenção do autor. A ambigüidade e a imprecisão possibilitam inesgotáveis indagações a respeito das personagens e suas reais intenções, deixando o texto sempre em aberto. Não há uma leitura apenas, mas várias possibilidades de interpretação. Basta lembrarmos da eterna dúvida de Bentinho se Capitu o traiu ou não. Ao explicar a perspectiva pirrônica assumida por Bentinho, Maia Neto diz que "Dom Casmurro questiona tanto sua convicção assumida de que Capitu foi infiel quanto a crença oposta de que ela era fiel".&lt;br /&gt;Essa atitude cética do narrador / personagem vai contra todas as expectativas do leitor comum, sempre ávido por um desfecho da trama. E Machado reconhecia que o seu estilo de narração poderia causar uma certa irritação aos leitores "apressados". Em &lt;em&gt;Esaú e Jacó&lt;/em&gt;, por exemplo, Machado lê uma reflexão (hipotética, porque a carta não existe, é uma ironia ao estilo folhetinesco dos escritores românticos) de uma leitora, pedindo para que pulasse os capítulos entediantes e entrasse logo "no capítulo do amor ou dos amores" entre os gêmeos e Flora: "Já estou cansada de saber que os rapazes não se dão ou se dão mal; é a segunda ou terceira vez que assisto as blandícies da mãe ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor, às duas, se não é uma só a pessoa..."(Capítulo XXVIII)&lt;br /&gt;A resposta é dada com a ironia peculiar de Machado: "Se quer compor o livro, aqui tem a pena, aqui tem papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler somente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje entre dois capítulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator destas aventuras".(idem)&lt;br /&gt;A passagem acima deixa claro que na obra machadiana o leitor é constantemente lembrado de que o que ele ou ela está lendo não passa de uma obra ficcional. Essa suspensão da ficção não aparece em Macedo, como vimos mais acima. Este tenta, através de uma contagiante narração, convencer o leitor sobre a "verdadeira" origem do Passeio Público, criando diálogos de intimidade entre duas figuras históricas, como Luiz de Vasconcelos e Mestre Valentim, quando, na realidade, ninguém testemunhou o suposto encontro entre os dois.&lt;br /&gt;Mesmo assumindo a ficção, vale lembrar que Machado pede para que o leitor tenha confiança nos seus relatos. O fato de ele não tomar partido em relação aos fatos narrados, não implica que ele se omita da realidade que está a sua volta, e mais ainda, do papel que desempenha como escritor. Em cada romance, conto e crônica, percebemos que Machado se mantém atento às mudanças históricas, e cujas conseqüências se desvelam através dos atos e pensamentos de suas personagens. Aliás, pode parecer obviedade de minha parte, mas não podemos esquecer que as personagens não têm vontade própria, mas a vontade única e exclusiva de expor o olhar clínico de seu criador. Não é a toa que Machado foi apelidado de "bruxo do Cosme Velho", pois, de certo modo, a cada leitura e releitura de sua obra, somos enfeitiçados pelo poder de sua retórica.&lt;br /&gt;Para alguns críticos, o ceticismo de Machado o levou a uma postura acomodada, como a do Conselheiro Aires, que evitava "a controvérsia, quer porque a controvérsia mais afasta a verdade do que a aproxima, quer porque não se sentem seguros para escolher qualquer um dos lados da questão", conforme comentário de Gustavo Bernardo.&lt;br /&gt;Não se nega que a postura cética das personagens nas crônicas, nos contos e nos romances de Machado veicule "uma crítica bastante ácida à sociedade e seus preconceitos". No entanto, para seus críticos, este "nunca se posicionou claramente a favor de mudanças [...] ou favor da abolição da escravatura" – por ser mulato, exigia-se um envolvimento mais explícito pela causa abolicionista. E pela suposta falta de patriotismo, as obras machadianas não poderiam ser usadas como um modelo para as gerações futuras, pois, segundo Otávio Brandão, "o Brasil precisa de uma literatura máscula, viril, varonil, literatura de combate e libertação!".&lt;br /&gt;Mas que literatura máscula seria essa? E será que o simples fato de se posicionar politicamente torna uma literatura de combate e libertação? O posicionamento claramente antiabolicionista de Macedo, como vimos acima, ao defender João Homem dos "abusos" cometidos por Luis de Vasconcelos, entraria nesta categoria?&lt;br /&gt;O fato é que Machado estava à frente de seu tempo, e ao comentar os acontecimentos históricos, como a abolição da escravatura, ele jamais poderia se posicionar favorável à abolição ou a sua continuidade, pois era capaz de prever as conseqüências de um ato meramente político. A crônica do Pancrácio – do jovem negro alforriado por seu dono antes da Princesa Isabel – é sintetizada numa única irônica frase: "tu és livre". A afirmação, no entanto, é negada pela realidade das condições propostas para que Pancrácio fosse realmente livre.&lt;br /&gt;Daí a impossibilidade de Machado compartilhar do entusiasmo e otimismo de seus contemporâneos, que viam nas "novas idéias" do positivismo de Comte e do evolucionismo social de Spencer "a futura derrubada da metafísica e da monarquia e o advento da ciência e do republicanismo".&lt;br /&gt;Mudanças não são feitas através de decretos. Mudar simplesmente o rótulo ideológico não é garantia de se estar caminhando para a liberdade e a justiça. A metáfora da tabuleta do Custódia em &lt;em&gt;Esaú e Jacó&lt;/em&gt; resume o que foi, para Machado, a transferência de um Brasil imperial para um republicano: uma questão ortográfica.&lt;br /&gt;Na obra de Machado, a suspensão do juízo é característica marcante, e, segundo Maia Neto, a evolução do personagem cético não se deu de imediato, mas de forma gradual, principalmente de um romance a outro. O seu apogeu ocorreu no último romance, &lt;em&gt;Memorial de Aires&lt;/em&gt;. Maia Neto escreve:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;De Brás Cubas a Aires, a posição cética do personagem se desenvolve. O autor era inicialmente defunto, então tornou-se casmurro, e, finalmente, espectador. Do primeiro ao terceiro, o autor ficcional torna-se progressivamente menos familiarizado com os motivos e intenções dos outros personagens. Suas crenças tornam-se gradativamente menos certas e ele, menos assertivo. A solução para a crise cética é progressivamente é mais definida como autoria. No último romance de Machado de Assis, o ceticismo encontra sua forma literária última e o personagem cético encontra seu papel final como autor..&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Deixo agora de passear com nossos ilustres brasileiros, para concluir que a proposta de Macedo, mesmo sem dizer abertamente, é ainda uma continuidade dos valores que foram impostos à base da força aos primeiros moradores desta terra de Santa Cruz. Em nenhum momento, escutamos a voz do índio, do negro ou do mestiço. Ah, sim, Suzana, a bela jovem pela qual Luiz de Vasconcelos se encantou. Mas convenhamos que ela só serviu para dar mais sabor às aventuras do colonizador, e amenizar a truculência do processo colonial brasileiro. Se lembrarmos da índia de José de Alencar não teremos dificuldades em reconhecer as semelhanças. Em seu projeto patriótico, Macedo silencia toda e qualquer voz que não seja a do conquistador europeu.&lt;br /&gt;Por um caminho oposto, Machado não somente critica essa visão de mundo continuista e monolítica, como também passa a duvidar de todo e qualquer ato ou decreto que venha com uma bandeira política e ideológica anexado a ele. É claro que Machado não ensina e nem indica uma direção correta, pois poderia cometer os mesmos erros de seus contemporâneos. Prefere, assim, suspender o juízo em vez de perdê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;REFERÊNCIAS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;ASSIS, Machado. &lt;em&gt;Esaú e Jacó&lt;/em&gt;. Rio de Janeiro: Martin Claret. 2006.&lt;br /&gt;2. CROSBY, Alfred, &lt;em&gt;Ecological imperialism: The expansion of Europe, 900-1900&lt;/em&gt;. Cambridge: Cambridge University Press, 1986.&lt;br /&gt;3. GOMES, Heloisa Toller. &lt;em&gt;As Marcas da Escravidão: O Negro e o Discurso Oitocentista no Brasil e nos Estados Unidos.&lt;/em&gt; Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994.&lt;br /&gt;4. HALL, Stuart. &lt;em&gt;A Identidade Cultural na Pós-Modernidade&lt;/em&gt;; tradução: Thomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro – 3.ed.- Rio de Janeiro: DP&amp;amp;A, 1999.&lt;br /&gt;5. MACEDO, Joaquim Manuel de. &lt;em&gt;Um Passeio pela cidade do Rio de Janeiro&lt;/em&gt;. Rio de Janeiro; Belo Horizonte: Garnier, 1991. p.17-76.&lt;br /&gt;6. NEVES, Margarida de Souza. &lt;em&gt;O bordado de um tempo&lt;/em&gt;. 1985, p.34&lt;br /&gt;7. PECHMAN, Robert Moses. "O corpo do país/O corpo da cidade/A crônica e os passeios pela cidade/Vozes da cidade". In: &lt;em&gt;Cidades estreitamente vigiadas: o detetive e o urbanista&lt;/em&gt;. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002. p.165-191.&lt;br /&gt;8. SAID, Edward W. &lt;em&gt;Cultura e Imperialismo&lt;/em&gt;. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.&lt;br /&gt;9. _____________, &lt;em&gt;Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente&lt;/em&gt;. São Paulo: Companhia das Letras, 1990&lt;br /&gt;10. SUSSEKIND, Flora. O "observador de costumes"/O cronista como viajante. In: &lt;em&gt;O Brasil não é longe daqui. O narrador, a viagem&lt;/em&gt;. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 222-234.&lt;br /&gt;11. THORNLEY, G. C. &lt;em&gt;An Outline of English literature&lt;/em&gt;. Essex: Longman, 1995.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TEXTOS NA INTERNET:&lt;br /&gt;BERNARDO, Gustavo. "O bruxo contra o comunista: o incômodo ceticismo de Machado de Assis". Disponível em: &lt;a href="http://paginas.terra.com.br/arte/dubitoergosum/editor.htm"&gt;http://paginas.terra.com.br/arte/dubitoergosum/editor.htm&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;NETO, José R. Maia. "Machado de Assis: ceticismo e literatura". Disponível em: &lt;a href="http://paginas.terra.com.br/arte/dubitoergosum/editor.htm"&gt;http://paginas.terra.com.br/arte/dubitoergosum/editor.htm&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;ASSIS, Machado. "A crônica da Abolição". Disponível em: &lt;a href="http://paginas.terra.com.br/arte/dubitoergosum/editor.htm"&gt;http://paginas.terra.com.br/arte/dubitoergosum/editor.htm&lt;/a&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18759176-3911725587531660989?l=claudiolsm.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://claudiolsm.blogspot.com/feeds/3911725587531660989/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18759176&amp;postID=3911725587531660989&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/3911725587531660989'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18759176/posts/default/3911725587531660989'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://claudiolsm.blogspot.com/2007/10/macedo-versus-machado-dois-passeios.html' title=''/><author><name>Cláudio Luís</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14350638065532373474</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18759176.post-7258513999956928031</id><published>2007-10-04T14:39:00.000-04:00</published><updated>2007-10-04T14:40:50.743-04:00</updated><title type='text'>Machado de Assis: ceticismo e literatura</title><content type='html'>&lt;strong&gt;MACHADO DE ASSIS: CETICISMO E LITERATURA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;José R. Maia Neto&lt;br /&gt;(Publicado em KRAUSE, Gustavo Bernardo (org). Literatura e ceticismo. São Paulo: Annablume, 2005.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Richard H. Popkin descreve como, após o Iluminismo, o ceticismo moderno (que foi revivido durante a Contra-Reforma como propedêutico ao fideísmo) introduziu "o desafio que ainda estamos tentando resolver: como podemos viver com dúvidas intelectuais últimas sobre tudo, e com uma incapacidade de recapturar a fé inocente do Pré-Iluminismo?1 Neste artigo, apresento a resposta peculiar dada por Machado de Assis a este problema.&lt;br /&gt;Durante a segunda metade do século dezenove, os intelectuais brasileiros estavam eufóricos com o "surgimento de novas idéias", em particular com o positivismo de Comte e o evolucionismo social de Spencer.2 Machado de Assis não compartilhava deste entusiasmo e otimismo de seus contemporâneos, que viam nas "novas idéias" a futura derrubada da metafísica e da monarquia e o advento da ciência e do republicanismo.3 Embora fosse cético com relação às "novas idéias", que favoreciam um certo ateísmo, Machado de Assis não permaneceu alheio ao prevalecente ceticismo religioso de sua época. Apesar da influência de Pascal (que foi marcante), Machado de Assis não responde ao ceticismo apelando à religião. Em vez disto, embora não tivesse nenhuma familiaridade com os antigos céticos, o desenvolvimento literário e filosófico de seus romances demonstra a busca e a gradual definição de um personagem cético que combina a suspensão na crença e a ataraxia (paz mental) do Pirronismo com uma atitude estética em relação à vida.&lt;br /&gt;Examino a seguir a construção deste personagem cético por Machado de Assis em seus três últimos romances, viz., Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Dom Casmurro (1900), e Memorial de Aires (1908). Contudo, começo com uma breve exposição sobre a teoria do discurso literário proposta por Mary L. Pratt como ponto de partida para avaliar a relevância literária do ceticismo de Machado de Assis.&lt;br /&gt;Pratt desenvolve sua teoria baseada no modelo de conversação cooperativa de Grice. De acordo com Grice, a conversação cooperativa baseia-se no seguinte princípio de cooperação (PC): "Faça sua contribuição conversacional tal como e quando exigida, com a finalidade aceita ou a direção da troca conversacional na qual está engajado."4&lt;br /&gt;De acordo com o PC, o falante deve seguir estas máximas: [i] Máxima da Quantidade: "Faça sua contribuição tão informativa quanto necessário", e "Não faça sua contribuição mais informativa que o necessário"; [ii] Máxima da Qualidade: "Não diga o que acredita ser falso", e "Não diga aquilo para o que não tem evidência"; [iii] Máxima da Relação: "Seja relevante"; e [iv] Máxima do Modo: "Seja perspicaz", com as submáximas "Evite obscuridade de expressão", "Evite ambigüidade", e outras.5&lt;br /&gt;Grice diz que o falante pode conscientemente deixar de cumprir uma máxima nas seguintes condições: ele pode (a) discretamente violar uma máxima (isso normalmente leva a compreensões errôneas), (b) deparar-se com um conflito – cumprir uma máxima implica a violação de outra (uma contribuição específica pode ser muito relevante, mas o falante pode não ter evidência adequada de sua verdade), (c) optar por não seguir a máxima e o PC (recusar-se a cooperar), ou (d) explorar uma máxima (deixar de cumpri-la sem recusar-se a cooperar). Neste caso, o não cumprimento da máxima é explorado, gerando o que Grice chama de implicatura, viz., o significado do falante é inferido pelo ouvinte a partir da pressuposição pelo ouvinte de que o falante está observando o PC.&lt;br /&gt;O modelo de Grice destina-se principalmente a explicar as situações de discurso informativo. Pratt o adapta a situações de discurso literário, introduzindo o conceito de narrabilidade de Labov. Um discurso "narrável" ou "exibível" é aquele cuja finalidade não é informar ou executar atos pragmáticos de discurso, mas recriar e avaliar experiências. Esta finalidade modifica as condições de cumprimento das máximas do modelo. Por exemplo, a ambigüidade pode ser justificada desde que proporcione prazer estético. O caráter não sério do discurso literário redefine o PC subjacente à troca entre o autor e o leitor. Embora as máximas e o PC sejam freqüentemente violados pelos falantes ficcionais, o leitor compreende a violação como uma exploração das máximas pelo autor. Não importa o quanto o falante ficcional viole as máximas, o leitor presume que o escritor observa o PC tal qual definido para a troca literária: as violações são consistentes com o discurso narrável apresentado pelo autor.6&lt;br /&gt;Memórias Póstumas de Brás Cubas O ceticismo aparece na obra literária machadiana com as Memórias Póstumas. O ponto de vista de todos os romances do autor anteriores às Memórias é onisciente. O narrador tem conhecimento irrestrito das intenções e motivações do personagem. A partir das Memórias, o ponto de vista restrito e a narrativa em primeira pessoa tornam-se as principais técnicas de Machado.7 O ceticismo adquire assim uma expressão formal.&lt;br /&gt;As Memórias Póstumas é o romance mais filosófico de Machado de Assis e aqule no qual a influência de Pascal é mais notável. A filosofia de Brás Cubas enfatiza a miséria e a futilidade da condição humana. O gênero autobiográfico escolhido por Machado para esta narrativa facilita a expressão desta filosofia. Ao mostrar sua vida, Brás Cubas aponta a dimensão inexorável e impiedosa do tempo. Os personagens, amigos, amantes, instituições, ideais – tudo perece durante seu tempo de vida. Brás Cubas refere-se ao status semifilosófico de sua narrativa.&lt;br /&gt;Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.8&lt;br /&gt;Pratt ilustra seu modelo com o Tristam Shandy de Sterne. Shandy, o autor ficcional, opta por não seguir as máximas (em particular as de Relação e Modo, que são básicas em sua autobiografia) e o PC.9 Isto representa a verdadeira exploração das máximas pelo autor. Sterne observa o PC na situação de discurso literário em que ele e o leitor estão engajados. Este não lê o trabalho como uma autobiografia séria, mas como um texto narrável.&lt;br /&gt;As Memórias Póstumas de Machado de Assis é freqüentemente comparada com o Shandy de Sterne. Como indicado acima, o próprio Machado de Assis reconhece a influência de Sterne. Contudo, diferentemente de Shandy ( segundo a interpretação de Pratt) e apesar de violações semelhantes, a autobiografia de Brás Cubas é séria. Ele tenta relatar os principais eventos e o significado de sua vida. O critério da seletividade que determina o que deve ser incluído na autobiografia é filosófico: Brás Cubas seleciona aqueles eventos que mostram a miséria humana. Este procedimento explica as "rabugens de pessimismo" que Brás Cubas considera peculiar à sua autobiografia. " Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia" Uma autobiografia, como Brás Cubas afirma, retém a "substância da vida": por trás das elusivas agitações dos homens jaz o vazio da existência. Escrever torna-se a única atividade significativa para o "defunto autor, para quem a campa foi outro berço."&lt;br /&gt;Um importante aspecto do pessimismo de Brás Cubas é sua visão de que os valores são arbitrários. Este ceticismo ético é expresso de forma literária. Brás Cubas não faz a opção de não seguir as máximas e o PC. As violações que ele comete devem-se a situações de conflitos, em particular entre a Máxima da Relação ("Seja relevante") e a Máxima da Qualidade ("Não diga aquilo que acredita ser falso"). O autor cético desafia o critério social que discrimina o que é relevante na vida e aquilo que não é (e, desta forma, o que deve ser incluído ou não em uma autobiografia). A problematização das máximas por Brás Cubas pode ser observada nos próprios títulos de alguns capítulos. Em "Que se não entende" (capítulo CVIII), Brás Cubas tenta descrever uma experiência que está de fato além de sua compreensão: "Era mêdo, e não era mêdo; era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade." Portanto, em contraste com Shandy, Brás Cubas observa o PC. Porque a própria experiência é ambígua, a descrição inequívoca, isto é, a observação da Máxima do Modo, viola a Máxima da Qualidade. No capítulo "Simples repetição" (CXLV), Brás Cubas se refere brevemente ao logro de que foi vítima Dona Plácida.&lt;br /&gt;Quanto aos cinco contos, não vale a pena dizer que ... [ele resume brevemente]. É o caso dos cães do Quincas Borba. Simples repetição de um capítulo.&lt;br /&gt;Novamente, Brás Cubas vê-se obrigado a violar a Máxima da Quantidade: ‘não faça a contribuição mais informativa que o necessário’. Se esta máxima fosse rigorosamente seguida, nenhuma autobiografia seria escrita. Do ponto de vista pascaliano de Brás Cubas, a história de Dona Plácida é no fundo a história miserável do cachorro de Quincas Borba, que é a história de todos os seres humanos. Ao violar as máximas sem abandonar o PC, Brás Cubas exprime a tese filosófica de que estas regras não podem ser seguidas por alguém (como ele próprio) ciente da condição miserável do ser humano, que elas não podem explicar a vida neste mundo.&lt;br /&gt;Todo o capítulo CXXXVI – "Inutilidade" – contém somente a seguinte frase: "Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil".&lt;br /&gt;À primeira vista, assim como Shandy, Brás Cubas se recusa a cooperar. A Máxima da Relação, que proíbe a inclusão de capítulos desnecessários na autobiografia, e a Máxima do Modo, que coíbe a ambigüidade, são violadas.10 O capítulo seguinte mostra, entretanto, que Brás Cubas observa o PC. Há uma razão filosófica para desafiar a Máxima da Relação. "E daí, não; ele resume as reflexões que fizi no dia seguinte ao Quincas Borba." Brás Cubas se refere ao seu "discurso da barretina". Na ocasião ele era um deputado em busca de indicação para o ministério. Ele chamou a atenção dos políticos para si mesmo ao fazer um discurso enfático e retórico no Parlamento, protestando contra o tamanho da barretina dos soldados da Guarda Nacional.&lt;br /&gt;Vária foi a impressão dêste discurso. Quanto à forma, ao rapto eloqüente, à parte literária e filosófica, a opinião foi só uma; disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguém ainda conseguira tirar tantas idéias. (Capítulo CXXXVII)&lt;br /&gt;Ao demonstrar que o capítulo era mesmo necessário, Brás Cubas exprime seu ceticismo filosófico: uma barretina é tema político tão relevante (ou irrelevante) quanto qualquer outro, desde que se tenha a perspectiva filosófica da arbitrariedade da relevância social e das questões mundanas em geral. Assim como Shandy, Brás Cubas viola a Máxima da Relação (‘Seja relevante’), mas, diferentemente daquele, não porque o discurso que pretende exibir seja narrável. Ao contrário, seu discurso torna-se narrável porque a Máxima da Relevância parece inválida do ponto de vista cético. É exatamente a narrabilidade do discurso (neste caso particular, o discurso político) que é enfatizada no capítulo. Brás Cubas compreende o mundo como um lugar onde somente a narrabilidade faz sentido. As práticas humanas são privadas de valor intrínseco. Como estas práticas são desprovidas de significado, tudo que resta a fazer é elaborá-las esteticamente. Como observa Brás Cubas, o túmulo foi o seu novo berço, seu berço de escritor. Sua crise cética poderia ser "resolvida" somente com a morte do homem e o nascimento do autor.&lt;br /&gt;Dom Casmurro Memórias Póstumas é apenas o primeiro passo no desenvolvimento da posição cética de Machado de Assis. Brás Cubas não é um pirrônico. No plano filosófico, ele tem uma visão determinada da condição humana. No plano prático, ele é um cético que não consegue viver seu ceticismo (ele é um defunto, não um personagem vivo). Nos dois romances seguintes a Memórias Póstumas, Machado de Assis aproxima-se do Pirronismo e progressivamente elabora uma posição que permite ao personagem cético viver seu ceticismo.&lt;br /&gt;Isolado da vida social (como Brás Cubas), Dom Casmurro11 escreve memórias cujo foco principal é seu relacionamento com Capitu (da amizade de infância ao casamento, até o divórcio). O evento central é o suposto adultério de Capitu. Dom Casmurro acredita que seu filho Ezekiel não é seu, mas de seu amigo Escobar.&lt;br /&gt;A memória de Dom Casmurro é menos filosófica (no sentido de mais cética) que a autobiografia de Brás Cubas. Enquanto Brás Cubas é assertivo e filosófico em seu pessimismo, Dom Casmurro questiona as bases de sua própria convicção sobre o adultério de Capitu. Ele assume uma perspectiva pirrônica em sua memória. Ao empregar argumentos similares aos dos tropoi de Enesidemo (os quais Machado de Assis pode conhecer através de sua leitura dos Ensaios de Montaigne), Dom Casmurro questiona tanto sua convicção assumida de que Capitu foi infiel quanto a crença oposta de que ela era fiel.12 Dom Casmurro atinge a ataraxia, entretanto, somente quando se persuade do adultério. Neste momento, ele envia Capitu para a Europa, retira-se da vida social, e torna-se autor. Sua narrativa mostra com que freqüência e quão inquietadoramente sua opinião mudou de um extremo ao outro antes de seu divórcio de Capitu (e de seu afastamento da vida social). Como não podia tolerar a perturbação mental causada pelas muda
